Tecnologia, poder e relações internacionais

Pensar hoje em tecnologia, num sentido amplo ou mais específico a determinado campo, parece uma prática contínua e bem óbvia de se fazer; uma vez que estamos cercados, em alguns casos dependentes e frequentemente conectados à diversos tipos de tecnologias. Com seus respectivos limites e potencialidades, a tecnologia tornou-se fator indissociável das relações humanas e variável condicionante do progresso científico e do desenvolvimento, em suas diversas interfaces. A evolução tecnológica preponderante a partir da segunda metade do século XX coaduna problemáticas de ordem política, econômica e social, ao passo que reordena as dinâmicas de poder no cenário internacional. Diante dessa conjuntura, o presente trabalho se volta à análise da tecnologia enquanto fonte de poder nas Relações Internacionais, contextualizando a intrínseca relação entre economia política, ciência, tecnologia e desenvolvimento.

A produção referente à Economia Política Internacional (EPI) aparece como uma alternativa, tanto as analises realistas quanto as análises liberais. Ainda que de um lado, a EPI se alinhe aos liberais ao compreender e análise as relações internacionais para além das relações entre os Estados, ou seja, compreendendo novos atores, agendas e fontes de poder, como a tecnologia, que tornam incipiente as análises unicamente sob o modus operandi realista. Susan Strange (1988), aponta que a mesma se traduz em relações e diálogos de “estruturas de poder” e para tal, sistematiza análise em 2 tipos de poder preponderantes: o poder relativo e o poder estrutural. O Poder Relativo consiste na visão tradicional do realismo, ou seja, o Poder do país A em determinar a reação e/ou comportamento do país B. Por sua vez, o Poder Estrutural se apresenta como a capacidade de influenciar, moldar, definir o sistema econômico internacional e consequentemente a linha de atuação dos Estados e demais atores como empresas transnacionais, organizações internacionais e até mesmo os indivíduos.

A relevância assumida pela tecnologia nas relações internacionais intervém não apenas na lógica capitalista de desempenho econômico, tal como, nas relações políticas entre as nações. Uma vez que, as vantagens de domínio e uso desse conhecimento e/ou aparato tecnológico se apresenta como recurso de poder, assumindo inclusive, caráter de incremento e/ou vantagem produtiva. Strange (1988) conclui que em vista da intima relação entre economia e política, a tecnologia se caracteriza como expressão de um dos pilares da EPI descritos pela autora: a estrutura de conhecimento.

É notório que muito acerca do que expõe no presente trabalho, passará pelo viés de análise do Poder Estrutural de Strange, tal como do Pilar ‘conhecimento’. Entretanto, soma-se as contribuições de Robert Gilpin (2002) e Douglas North (1990). O avanço da tecnologia e seus desdobramentos estimulam a reflexão do papel do Estado como ator preponderante no sistema internacional, tal como a intensa atuação de atores não-estatais estratégicos e interessados, como as empresas transnacionais, na ampliação de mercados e investimentos nesse setor. Robert Gilpin (2002), expõe que a “economia política” é pautada pelas interações e coexistência de Estado e Mercado. Ou seja, admite-se na EPI a existência de uma certa tensão entre “as lógicas de mercado (de alocar as atividades econômicas onde elas são mais produtivas e rendem maior lucro” e as lógicas do Estado (de controlar e capturar o processo de crescimento econômico e acumulação de capital”. (Gilpin, 2002, p.47). Todavia, no setor tecnológico ocorre um alinhamento histórico entre tais lógicas de mercado e de Estado; uma vez que, empresas e governos já mostraram que podem juntos, desenvolver, controlar e retardar a difusão internacional de significantes tecnologias, como diferenciais de crescimento econômico e competitividade internacional.

Apesar do reescalonamento contínuo causado pela tecnologia nas relações internacionais, o papel do Estado como relevante ator é ressignificado enquanto agente dinamizador e estratégico de tal setor, junto as empresas. Ainda que nem todos os interesses e agendas de tais atores sejam convergentes, é no campo tecnológico aonde se verificam maiores aproximações do que distanciamentos entre eles. Isso se deve pelo caráter sensível e variado da tecnologia que reúne aspectos político-estratégicos, mas também, econômicos e comerciais que interessam fortemente ambos os lados. A relevância assumida pela tecnologia nas relações internacionais intervém não apenas na lógica capitalista de desempenho econômico, tal como, nas relações políticas entre as nações. Uma vez que, as vantagens de domínio e uso desse conhecimento e/ou aparato tecnológico se apresenta como recurso de poder, assumindo inclusive, caráter de incremento e/ou vantagem produtiva. Strange (1988) conclui que em vista da intima relação entre economia e política, a tecnologia se caracteriza como expressão de um dos pilares da EPI descritos pela autora: a estrutura de conhecimento.

Em um mundo cada vez mais conectado e dependente dos avanços da ciência & tecnologia, o “pilar do conhecimento” de Strange se torna uma distinta e significante fonte de poder entre os Estados. Seja pela ênfase no desempenho econômico, seja pelo direcionamento ao desenvolvimento social ou demais projetos nacionais, a tecnologia se apresenta como vital recurso de poder cuja a disseminação e/ou compartilhamento de know-how não interessa aos seus detentores, a não ser que existam vantagens competitivas.

Mariana Carpes (2006) destaca e correlaciona tecnologia enquanto ‘nova’ fonte de poder e pela ênfase estrutural que se é dada hoje em dia, à ciência & tecnologia. A autora enfatiza: “Sendo, portanto, o conhecimento uma fonte de poder, no atual estágio de desenvolvimento econômico em que a ciência é convertida em força produtiva, a disputa por seu domínio, como antes, estará associada à busca pelo controle dos mecanismos através dos quais ele é produzido, organizado e difundido. Como fonte de poder estrutural, a tecnologia será objeto de disputa entre os Estados. Na atual ordem internacional, sua possessão significa para uma potência dominante a perpetuação do atual estado de coisas, porque atua como freio ao desenvolvimento interno e aumento da autonomia relativa dos demais países”. (CARPES, 2006, p.46)

As lacunas ou como tratado no presente trabalho, os gap’s existentes entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento se expressam também quando o tema é o conhecimento cientifico. Carpes (2006) expõe que estima-se que 80% da população mundial não contribui, por privação, à produção desse conhecimento e consequentemente à margem do consumo da tecnologia proveniente.

Strange, Gilpin, North e mais recentemente Carpes contribuem, cada um dentro de sua expertise, com a construção de um importante background para a correlação de poder e tecnologia. Compreendê-la enquanto fator preponderante desse “poder estrutural” e elemento chave das interações das instituições e do próprio mercado ressalta essa nova fonte de poder nas relações internacionais. Nessa lógica e complementando as ideias precursoras da EPI, Ha-Joon Chang (2004) aponta as disparidades (muitas delas objetivamente criadas) entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Para o autor, os países atualmente desenvolvidos (PADs) estariam “chutando a escada” do desenvolvimento pela qual já subiram, dificultando ou impedindo que os países em desenvolvimento façam o mesmo ao impor políticas econômicas e instituições que eles, conforme a história mostra, não adotaram na “subida”. Chang (2004) questiona que, através das políticas internacionais e das pressões exercidas pelos PADs em relação adoção das chamadas “boas políticas” e “boas instituições” por parte dos países em desenvolvimento, não seria uma boa trajetória a ser seguida. Segundo o autor, as chamadas políticas de ICT (de indústria, comercio e tecnologia) é que separam e segregam os países bem sucedidos, em termos de desenvolvimento econômico, de outros países. O que consubstancia fortemente a idéia de que a tecnologia cria avanços sim, mas também cria gap’s entre os países, onde muitos buscam subir constantemente essa “escada” que está sendo ou será empurrada no futuro, pra inviabilizar e/ou distanciar a subida de outros países.

REFERÊNCIAS:

CARPES, Mariana. A política nuclear brasileira no contexto das relações internacionais contemporâneas. Domínio tecnológico como estratégia de inserção internacional. PPGRI/PUC-RJ, 2006. Disponível em: < http://www.iaea.org/inis/collection/NCLCollectionStore/_Public/40/073/40073553.pdf > Acesso: 22 nov 2015

CHANG, Ha-Joon. Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica São Paulo: Editora UNESP, 2004.

GILPIN, Robert. A economia política das Relações internacionais. Editora da Universidade de Brasília: UNB, Brasília. 2002.

NORTH, Douglass C. Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990

STRANGE, Susan. States and Markets. Bloomsbury Academic; 2nd Edition edition. 1988.

William Monteiro Rocha é Professor e Coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade da Amazônia – UNAMA. Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UNB) (william.mrocha@gmail.com).

 

William Rocha. "Tecnologia, poder e relações internacionais". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 25/03/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?article=tecnologia-poder-e-relacoes-internacionais-por-william-rocha>.
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