O Caminho Rosa das Índias e o Terrorismo Afetivo em Mumbai, por Paulo Antônio Pereira Pinto

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p style=”text-align:justify;”>Com engenho e arte, a nova novela da TV Globo – Caminho das Índias – tem prestado inestimável contribuição para apresentar, com olhos brasileiros, a realidade perene do país que faz parte de nosso imaginário, bastante cedo, desde que nós brasileiros começamos a estudar nosso “descobrimento”, com a expansão marítima de Portugal, no século XVI.
Tendo vivido, há dois anos e meio, em Mumbai, Índia, tenho lido muitos textos locais e estrangeiros e assistido a diversos filmes sobre seus costumes locais. Confesso, no entanto, que só através de explicações, ora prestadas pelos personagens Tony Ramos e Lima Duarte, consegui entender certos aspectos da cultura e história indianas.
A primeira cena, do capítulo inicial da novela, parece estabelecer o tom e nível de clareza adotado pela autora e diretores. Aparece a cidade sagrada de Varanasi, com  fundo musical  da composição de Raul Seixas, “Há dez mil anos atrás”. Daí, fica o sentimento de que a complexa realidade daquela civilização de milênios começa a ser explicada com simples versos brasileiros.
O fato de que atores conhecidos – como os mencionados acima – estão esclarecendo didaticamente fatos e costumes tão distintos, concede enorme credibilidade perante nosso público. Cenas de beijos e “amassos”,  sempre ao nosso gosto, estariam sendo propositalmente evitadas, como gesto de respeito às produções cinematográficas indianas, que, conforme será mencionado a seguir, não exibem afetividade excessiva. Sem dúvida, a novela contribuirá para o melhor entendimento dos brasileiros com respeito à história e costumes daquele país.
Existem, no entanto, outros pontos da realidade indiana atual, que fogem do contexto da novela e que merecem ser explicados, na medida em que cresce o interesse brasileiro pelo outro país. O primeiro é sobre as características gerais do cinema indiano. O segundo diz respeito a tendência recente, nesta cidade, de reverter avanços sociais obtidos desde que o nome Bombaim foi substituído por Mumbai.
Assim, cabe lembrar que o filme indiano típico é uma mistura de coreografia sensual – o que agrada à platéia masculina – e um final sempre conservador – que condiz com a expectativa das esposas e mães. Isto é, Bollywood é capaz de, em suas películas, exibir parte de ou sugerir “formas femininas”, enquanto conclui desaprovando qualquer exposição do corpo da mulher.
As audiências, na Índia, esperam que as atrizes sejam, ao mesmo tempo, sensuais e conservadoras. Quando uma delas casa – na vida real – espera-se que deixe a carreira. Quase sempre acontece assim. Em poucos casos, como o de Jaya Bachchan, retornam após o casamento para desempenhar o papel de matronas, do tipo de sogras sizudas, mas bondosas.
Os personagens principais do cinema indiano são mais manequins de desfile, do que atores com grandes talentos dramáticos. Espera-se, portanto, que sejam, acima de tudo, muito bonitos. Em segundo lugar, devem saber dançar. Quanto às atrizes, cabe saberem conduzir com sedução, mas dentro dos limites púdicos locais, as cenas em que aparecem – invariavelmente – com o sari molhado, sobre o corpo.
Se forem capazes de atuar de forma razoável, melhor ainda – mas não é uma prioridade. O principal é provocar o imaginário popular, com cenas de riqueza, casamentos opulentos, sugestões de erotismo, sem que nada tenha a ver com a realidade da vida no país.
Logo após a independência da Índia,  sua indústria cinematográfica, então no início, produziu  documentários que fortaleciam o sonho da consolidação da liberdade política, do desenvolvimento econômico e da modernização. Os filmes, com frequência, tinham como cenário  áreas rurais e apresentavam heróis que combatiam contra os males herdados do sistema colonial e do feudalismo.
Mais recentemente, as produções de Bollywood passaram a ser gravadas no exterior, sendo a Suiça um destino preferido, pelo fato de suas montanhas geladas sugerirem cenários indianos, como a Kashimira – onde, devido a situação de conflito com o Paquistão, não é possível efetuar filmagens. Como consequência, o fluxo de turistas da Índia para aquele país aumentou sensivelmente. Cingapura, Nova Zelândia, Reino Unido, África do Sul e Austrália, entre outros disputam a preferência dos produtores locais, com vistas a atrair a vinda de equipes de filmagem e a consequente divulgação de suas belezas a atrações turísticas.
Na prática, Bollywood, hoje atende à demanda de uma crescente classe média urbana representativa da maior cidade indiana que, a partir de 1996, deixou de ser chamada de Bombaim e adotou – por razões nacionalistas – o nome  Mumbai.
Bombaim era, justamente, o símbolo do sonho de progresso individual, da ruptura com o rígido sistema social tradicional indiano – este tão bem representado na novela brasileira.  Aqui, predominava enorme tolerância, quanto à presença de imigrantes de outras partes do  país, bem como à diversidade cultural. Praticava-se uma saudável convivência, entre comportamentos modernos – como a emancipação feminina e a diluição das castas – e a preservação de tradições – como as celebrações anuais do festival do Ganesha (deus hindu), do Ramadam (muçulmano) e de festas religiosas diversas.
Nos últimos anos, contudo, Mumbai torna-se, cada vez mais, apenas a capital do Estado de Maharashtra – perdendo os ideais típicos de Bombaim. Isto se reflete, entre outros aspectos, em crescente intolerância contra o que alguns “líderes conservadores” definem como agressão à cultura indiana.
Assim, durante período que antecedeu o Dia dos Namorados (“Valentine’s Day”), em 14 do corrente, Mumbai – que foi vítima de atos terroristas, no final de novembro de 2008 – passou a ser palco de declarações contra o que poderia ser identificado como “terrorismo afetivo”, pelos referidos auto proclamados “guardiões das tradições nacionais”.
Segundo, por exemplo, um certo Sri Ram Sene, caberia exigir que as mulheres indianas usem apenas saris, não frequentem bares, não comemorem o Dia dos Namorados e não beijem em público. Houve ameaças de agressões físicas àquelas que contrariassem tais sentenças talibãs e de queima de lojas que vendessem cartões comemorativos da data (Talvez seja possível acessar gravação de sisudo pronunciamento deste simpático grupo, em  http://cosmos.bcst.yahoo.com/up/player/popup/index.php?cl=12025057) .
Como reação,  formou-se o consórcio das “Pubgoing, Loose and Forward Women” (Mulheres que frequentam bares e adotam comportamento liberal)  que se dispuseram a enviar calcinhas cor de rosa para o referido líder conservador, no “Valentine’s Day”.
Desenvolveu-se, então, curioso debate, tendo, por um lado o novo símbolo das calcinhas rosas, como  protestos contra ações com forte coloração contrária à emancipação feminina. Por outro, o sari – parece que, de preferência, de outra cor – permanece sendo o símbolo da feminilidade indiana.
No dia 14 de fevereiro de 2009, a “polícia ideológica” (alguns integrantes envergavam seus uniformes de policiais) espancou casais, por simplesmente estarem juntos. Assim, houve caso em que um irmão e uma irmã foram agredidos, por engano. Rapazes e moças, por estarem próximos, foram obrigados a “casar” – ou trocaram votos matrimoniais. Sem maiores explicações, por não ter sido encontrada a companheira com quem havia sido visto antes, os vigilantes casaram um adolescente com um burro (??!!). Cabe notar, que, na novela, a personagem Maya, de Juliana Paes, casa com uma árvore.
Em contrapartida, na mesma data, houve vendas recordes de cartões do Dia do Namorados. O rosa tornou-se extremamente popular, inclusive para preservativos. Jovens desafiaram os que querem ditar-lhes normas de conduta ditas “culturais” e celebraram, publicamente, seu afeto mútuo.
Percorrem-se, nessa perspectiva, caminhos “nunca dantes navegados”. A “Incredible India”, das propagandas turísticas oficias com suas múltiplas cores, passa a ser vista como um país monocromático.
O lindo colorido da novela da TV Globo corre o risco, aqui, de tornar-se, seja numa enorme área cinzenta, pelo terror dos comportamentos impostos pelos ditos conservadores, seja numa vasta mancha rosa, em reação aos que se opõem às manifestações de afeto e emancipação feminina em Mumbai.
Enquanto isso, continua sendo politicamente correto homens andarem de mãos dadas ou intimamente abraçados – parece que como forma tradicional de demonstrar amizade masculina.

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata de carreira e atualmente exerce a função de Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai. As opiniões expressas neste artigo são de sua inteira responsabilidade e não refletem posições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (papinto2006@gmail.com).

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