Há uma agenda internacional comum para os Brics? Análise de convergências e divergências, por Paulo Henrique da Silva

Desde 2009, esses cinco países tem se realizado encontros, por ocasião das Cúpulas, dando origem a um agrupamento propriamente dito. Embora os cinco países não constituam um bloco econômico formal – mas uma aliança baseada no principio da cooperação – o grupo têm negociado vários tratados de comércio, tecnologias e investimentos diretos, com vistas a aumentar seu crescimento econômico e poder de influencia nos organismos internacionais.

A convergência dos Brics está primeiramente no seu peso demográfico e sua dimensão territorial. Esse conjunto de países representa 47% da população total do mundo, que pode ser traduzido para o comercio internacional como um mercado consumidor em potencial e também, qualquer decisão política ou econômica que esses países resolverem seguir em conjunto terá necessariamente grande peso nas decisões internacionais.

Em relação à dimensão territorial. Esses cinco países representam aproximadamente 39,72 milhões de Km2 da superfície mundial. Essa significativa dimensão territorial pode-se destacar participação estratégica dos Brics dentro dos seus continentes: Americano, Asiático, Europeu e Africano, já que são consideradas potências regionais. Além disso, a rica biodiversidade proporcionar para o grupo uma melhor participação no comércio global de commodities, assim como na evolução das atividades industriais como a farmacêutica e a de biotecnologia.

Outro ponto de convergência refere-se à ampliação das trocas comerciais entre os membros dos Brics. Segundo dados recentes publicados pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil (2012) desde o ano da formação do grupo, tem visualizado uma evolução do comercio exterior. Nas exportações, o grupo obteve um crescimento de US$ 566 bilhões em 2002 para US$ 2.541 bilhões em 2011. Já as importações, no ano de 2002, o volume importado pelo grupo foi de US$ 472 bilhões em 2002, chegando a US$ 2.353 em 2011.

Mas talvez a maior convergência dos Brics seja a dimensão política. Onde representa um grupo de países emergentes que surgem frente ao espaço ocupado pelo G7 no mundo desenvolvido, e defendem a ideia de mudança da ordem mundial predominantemente ocidental.

Oficialmente eles reinvidicam uma “ordem global multipolar equitativa democrática”, sendo esse componente de identidade que reside uma afinidade reformista da ordem internacional. No Comunicado Conjunto acordado em Ecaterimburgo, em 2008, o grupo destacaram os seguintes pontos de consenso: necessidade de assegurar oportunidades iguais para o desenvolvimento de todos os países, fortalecimento do multilateralismo, reforma da ONU e de seu Conselho de Segurança.

Também inclui a pauta de debates assuntos como a reforma do FMI e do Banco Mundial, com a redistribuição dos direitos de voto destas instituições, além da criação de um Banco de Desenvolvimento.

Todavia, o grupo é formado por países profundamente diferentes entre si, seja no campo político, econômico ou no desenvolvimento tecnológico. As suas culturas são distintas. O Brasil e a África do Sul com características mais próximas da cultura ocidental, a China, e Índia aflora a cultura oriental. E a Rússia, que transita entre as duas culturas.

Os sistemas políticos também diferem: da democracia liberal, em certos países, a formas de controle por um único partido, em outros. Suas economias também tampouco coincidem: agricultura no Brasil, manufaturas na China, energia na Rússia, serviços na Índia e a África do Sul reproduz um modelo de exportação, de certo modo, parecido com o do Brasil.

O plano de desenvolvimento econômico e social também difere: A Rússia situa-se em um patamar social mais elevado que os demais membros, e A índia ocuparia a posição mais modesta.

Mas a maior divergência é a não identificação de um conjunto nítido de objetivos comuns entre os Brics. O grupo não apresenta um projeto único de reorganização econômica e política global, defende tão somente, políticas de reforma das instituições internacionais, que passem a incluir os seus interesses.

A agenda de interesses dos membros é pouco convergente e demonstra sua fragilidade como ator político. Tomando como exemplo, o Brasil, algumas divergências em relação aos outros membros são bastante notórias. Uma delas é em relação ao Conselho de Segurança da ONU, onde a China, que já possui assento permanente, tem resistido a franquear apoio ao Brasil. Outro tema é da segurança internacional, onde o Brasil apoia a restrição ao avanço das armas nucleares, ponde que opõe as estratégias da China e Rússia.

Percebe-se que, a igualdade que os uniu foi o desejo de articular uma arquitetura global mais democrática e multipolar e favorável à inserção desses países no sistema mundial. Os Brics estão juntos, porque sabem o que desejam não podem ser alcançado por nenhum dos seus membros, individualmente.

E como bem sinaliza VISENTINI (2012) as parcerias estratégicas entre esses cinco países abrem novas perspectivas para o fortalecimento Sul-Sul e au­mento do poder de barganha dos países emergentes nos organismos internacionais.

Porém, o grande desafio dos Brics é então, a criação de uma agenda comum que possa impactar as relações internacionais, com coordenações de ações conjuntas no cenário internacional, possibilitando ao grupo apresentar-se como uma única voz em temas pontuais. Mas essa agenda comum é possível ser construída gradualmente através de seus pontos de convergências.

Referências

CASELLA, Paulo Borba. (2011). BRIC – Uma perspectiva de cooperação. São Paulo: Atlas.

MINISTERIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Comercio Exterior dos Brics. Em: [http://www.brasilglobalnet.gov.br/ARQUIVOS/IndicadoresEconomicos/ComExtBRICs.pdf]. Disponibilidade: 02/06/2012.

O’NEILL, Jim. (2001). Building Better Global Economic BRICs. Global Economics, no.6.Goldman Sachs.

VISENTINI, Paulo Fagundes. (2012). A dimensão politica-estratégica dos Brics: entre a panaceia e o ceticismo. IN: O Brasil, os Brics e Agenda Internacional.Brasilia: FUNAG.p 187-204.

Paulo Henrique da Silva é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba – UEPB (paulo.henriquedasilva@hotmail.com).

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