Declínio do modelo econômico europeu: perspectiva e análise sobre o novo contexto em desenvolvimento, por Victor de Sá Neves

Após quase quatro anos da evidência clara de que uma crise econômica instalava-se no sistema financeiro europeu, torna-se possível destacar alguns fatos que são determinantes para entender o contexto atual e alguns possíveis cenários para o futuro da União Europeia. Em primeiro lugar, deve-se ter como ponto de partida o fato de que a crise – que surgiu com os problemas no sistema imobiliário estadunidense – apenas se instalou na Europa com tamanho grau de complexidade, porque vários países da zona do euro já estavam com graves problemas em seus orçamentos muito antes de 2008.

Ao se fazer uma visão retrospectiva, é perceptível que a adoção de uma moeda única já em 1999 foi precipitada, principalmente pelo fato de que havia uma grande disparidade econômica entre os países que integravam a zona do euro, além da ausência de unificação bancária, o que serviu para desestabilizar os fluxos de capitais. Nota-se também que os países mais afetados pela crise atualmente são aqueles que durante os últimos anos apresentaram déficits em suas balanças de pagamentos muito superiores aos 3% estabelecidos como cota máxima para os pertencentes à zona do euro. Entretanto, os números relativos ao desempenho ruim dessas economias eram camuflados, para que não houvesse cobrança externa e os níveis de confiança dos investidores permanecessem estáveis. Dessa forma, percebe-se que houve uma negligência generalizada quanto aos riscos que se estava correndo ao lidar com números tão perigosos em uma economia unificada que depende totalmente da saúde das partes.

É interessante observar que foi por conta desses sucessivos reveses em seus orçamentos que a quebra de importantes bancos nos Estados Unidos provocou tamanho estrago na União Europeia. Já no terceiro trimestre de 2008, a zona do euro entrou oficialmente em recessão, ao apresentar retração de 0,2% em sua economia. A partir de então, tem-se visto uma série de pacotes de ajuda para tentar restabelecer a saúde econômica dos países danificados. Esse foi só o começo de uma crise que se estende até os dias de hoje pautada na incerteza de sua solução e no possível espraiamento das suas consequências para o nível global.

As enormes dificuldades no plano macroeconômico trazem efeitos arrasadores para a população europeia. Entre as principais medidas que têm sido adotadas para combater os déficits nas contas públicas, vemos cortes em diversos benefícios sociais, congelamento dos salários, aumento das jornadas de trabalho e do tempo de aposentadoria, além da redução dos postos públicos. O resultado imediato dessas mudanças foi uma forte onda de insatisfação traduzida em protestos e greves que têm se tornado comuns pela Europa. Além disso, os índices de desemprego atingiram níveis bastante elevados, o que dificulta ainda mais a situação econômica, pois freia a dinâmica do comércio. O principal exemplo disso é o caso da Espanha, país no qual o índice de desemprego para a população ativa é de 24,4%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas.

Em termos concretos, muitos esforços têm sido feitos por parte das autoridades monetárias internacionais no sentido de tentar evitar que os impactos da crise se tornem ainda maiores no curto prazo. Exemplo disso são as ações coordenadas de vários Bancos Centrais, incluindo o estadunidense e o britânico, que têm facilitado o empréstimo de dólares para aumentar a liquidez do sistema bancário europeu, além das reduções das taxas de juros, utilizadas para aquecer a economia. Porém, é preciso salientar o fato de que essas medidas são paliativas, pois só servem para mitigar o efeito da crise no curto e médio prazo. Portanto, os esforços para resolver o problema na União Europeia devem ser muito maiores do que as ações coordenadas vindas de atores externos à zona do euro, já que, em termos práticos, eles se empenham apenas em fazer com que os efeitos danosos não se espalhem de forma desenfreada para os seus países.

Dessa maneira, são necessárias medidas efetivas para tentar conter o avanço de tal situação, já que muitos analistas são pessimistas ao afirmar que, mesmo sob o melhor contexto, não devemos guardar boas expectativas para o futuro dos países com maiores problemas. Mesmo assim, há consenso no aspecto de que é preciso fazer reformas estruturais no sistema financeiro europeu, principalmente no que diz respeito à unificação bancária. Essa questão se torna importante, pois legislações nacionais soberanas para os sistemas bancários se mostraram ineficientes para regular os fluxos de capital entre os países, uma vez que eles já haviam adotado a moeda única e o Banco Central unificado. Outro importante fator a ser considerado é a necessidade de maior comprometimento por parte das autoridades políticas europeias com vistas a fazer cortes de despesas excessivas nos orçamentos e aumentar tributos para que o problema dos déficits nas contas públicas seja sanado. Como foi visto, um modelo de gestão que lida com reveses anuais de 10% não é sustentável, principalmente se estiver inserido em um contexto de interdependência, como em um bloco econômico tão avançado. Por fim, os bancos europeus (principalmente os espanhóis) precisam ser recapitalizados por meio de pacotes de ajuda – os bailouts – imediatamente. É importante notar que estes compromissos já têm sido cumpridos, em alguma medida, nos últimos meses. Apesar disso, os efeitos ainda não são visíveis, mas espera-se que, no longo prazo, seja possível falar em crescimento nos países com a situação mais crítica.

Assim, pode-se esperar que, para os próximos três anos, pelo menos, países como os PIIGS (acrônimo em inglês para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, apesar de ser um termo bastante depreciativo) permaneçam em recessão, em função da falta de liquidez na economia, até que seja concretizado um processo de reestruturação fiscal por meio de medidas de austeridade. É evidente que isso causará profundos impactos sociais imediatos, em função da retirada de alguns dos antigos direitos sociais conquistados historicamente. Contudo, a história recente também mostra que economias com aportes financeiros limitados não são capazes de sustentar tamanhos benefícios garantidos pelo estado de bem-estar social. Em função dos grandes pacotes de ajuda que vêm sendo liberados ultimamente, a tendência é que a situação se normalize no longo prazo, sem que seja necessário excluir nenhum país da zona do euro. Mas é importante deixar claro que os bailouts, sem o comprometimento com a austeridade fiscal, não surtirão os efeitos desejados para os PIIGS.

 

Victor de Sá Neves é graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL (victorsaneves@gmail.com).

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