Uma Pravda brasileira? O Última Hora e as relações Brasil-URSS na primeira Metade dos Anos 60

O processo do Impeachment contra a presidente Dilma Rousseff ocorrido em maio de 2016 levantou a questão do papel das mídias e sua influência política, sobretudo aquelas de maior circulação, como o grupo Globo. Enquanto o conglomerado midiático no Brasil é acusado de manipular a opinião pública em favor da oposição conservadora (“golpista”), críticas às mídias populares são comuns no ocidente, só que sob circunstâncias diferentes. Novos atores políticos de cunho anti-sistêmico como o bilionário Trump nos Estados Unidos ou o partido Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha se comportam contra o establishment e grupos associados, de modo que as mídias se tornem alvo de suas campanhas políticas.

Este artigo analisará um caso histórico de um jornal politicamente orientado à esquerda-nacionalista, o Última Hora. Fundado em 1951 por Samuel Wainer, o jornal opunha-se desde seus inícios contra a Grande Imprensa anti-varguista. A estratégia de Wainer não era dar apoio a Vargas, mas sim prejudicar seus adversários, pois como afirmou certa vez “a imprensa pode não ajudar a ganhar, mas ajuda a perder.” (MARTINS/LUCA 2012; 214). Mesmo após a morte de Vargas, o UH continuava como um jornal fora do mainstream e enfrentava vários antagonismos com a Grande Imprensa.

Parece que só um jornal insólito, novo e até atrevido como o UH era capaz de conceder às relações bilaterais semelhantemente inabituais entre o Brasil e a União Soviética um espaço adequado na sua prestação das contas. Fora do mainstream da época, quando o bloco socialista era ignorado ou marginalizado pelas mídias, um fenômeno parecido pode ser constatado à historiografia atual sobre esse tema: O UH dedicava-se a muitas reportagens e perspectivas não-convenientes sobre a outra superpotência.

No bloco seguinte, analisando três interações soviéticas-brasileiras entre 1959 e 1962, pergunta-se sobre a possibilidade do UH ter sido uma Pravda brasileira, aquele jornal russo nomeado Verdade que era destacado como “órgão” do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética.

(A) Only Quadros could go to Russia!? O homem é capaz de tudo!

Apesar de ter elogiado explicitamente a viagem de Quadros em 1959 a Moscou e até exigir mais viagens de políticos brasileiros à União Soviética, o colunista Paulo Silveira do UH exerceu fortes críticas as próprias intenções do candidato Quadros. O colunista indicou a contradição de ter encontrado primeiramente o papa na Praça da Sé e depois Krushchov na Praça Vermelha – seguindo uma argumentação que normalmente deveria ter sido reservada a jornais conservadores.

Aqui há o paralelo com a visita de Nixon na China- Jânio Quadros era considerado tanto como anticomunista, pelo menos antes do seu governo bizarro, que ele podia ir à Rússia com mais tranquilidade que qualquer outra personalidade pública. Completamente desilusionado sobre as motivações caça-votos da viagem de Quadros, Silveira ridiculizou sarcasticamente o candidato:

“Não seria surpresa se, na capital soviética, sentado a um degrau do mausoléu que guarda, embalsamados, os corpos de Lenin e Stalin, no coração da Praça Vermelha, o Sr. Jânio Quadros enfiar a mão no bôlso do surrado sobretudo, tirar um sanduíche de mortadela e entregar-se às delícias do seu habitual “almôço político”, sob o olhar espantado dos moscovitas confusos. O homem é capaz de tudo!” (ÚH 27.07.1959; 3).

Enquanto o UH tematizou abertamente o suposto oportunismo ideológico do candidato Quadros dando uma ajuda a perder, o conservador Jornal do Brasil publicou um relato mais benevolente sobre a visita, contando o privilégio que o candidato teve ao ver Lenin, o primeiro quebra-gelo atômico do mundo. (JdB 02.08.1959; 4) A descrição de Quadros nas páginas do UH não parece tão falsa, mesmo que cinco anos mais tarde Jânio Quadros estivesse ao lado de Kubitschek e Goulart, o ex-presidente cujos direitos políticos foram cassados. Apesar das recriminações em 1959, o UH aplaudia os avanços da PEI em ação desde seu início.

(B) From Russia with Love: a Visita de Gagarin ao Brasil

Poucos meses depois da missão Vostok-I, Iuri Gagarin foi mandado para participar de um torneio na América Latina. A União Soviética mostrava seu herói mais brilhante, um homem que simbolizava a mobilidade social do socialismo, um filho de lavradores que ia tornar-se o Cristóvão Colombo do Cosmos (GESTWA 2009).

Os sucessos soviéticos no espaço, mesmo sem qualquer consideração ideológica, foram justamente impressionantes, e assim o UH não tinha que idealizá-los para ostentar o adiantamento soviético. Mas o que o jornal fez, era exibir o próprio provincialismo em comparação com a União Soviética e a incompetência de políticos reacionários.

Enquanto Gagarin tinha sido recebido no aeroporto por altos funcionários, “a massa popular que acorrera ao aeroporto para saudar o convidado oficial do governo brasileiro não pôde sequer assistir ao seu desembarque. E quando se reuniu […] teve de desafiar o inexplicável ataque de dezenas de soldados da PA […]. Mulheres e crianças foram pisoteadas e o próprio Gagárin foi atingido por um jacto de água.” (ÚH 31.07.1961; 11). O outro alvo da sua ridicularizarão foi o anticomunista e adversário mais severo do UH, o então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda.

Entrevistando Gagarin, o governador “fez certas perguntas inconvenientes com o objetivo de ferir indiretamente o visitante, que se manteve na mais absoluta calma”. (ÚH 01.08.1961; 3). Enquanto umas perguntas de Lacerda eram realmente impertinentes e feitas para provocar, o UH, durante toda a visita de Gagarin no Brasil, continuava a afrontar o político udenista, e nem sempre acima da linha da cintura. Numa caricatura, onde Lacerda era mostrado com óculos extraterrestres, Gagarin, não dando-lhe a mão, respondeu a uma pergunta do político, se ele tinha tentado um novo voo, “[n]ão depois que te conheci, não tentarei mais ir ao Cosmos…”. (ÚH 02.08.1961; 5)

(C) Um explosivo Brilho vermelho: a Recepção da Exposição Soviética no Rio de Janeiro

Na Exposição Soviética de Comércio e Indústria em maio de 1962, quando os dois países já tinham reestabelecidas relações oficiais, a superpotência mostrava seus maiores méritos na cidade maravilhosa. Obviamente, a presença da União Soviética no Brasil não era mero altruísmo, pois continha interesses propagandistas no fundo. Na segunda semana da feira, um atentado com uma bomba-relógio só pôde ser impedido por pouco.

O UH, na sua prestação das contas, não focava tanto ao decurso do atentado ou às medidas imediatas tomadas pela segurança, mas sim aos próprios autores do ataque e seus (supostos) motivos e fautores.

Já no primeiro dia pós-ataque, o jornal associou seu inimigo preferido Carlos Lacerda com o ato terrorista. (ÚH 21.05.1962; 1). Mais tarde, o UH chamou o grupo que tinha organizado o atentado, o Movimento Anticomunista (MAC), sediado no Palácio Guanabara e o governador Lacerda seu comandante. (ÚH 23.05.1962; 5).

O que consegue mostrar bem a situação explosiva no país naquela época é como os próprios terroristas eram tratados pelo jornal. Para demonizar ainda mais os extremistas, chamados gorilas e nazistas, o jornal publicou uma manchete abrangente relatando a presença de cocaína foi achada no esconderijo. (ÚH 31.05.1962; 7). Interpretando literalmente o jornalismo investigativo, o UH ajudou na caça aos extremistas e localizou um deles. (ÚH 23.05.1962; 7).

Além disso, o jornal identificou um agente provocativo entre os militantes. Segundo o jornal, o agrônomo Ronald James era “um dos elementos ligados a interesses de uma potência estrangeira, a fim de manter o País em clima de agitação.” (ÚH 30.05.1962; 7). Mesmo mostrando uma tendência marginalizadora à tentativa de atentado, o Jornal do Brasil, noutro lado, reconheceu irregularidades no esclarecimento do caso e supôs o envolvimento de pessoas com considerável presença na vida pública. (JdB 03.06.1962; 14).

O jornal Última Hora exerceu uma forte retórica nacionalista e, seguindo seu esquema de ajuda a perder, tentava prejudicar seus adversários do establishment. Nos assuntos da política externa brasileira, o UH propagava determinantemente uma aproximação à União Soviética e, mais tarde, uma ampliação das relações com o bloco socialista.

Especialmente sob a condição de uma polarização da política brasileira a partir de 1962, o jornal poderia ser chamado, com um baixo grau de polêmica só, uma Pravda brasileira: enquanto a União Soviética era notada sem criticar, os Estados Unidos, noutro lado da cortina de ferro, eram atacados, especialmente por seu imperialismo no Terceiro Mundo.

Referências bibliográficas:

  • GESTWA, K.: ‚Kolumbus des Kosmos‘. Der Kult um Jurij Gagarin, Osteuropa, v. 10, n. 59, 2009.
  • JORNAL DO BRASIL: Jânio vê qubra-gêlo atômico – 02.08.1959, p. 4.
  • JORNAL DO BRASIL; PORTELLA, J.: Três coronéis acusados pela polícia do atentado à Exposição Soviética – 03.06.1962, p. 14.
  • MARTINS, A. L; LUCA, T. R. d. (Org.): História da Imprensa no Brasil, São Paulo: Contexto2, 2012. [1a reimpressão]
  • ÚLTIMA HORA: Jânio Quadros: Da Praça da Sé à Praça Vermelha, numa viagem caça-votos (Coluna de UH; Paulo Silveira) – 27.07.1959, p. 3.
  • ÚLTIMA HORA: Massa popular enfrenta fúria policial no Galeão para ver herói russo! – 31.07.1961, p. 11.
  • ÚLTIMA HORA: Gagárin, democracia (no cosmos) e um duvidoso conceito de liberdade (Guanabara dia a dia) – 01.08.1961, p. 3.
  • ÚLTIMA HORA: Egberto é o ‘pé frio’ – 02.08.1961, p. 5.
  • ÚLTIMA HORA: Ameaça à segurança nacional – 21.05.1962, p. 1.
  • ÚLTIMA HORA: O Comandante do MAC (Retrato sem Retorno; Adalgisa Nery) – 23.05.1962, p. 5.
  • ÚLTIMA HORA: ‘UH’ localizou em Cascadura o fanático cumplice de Lameirão – 23.05.1962, p. 7.
  • ÚLTIMA HORA: Ardovine confessa: Telefone terrorista era dêle! – 30.05.1962, p. 7.
  • ÚLTIMA HORA: Cocaína no arsenal dos fanáticos terroristas – 31.05.1962, p. 7.

Philipp R. L. Gerhard é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (philippgerhard.de@gmail.com).

Philipp Gerhard. "Uma Pravda brasileira? O Última Hora e as relações Brasil-URSS na primeira Metade dos Anos 60". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 20/08/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?article=uma-pravda-brasileira-o-jornal-ultima-hora-e-as-relacoes-brasil-urss-na-primeira-metade-dos-anos-60-por-philipp-r-l-gerhard>.

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