Os limites do “trumpeconomics” na gestão da economia dos Estados Unidos

A eleição do bilionário Donald Trump para o cargo de presidente da maior economia do mundo era um fenômeno de pouca probabilidade para a maioria dos analistas políticos. No jargão dos apostadores, Trump era considerado um “azarão” quando foram iniciadas as eleições primárias pelo partido republicano. A imprevisibilidade da vitória do republicano se reflete também na incerteza em como o futuro governo irá gerir a maior economia do mundo. A despeito da discussão sobre as origens da onda populista que ganha musculatura nos países do atlântico norte, o fato é que o discurso de Trump logrou êxito em atrair considerável parcela dos eleitores da classe média norte-americana. Ao longo da disputa presidencial as principais promessas foram denominadas de “trumpeconomics”. Essas propostas podem ser resumidas em temas de comércio internacional, política tributária e gastos públicos.

No tocante ao comércio internacional o discurso de Trump enfatizou a necessidade de revisão dos acordos de livre-comércio assinados pelos Estados Unidos (Acordo de Livre Comércio da América do Norte – NAFTA) e a paralisação dos acordos plurilaterais que atualmente são negociados – Parceria do Transpacífico (TPP) e Parceria Transatlântica (TTIP). Os alvos do discurso de Trump foram direcionados principalmente para o México e a China devido ao fato de que segundo o republicano esses países adotam práticas desleais de comércio e são responsáveis pela redução de empregos principalmente no setor manufatureiro dos Estados Unidos. O NAFTA seria renegociado e haveria a introdução de tarifas de 35% sobre produtos e bens mexicanos e de 45% sobre as importações oriundas da China. A postura de Trump é claramente protecionista e indica um endurecimento em negociações comerciais que envolvam os Estados Unidos (Noland et al, 2016).

Estatísticas do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos (2016) confirmam que houve uma significativa perda de empregos no setor manufatureiro dos Estados Unidos na última década – de 14.315 milhões em 2004, para 12.188 milhões em 2014. Esse processo é a continuação da tendência de realocação do setor industrial dos Estados Unidos para outros países nas últimas três décadas. O processo de desindustrialização dos Estados Unidos se intensificou a partir da década de 1990 na medida em que a China transformou-se no principal produtor de manufaturas de baixo valor agregado dentro da economia mundial. Além disso, e a assinatura do NAFTA eliminou as tarifas alfandegárias para bens produzidos no México e estimulou a transferência de empresas norte-americanas para o território mexicano.

Entretanto, um fator preponderante nesse processo é a queda do emprego industrial em virtude das inovações tecnológicas que culminaram na eliminação de milhares de empregos no setor manufatureiro dos Estados Unidos. Mas a redução dos empregos no setor industrial não resultou simplesmente em um aumento estrutural da taxa de desemprego.  As revoluções tecnológicas estão criando uma fissura entre empregos altamente especializados com alta remuneração e novos empregos criados principalmente no setor de serviços que demandam trabalhadores de baixa qualificação profissional e que são remunerados com rendimentos inferiores em comparação aos empregos preexistentes do setor industrial. Esse fenômeno tende a se acentuar nos próximos anos em virtude da aceleração de novos processos de inovação tecnológica oriundos da quarta revolução industrial – veículos autônomos, impressoras 3D, robótica, invenção de novos materiais, novas tecnologias da informação e inovações na biotecnologia. (Schwab, 2016). Como aponta o Boston Consulting Group (2016), “The share of tasks that are performed by robots will rise from a global average of around 10 percent across all manufacturing industries today to around 25 percent by 2025. Big improvements in the cost and performance of robotics systems will be the catalysts. In several industries, the cost and capabilities of advanced robots have already launched rapid adoption”.

Ou seja, existe uma tendência estrutural da redução do emprego no setor manufatureiro decorrente em grande medida de transformações no atual padrão tecnológico. Nesse sentido, políticas que visam reduzir a perda dos empregos no setor industrial por meio de medidas protecionistas no comércio internacional serão infrutíferas para reverter o quadro futuro de redução do emprego no setor manufatureiro e também no setor de serviços dos Estados Unidos. Pior ainda, são as consequências negativas desse processo para a produtividade da economia dos Estados Unidos. A adoção de barreiras protecionistas não apenas será ineficaz, mas também irá ocasionar um aumento dos custos dos insumos que são utilizados na produção de bens industriais nos Estados Unidos. Ademais, o aumento dos preços de produtos importados irá reduzir o poder de compra dos consumidores norte-americanos como também terá efeitos negativos sobre os índices de inflação dos Estados Unidos. Cálculos feitos por Noland et al (2016) do Peterson Institute for International Finance apontam que uma guerra comercial com China e México causará uma substantiva redução da taxa de crescimento do PIB dos Estados Unidos que alcançaria um montante próximo de US$ 1 trilhão de dólares já em 2017 e 2018.

Na agenda tributária, o futuro secretário do tesouro da administração Trump, Steven Mnuchin, já declarou que o governo republicano pretende realizar a maior redução de impostos desde a administração de Ronald Reagan. Na campanha, a equipe liderada por Trump defendeu uma reforma na atual legislação que reduz o número de faixas do imposto de renda para pessoas físicas de sete para três e também uma redução do teto da alíquota máxima de 39.6% para 25%. Para as empresas haveria igualmente uma redução das alíquotas máximas dos atuais 35% para 15%, assim como uma redução do imposto sobre distribuição de lucros e dividendos para acionistas. Estimativas de Nunns et al do  Tax Policy Center (2015) apontam que a adoção da reforma tributária proposta por Trump resultará em uma significativa perda de arrecadação por parte do governo norte-americano. Em um período de dez anos, esse montante atingiria US$ 9.5 trilhões de dólares, resultando em um significativo aumento do déficit fiscal dos Estados Unidos nos próximos anos.

A redução de impostos federais possui forte apoio entre os congressistas republicanos e tende a agravar ainda mais o problema da desigualdade de renda nos Estados Unidos. Isso porque, a redução da alíquota do imposto de renda sobre pessoas físicas irá beneficiar principalmente os mais ricos, o que torna o sistema tributário mais regressivo.  Nas últimas três décadas, os Estados Unidos foram o país desenvolvido que registrou o maior crescimento da desigualdade de renda entre ricos e pobres. Esse fenômeno pode ser observado por meio da evolução do coeficiente de Gini que aumentou nas últimas décadas de 0.4 em 1980, para 0.45 em 1995 e 0.46 em 2009. O crescimento da desigualdade pode ser observado também por meio dos ganhos de renda entre ricos e pobres nas últimas décadas. Entre 1980 e 2002, por exemplo, os 1% mais ricos dos Estados Unidos absorveram aproximadamente 47% do crescimento real da renda nos Estados Unidos (Das, 2014).

O crescimento da desigualdade não apenas aumenta a percepção de um sistema sócio-econômico injusto e disfuncional. Acima de tudo, a desigualdade reduz a eficácia da política monetária e diminui o potencial de crescimento econômico, já que, o aumento da concentração da renda reduz a demanda agregada em virtude da menor propensão ao consumo das famílias mais ricas. Como observa Das (2014, p. 94): “Reduced consumption reflected increasing inequality. In the last 15-20 years, the incomes of 99 percent of the population in developed economies have been stagnant or fallen, by as much as 8-10 percent. Most income gains have accrued to a small group, who are wealthy and save perhaps 20-30 percent of their income, around ten times the 2-3 percent on average saved by the rest”.

Um terceiro aspecto abordado pelo ainda candidato Trump que suscita discussão é induzir um novo ciclo de crescimento econômico e melhorar a competitividade da economia norte-americana por meio do aumento dos gastos públicos federais e por políticas de isenções fiscais. Esses recursos seriam canalizados principalmente para a realização de investimentos em infraestrutura e ligados ao complexo militar dos Estados Unidos. Esse montante atingiria um total próximo de US$ 550 bilhões ao longo dos quatro anos da administração Trump. A adoção de políticas fiscais mais expansionistas voltadas principalmente para gastos em infraestrutura tem sido objeto de debate nos círculos políticos de Washington e gerado intenso debate no mundo acadêmico. O debate pode ser dividido basicamente sob duas perspectivas.

A primeira, apoiada por perspectivas de cunho mais keynesianas defendem a expansão dos gastos públicos principalmente no setor de infraestrutura. O ex secretário do tesouro do tesouro norte-americano, Larry Summers, é um dos que argumentam em favor da expansão dos déficits fiscais como mecanismo para elevar o nível de atividade econômica dos Estados Unidos para escapar de “estagnação secular” – termo utilizado pelo autor para explicitar a existência de fatores estruturais que justificam a lenta recuperação econômica no pós-crise de 2008 e que tem implicações negativas no médio prazo para a economia dos Estados Unidos. Segundo Summers (2016), as ações adotadas pelo FED (banco central dos Estados Unidos) por meio da expansão quantitativa – compras de títulos públicos e privados pelo FED – e da redução das taxas de juros foram insuficientes para elevar o potencial de crescimento do PIB norte-americano para níveis pré-crise econômica de 2008. Nesse contexto, restaria a política fiscal a função de estimular o crescimento da economia estadunidense. Mesmo porque o custo de financiamento da dívida pública norte-americana é baixo em virtude dos juros estarem em níveis historicamente baixos o que abre uma oportunidade para uma maior expansão fiscal. O diagnóstico que enfatiza a existência de espaço fiscal e os limites da política monetária nos Estados Unidos é replicado também pelo último relatório da OCDE sobre as perspectivas da economia global (OCDE, 2016).

Em contraposição, os shumpterianos são mais céticos na eficácia das políticas de estímulo de demanda. Dada as atuais condições macroeconômicas, a política fiscal apenas retardaria o processo de “destruição criativa” – processo de inovação onde novas técnicas de produção e de avanços tecnológicos substituem processos produtivos e organizacionais menos eficientes (Canuto, 2014). O economista da Northwestern University, Robert Gordon, realizou um amplo estudo sobre os impactos das transformações tecnológicas sobre a produtividade da economia norte-americana do fim do século XIX até os dias atuais. Gordon (2016) observou que as revoluções tecnológicas tiveram impactos distintos nos processos produtivos ao longo dos dois últimos séculos. Isto é, os reflexos das transformações decorrentes dos processos de inovação tecnológica sobre o crescimento da produtividade foi irregular ao longo dos anos. A segunda revolução industrial que teve início no fim do século XIX gerou significativos ganhos na produtividade econômica dos Estados Unidos entre as décadas de 1920 e 1970. Entretanto, a partir da década de 1970 os ganhos de produtividade oriundos das inovações tecnológicas tiveram impactos menores sobre o crescimento dos níveis de produtividade da economia dos Estados Unidos. A revolução tecnológica oriunda da “nova economia” dos anos 1990 impulsionou ganhos de produtividades, mas apenas por um período de tempo curto. Cálculos de Gordon apontam que, entre 2004 e 2014, a produtividade total dos fatores nos Estados Unidos teve o menor crescimento desde o início do século 20. Assim, a lenta recuperação econômica no pós-2008 é um fenômeno que está ligado predominantemente à menor capacidade de oferta da economia dos Estados Unidos.

Essa perspectiva se baseia também no fato da taxa de desemprego ter caído consideravelmente desde a crise econômica de 2008.  Como houve considerável redução do desemprego nos Estados Unidos – a taxa de desemprego caiu de valores próximos de 10% no auge da crise em 2009 para 4,9% em 2016, aproximando-se dos níveis existentes antes da crise econômica de 2008 – existiria uma margem de manobra reduzida para o FED induzir o crescimento econômico por meio do aumento da demanda doméstica sem o aumento dos índices de inflação e por seguinte das taxas de juros. Os dilemas e limites que a nova administração irá enfrentar podem ser observados na seguinte perspectiva de Roggoff (2016),

“Exactly how much Trump’s policies will raise output and inflation is hard to know. The closer the US economy is to full capacity, the more inflation there will be. If US productivity really has collapsed as much as many scholars believe, additional stimulus is likely to raise prices a lot more than output; demand will not induce new supply. On the other hand, if the US economy really does have massive quantities of underutilized and unemployed resources, the effect of Trump’s policies on growth could be considerable. In Keynesian jargon, there is still a large multiplier on fiscal policy. It is easy to forget the biggest missing piece of the global recovery is business investment, and if it starts kicking in finally, both output and productivity could begin to rise very sharply”.

O que parece ficar claro é que haverá significativos impactos econômicos nos Estados Unidos caso a futura administração adote as propostas do “trumpeconomics” feitas durante a corrida presidencial. Como observado esses impactos tendem a reduzir da taxa de crescimento econômico, elevar os níveis de desigualdade de renda e diminuir o ritmo de crescimento da produtividade econômica nos Estados Unidos.  Não por acaso, após o anúncio da vitória de Trump houve uma elevação da tensão e da volatilidade nos mercados financeiros mundiais.

Mas o anúncio do FED sobre a condução da política monetária na última quinta feira aponta certo grau de ceticismo sobre a ocorrência de mudanças significativas na política fiscal e monetária nos próximos quatro anos. A indicação de que o FED mantém um cronograma para um aumento gradual dos juros ao longo de 2017 revela que a própria instituição é cautelosa quanto a uma guinada na política econômica do governo Trump. Na prática, o FED sinalizou que apesar das incertezas com o novo governo os últimos indicadores sobre os dados de emprego nos Estados Unidos sugerem cada vez mais que o país se aproxima do pleno emprego – utilização total dos fatores de produção a preços de equilíbrio. Por outro lado, a realização de uma ampla reforma tributária que implique na redução de impostos é uma agenda que possui forte apoio dentro do partido republicano. Como os republicanos conseguiram eleger uma maioria tanto na câmara dos deputados quanto no senado as chances de uma reforma tributária aumentam sob a administração Trump. Além disso, mesmo que o futuro governo enfrente resistência para a renegociação dos atuais acordos de livre comércio (NAFTA), a paralisação na negociação de novos acordos (Parceria do Transpacífico e Transaltância) já representa uma importante inflexão na posição dos Estados Unidos dentro do sistema internacional.

Esses fatos sugerem que persistirá um elevado grau de incertezas sobre a política econômica até os primeiros meses do governo Trump. No ínterim, entre a corrida eleitoral e a posse do novo governo haverá o anúncio da nova equipe que ocupará posições chaves na administração de Trump. Nesse período, não somente os norte-americanos aguardam um posicionamento mais claro em como a futura administração pretende administrar a economia norte-americana, mas também o mundo.

Referências

Sobre o autor

Rafael Henrique Dias Manzi é doutorando em relações internacionais pela Universidade de Brasília – UnB. Bolsista da Capes. (rafaelmanzi@hotmail.com)

Como citar este artigo

Rafael Manzi. "Os limites do “trumpeconomics” na gestão da economia dos Estados Unidos". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 21/07/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?article=os-limites-do-trumpeconomics-na-gestao-da-economia-dos-estados-unidos-por-rafael-manzi>.
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