O Plano Brasil 2022 e a política externa brasileira, por Armando Gallo Yahn Filho

Antes de iniciarmos a análise de um ponto específico do Plano Brasil 2022 – a política externa brasileira –, importante destacar o método da prospectiva estratégica territorial sobre o qual parece ter sido elaborado. Ainda que não tenha sido mencionado no texto o método utilizado para o referido trabalho, a lógica que inspira a construção do cenário para o Brasil, em 2022, é a mesma da teoria de Michel Godet e Philippe Durance.

Tal como Godet e Durance colocam em sua obra A Prospectiva Estratégica, a característica básica da prospectiva territorial está na participação de atores sociais (públicos e privados), chegando a uma governança, e colocando como questão-chave: que futuro queremos para o nosso território? (GODET & DURANCE, 2011)

Em que pese a possibilidade dos futuros possíveis não serem os desejáveis, não se torna viável traçar qualquer estratégia de ação sem saber para onde estamos caminhando. Segundo Godet e Durance (2011), uma das alternativas para a construção desta estratégia tem como base a visão de um futuro desejável, caso este esteja bem definido. Para os autores, se há vários cenários desejáveis, ficará difícil escolher com qual trabalhar. Neste caso, parece estar claro, pela leitura do Plano Brasil 2022 (BRASIL, 2010a) e de seus Trabalhos Preparatórios (BRASIL, 2010b), que os autores estavam cientes do País que se pretende daqui a uma década.

 Trazendo o debate para o plano específico das relações internacionais, vale notar um aspecto metodológico de fundamental importância na construção do Plano Brasil 2022, que é a contextualização do Brasil no cenário regional e mundial. Como Professor do Curso de Relações Internacionais da UFU, tenho enfatizado muito aos meus alunos a impossibilidade de se compreender o desenvolvimento, ou a estagnação, de cada país fora de um contexto global.

Interessante notar que partimos da hipótese de um mundo interdependente, no qual os atores do sistema internacional não se restringem mais ao Estado-nação, ainda que este seja o ator central. Neste sentido, enfatizamos o fato de que a política externa tem como objetivo atender aos interesses do Estado nas relações internacionais, mas sofre a influência de diversos setores da sociedade, assim como impacta neles.

No que tange ao cenário de 2022, o Plano da Secretaria de Assuntos Estratégicos destaca que o Brasil “deverá ampliar seus programas de cooperação social, em especial com os países vizinhos e da África, e contribuir do ponto de vista financeiro e técnico para o fortalecimento de sua infraestrutura, condição indispensável para seu desenvolvimento e redução da pobreza” (BRASIL, 2010a, p. 23).

Considerando o processo de integração sulamericana, dentro do cenário global de 2022, destacamos a meta brasileira:

 Cabe ao Brasil (…) prosseguir na árdua tarefa de construção de um bloco sul-americano, região em que há muito maior homogeneidade e muito menos ressentimentos do que em outras regiões do globo, tais como a Europa ou a Ásia, para participar de forma mais eficiente do jogo político internacional de formulação de regras e para organizar um mercado maior para sua economia e a de seus vizinhos. (BRASIL, 2010a, p. 27)

 Ao falarmos de infraestrutura como fator determinante da integração, destaca-se a Iniciativa de Integração da Infraestrutura Sulamericana (IIRSA), envolvendo os doze países da América do Sul, com 524 projetos nas áreas de energia, transporte e comunicações, que se encontram agrupados em 47 grupos de projetos, representando um investimento estimado de US$ 96 bilhões (IIRSA, 2011).

Da mesma forma como ocorre com o IIRSA, especificamente, os demais projetos de integração regional também têm seus impactos socioeconômicos, devendo ser um processo que traga para o debate atores da sociedade, como empresários, acadêmicos, organizações não-governamentais, ente outros. Além disso, os governos subnacionais estão se mobilizando para terem uma maior participação no processo, seja por meio de redes paralelas ou dentro das próprias estruturas jurídico-institucionais.

Voltando-nos para o desenvolvimento científico e tecnológico, façamos uma breve análise histórica. Desde o século XIX, após a Revolução Industrial inglesa, os países que seguiram o caminho da industrialização depois da Grã-Bretanha perceberam que não era suficiente uma produção de manufaturados baseada em um maquinário simples, já existente há muito tempo, e dependente de um simples trabalho braçal. A Alemanha, com a percepção de que ciência e tecnologia estavam na base do desenvolvimento, não demorou muito para alcançar a condição de potência econômica europeia, com base em uma indústria de grande inovação.

Conforme destaca o Plano Brasil 2022, a América do Sul é “um continente extremamente rico em recursos minerais, em energia, em potencial agrícola, em biodiversidade” (BARSIL, 2010a, p. 45), sendo todos esses fatores aplicados ao território brasileiro. No entanto, a herança colonial de uma divisão internacional do trabalho baseada na troca de matérias-primas por produtos manufaturados, que se estendeu para além da independência, nas relações com a Inglaterra e, depois, com os Estados Unidos, deixaram nosso país longe de qualquer inovação tecnológica.

Muitos de nossos recursos naturais são aproveitados por produtores estrangeiros que os transformam em produtos de maior valor agregado, por meio de investimento em ciência e tecnologia. A exemplo disso, podemos voltar ao início do século XX, quando Henry Ford instalou uma filial de sua empresa na Amazônia para adquirir a borracha que serviria para a produção de pneus para seus carros. Neste sentido, o discurso que se faz, por parte de países desenvolvidos, pela sustentabilidade da Amazônia, tem um fundamento econômico, cuja base é o acesso direto à biodiversidade que se destina à indústria de transformação.

Se o Brasil é um país capaz de transformar a cana-de-açúcar, bem como outros produtos naturais, em etanol; se é um país capaz de produzir aeronaves competitivas no mercado internacional; se é um país exportador de pesquisadores, em grande quantidade; por que não pode ser, então, um país que transforme todos os seus recursos naturais em produtos de maior valor agregado?

De acordo com o Plano Brasil 2022:

A aceleração do progresso científico e tecnológico contribui de forma muito significativa para a concentração de poder de toda ordem, na medida em que os países que se encontram no centro do sistema investem valores muito superiores àqueles que investem os maiores países subdesenvolvidos, emergentes ou não, como o Brasil. Esta é uma tendência central e deve constituir a principal preocupação da estratégia brasileira na esfera internacional e doméstica: como acelerar e ampliar a geração, transferência e absorção de tecnologia através de políticas eficazes e de um esforço doméstico de investimento em pesquisa muito maior do que aquele feito nas últimas décadas. (BRASIL, 2010a, p. 18 e 19)

Então, não basta imaginarmos que o fato de sermos hoje um país em desenvolvimento, seguindo princípios que demoramos mais de um século para percebermos como fundamentais para se obter um avanço socioeconômico, vá nos garantir uma posição de destaque para sempre. Inovar, a cada dia, é a garantia de se colocar em condição de competitividade em um mundo globalizado.

Enfim, ao estarmos refletindo sobre um plano estratégico que marcará o bicentenário da independência do Brasil, a meta primordial é o rompimento com tendências históricas que ainda permanecem e limitam os avanços do País rumo à condição de economia desenvolvida.

Para tanto, a união de esforços entre todos aqueles que passaram por processos semelhantes de colonização e se submeteram a relações imperialistas se faz necessária para romper com essa “dependência” e com a antiga divisão internacional do trabalho. Mais especificamente, uma integração sulamericana passa a ser o ponto de partida para uma inserção, cada vez maior, dos países do continente no sistema internacional. Ao mesmo tempo, o investimento em ciência e tecnologia, buscando uma indústria inovadora, de alto valor agregado, é chave para a competitividade. Assim, deixa-se de ser um país que aceita passivamente as regras da vantagem comparativa e busca-se o status de nação competitiva.

Referência Bibliográfica

BRASIL (2010a). Brasil 2022. Brasília: Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, 2010a. Disponível em: [http://www.sae.gov.br/site/wp-content/uploads/PlanoBrasil2022_web.pdf]. Acesso em: 20/072012.

 BRASIL (2010b). Brasil 2022: Trabalhos preparatórios. Brasília: Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, 2010b. Disponível em: [http://www.sae.gov.br/site/wp-content/uploads/Brasil_2022_volume2.pdf]. Acesso em: 20/07/2012.

GODET, Michel; DURANCE, Philippe (2011). A prospectiva estratégica: para empresas e territórios. Paris: Dunod, 2011.

INICIATIVA DE INTEGRAÇÃO REGIONAL SULAMERICANA – IIRSA (2011). La Cartera IIRSA. 2011. Disponível em: [http://www.iirsa.org//Cartera.asp?CodIdioma=ESP]. Acesso em: 20/07/2012.

Armando Gallo Yahn Filho é Professor do Curso de Relações Internacionais, no Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia – UFU (agyahn@gmail.com).

Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top