Israel e a diplomacia da irracionalidade, por Cláudio César Dutra de Souza & Sílvia Ferabolli

O ataque israelense contra a “frota da liberdade”, liderada pela Turquia, com o intuito de furar o bloqueio imposto há mais de três anos por Israel à Faixa de Gaza, teve um saldo provisório de nove mortos e pelo menos trinta feridos e vem provocando um inédito consenso entre os analistas internacionais – unânimes em destacar a ilegitimidade e a desproporção da ação israelense. Em toda a imprensa européia, raras vozes ousaram justificar o que foi batizado ironicamente pelo articulista do jornal britânico The Independent, Donald MacIntyre, de Israel’s gunboat diplomacy.  Relatos de passageiros do Mavi Marmara dão conta de execuções à queima roupa, espancamentos e humilhações contra os ativistas por parte da armada israelense, naquilo que a totalidade da imprensa francesa não hesitou em chamar de carnage.

Era de se esperar que Israel se manifestasse de forma proporcional à comoção da comunidade internacional na tentativa de justificar, mínimo que fosse, o ocorrido. No entanto, as justificativas oficiais para o ataque à frota resumiram-se à repetição do mantra de que “Israel tem o direito de se defender”. Contudo, seria ridículo, se não fosse trágico, imaginar algum tipo de ameaça real advinda dos ativistas assassinados em águas internacionais, cujo número de mortos supera o de israelenses atingidos nos últimos dez anos pelos anacrônicos foguetes do Hamas. Quando um Estado soberano e democrático erra, ele geralmente promete uma investigação imparcial dos fatos, expressa as condolências às famílias que perderam os seus entes queridos ou pedem desculpas. Porém, para Binyamin Netanyahu a política consiste em atirar primeiro e desacreditar as vítimas depois, com bem resumiu o editorial de sete de junho do The Guardian. Em um vídeo postado na edição online do jornal Jerusalem Post, Netanyahu declarou que a frota não era composta de “barcos do amor”, mas do ódio. E prossegue afirmando que os seus integrantes não eram pacifistas, mas “violentos apoiadores do terrorismo”, “fortemente armados” e que “iriam levar munição para Gaza”. Como se não bastasse, a assessoria de imprensa do governo israelense enviou à imprensa internacional um vídeo satírico intitulado “Flotilla Choir presents: We con the world”, em uma referência debochada à clássica “We are the world”. Nesse vídeo-clipe, cenas da abordagem ao Mavi Marmara são mescladas com as de cantores em estúdio, alguns vestidos com roupas que evocam o Hamas, e o refrão zomba imprudentemente da situação: “We’ll make the world Abandon reason  We’ll make them all believe that the Hamas Is Momma Theresa  We are peaceful travelers , We’re waving our own knives”.

O comportamento autodestrutivo de Israel e a sua recusa em obedecer as leis internacionais vêm preocupando o mundo. Recentemente, a Inglaterra expulsou um agente do Mossad ligado à embaixada de Israel em Londres após angariar provas irrefutáveis da responsabilidade de Israel na utilização de passaportes britânicos falsos na operação que culminou na morte de um dos líderes do Hamas, Mahmoudal Mabbhouh, em 20 de janeiro, em um quarto de hotel em Dubai. Em relação ao cerco de Gaza, este completou 1000 dias em 08 de março de 2010. Desde o seu início, 500 pessoas morreram, a maioria delas doentes que não puderam receber tratamento médico adequado; 80% da força de trabalho de Gaza está sem emprego; 90% da água disponível para consumo em Gaza é impotável; médicos, engenheiros, professores, mestres e doutores sem nenhuma perspectiva de trabalhado amontoam-se nas filas de distribuição de comida da ONU junto com os mais de 300.000 cidadãos de Gaza que precisam de ajuda humanitária para conseguir completar sua ração alimentar diária; não é permitida a entrada de quase nenhum material de construção em Gaza, impedindo a reconstrução dos danos causados pelos últimos ataque israelense á região; por fim, dado que Israel impede a comercialização de combustíveis para uso nas estações de energia elétrica, não é raro que os palestinos de Gaza fiquem dias na completa escuridão.

Aos que foram pegos de surpresa com o ocorrido em 31 de maio, é preciso lembrar que uma operação de ajuda humanitária à Gaza vinha sendo planejada há algum tempo. John Ging, responsável pelas operações da UNRWA em Gaza, não só denunciava abertamente o bloqueio israelense como em 30 de abril de 2010 declarou ao jornal norueguês Aftenposten que era necessário uma ação da comunidade internacional para romper o bloqueio a Gaza, utilizando a via marítima, já que, em suas próprias palavras “Israel não iria fazer algo contra um barco vindo da Europa”. Também declarou que “o mar está aberto a todos e é tempo da comunidade internacional intervir e ajudar, da mesma forma como fez com o Haiti.”

Algumas semanas antes do incidente com a “frota da liberdade”, a London School of Economics anunciou a realização de uma palestra intitulada Inhumane, illegal and insane: A Medieval Siege on Gaza in 2010, a ser proferida exatamente por John Ging, no dia 01 de junho. Dado o ocorrido em 31 de maio, as expectativas do público presente eram muitas. No entanto, o que se testemunhou nesse dia foi um palestrante visivelmente desconfortável e acuado, evitando fazer qualquer menção ao ocorrido no dia anterior e se esquivando das declarações dadas ao jornal norueguês. John Ging se limitou a uma previsível declaração de obviedades afinadas com o discurso oficial israelense/americano, pregando a “volta à mesa de negociações” com a mesma destreza com que afirmava que “ambos os lados sofrem” – entre outras frases inócuas e indignas de sua atuação pró-Gaza nos últimos meses e absolutamente contrárias à tônica militante do título escolhido para a palestra. Poderíamos pensar que um recuo foi necessário em razão de sua segurança profissional ou mesmo pessoal, já que Israel não costuma ser muito diplomático com aqueles que ele percebe como uma ameaça a sua “segurança de Estado”, vide as conhecidas denúncias de Walt e Mearsheimer contra a política de perseguição a jornalistas, professores, ativistas políticos e intelectuais perpetrada pela máquina lobista israelense.

Por sua vez, a revista The Economist dessa semana (5-11 junho) escolheu como chamada de capa o sugestivo título “Israel’s siege mentality”, e em seu editorial destacou o enfraquecimento da posição israelense para além das fronteiras do mundo árabe. A revista destacou que a “democracia” Israelense causa mais distúrbios do que os supostos “terroristas” e que o assassinato de nove cidadãos turcos, durante a desastrosa operação de 31 de maio, fez com que Israel perdesse seu único aliado e mediador junto ao mundo muçulmano. Entretanto, poderíamos supor que a Turquia tenha tido intenções de bastidores que vão além da preocupação humanitária com os cidadãos de Gaza e arriscarmo-nos a fazer uma pergunta simples que poucos analistas se atreveram a fazer em relação à tentativa de furar o bloqueio a Gaza: a Turquia não imaginava que isso iria acontecer? Erdogan imaginou que Netanyahu deixaria a frota passar e ancorar em Gaza, desafiando a sua política de bloqueio? Ou poderíamos pensar que essa missão, aparentemente suicida, foi uma armadilha na qual Israel caiu melhor do que seria esperado e que doravante poderia se encaixar nos movimentos de política externa turca que redirecionam o país para o Oriente Médio e a Ásia Central após décadas de tentativas frustradas de ser aceita como membro do clube Ocidental? Essas questões só poderão ser respondidas com o passar dos meses, talvez mesmo dos anos, e cabe aos analistas de relações internacionais no Brasil acompanhar as transformações que estão ocorrendo na política interna turca, fruto do declínio do papel dos militares ocidentalizantes e da ascensão de grupos civis que demandam um papel maior para o Islã na moderna Turquia.

No que concerne a Israel, a desastrosa operação de 31 de maio nada mais fez do que colocar o cerco de Gaza nas primeiras páginas da imprensa mundial. O que antes era visto como apenas mais uma dentre tantas outras medidas que objetivavam a segurança de Israel, agora revolta a comunidade internacional obrigada que é a aceitar a impunidade de um rogue state que ameaça, prende, tortura e executa civis inocentes de forma arrogante e paranóica – dentro e fora do bantustão gazeano. Por fim, talvez o grande beneficiado de todo esse incidente seja mesmo o Irã – afinal, quem poderá classificá-lo como um perigo a humanidade após tudo o que presenciamos?

Cláudio César Dutra de Souza é mestrando em Sociologia pela Université Paris X, França;

Silvia Ferabolli, doutoranda em Política e Estudos Internacionais pela University of London (silviaferabolli@terra.com.br).

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4 Comentários em Israel e a diplomacia da irracionalidade, por Cláudio César Dutra de Souza & Sílvia Ferabolli

  1. De fato, mesmo considerando as lamentáveis perdas humanas do incidente, e não querendo defender a ação israelense, nunca é ruim esquecermos que também grupos de ajuda humanitária têm conotações políticas e ideológicas em suas ações; dificilmente a Flotilha poderia esperar uma recepção calorosa em Israel, funcionando mais como um incidente polarizador das opiniões.
    Apesar de não ser o que está em questão, a legitimidade dos ideais humanitários cria uma espécie de armadura moral que protege alguns movimentos de uma análise crítica.

  2. É engraçado o quanto a legitimidade dos ideais humanitários justifica tudo, menos os atos de Israel em todos os sentidos. O principal aspecto ideológico que deveria ser sempre lembrado, é a cultura da impunidade, balizada pela ideologia da vitimização que produz discursos cínicos que tentam justificar e relativizar a longa história de crimes, terror e ilegalidade que são indissociáveis à reflexão sobre Israel. Se o incidente foi plarizador de opiniões, isso significa que cumpriu o seu objetivo com estratégia e inteligência, mostrando ao mundo aquilo que todos esperavam encontrar no irã, ou seja, uma real ameaça ao equilíbrio e a paz mundiais. A propósito, o que Israel planeja em fazer com o seu irresponsáveil e desconhecido arsenal nuclear?

  3. Não tentei defender Israel, mas apenas destacar o caráter polarizador que a questão assume. A vitimização israelense funciona no sentido inverso, de justificativa moral para qualquer ação deste Estado.
    Pra mim, o problema é que as análises correm sempre o risco da polarização, a qual não é bem vinda em análises imparciais, que tentamos fazer neste espaço acadêmico.
    De qualquer forma, justificáveis ou não, as posições dos atores internacionais têm uma lógica e percepção interna importantes, a qual tem de ser considerada para a análise de sua ação. A moralidade, sozinha, não tem capacidade explicativa, na maioria dos casos.

  4. “Análises imparciais” são uma falácia que ainda levamos em consideração nesse pais? Sérgio Buarque de Hollanda, em uma das passagens mais interessantes de “Raízes do Brasil” coloca que temos o costume de usarmos a inteligência como “ornamento e prenda”, jamais como “especulação e ação”. Moralidade pode ser uma categoria analítica, o feminismo idem e assim por diante. Talvez o nosso problema, no Brasil, é que nos julgamos pequenos para emitir opiniões e fazer inferências,o que não ocorre quando lemos os trabalhos publicados em outros países cujos autores se autorizam a movimentar o que está em jogo sem medo de assumir posições. Denunciar a manipulação ideológica israelense deve ser o compromisso de todo acadêmico sério. Eu morei 5 anos em Israel e assino embaixo dos autores desse artigo e poderia acrescentar mais coisas. A descrição sobre Jonh Ging é paradigmática da censura israelense em relação aqueles que ousam falar. Censura na academia, na imprensa….conseguiremos ser neutros e “científicos sem termos acesso a informação? que os nossos acadêmicos tropicais reflitam sobre isso.

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