Indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão na Graduação em Relações Internacionais, por Tânia Maria Pechir Gomes Manzur, Egidio Lessinger & José Romero Pereira Júnior

Existe uma lacuna no Ensino Médio de todo o País referente ao conhecimento de assuntos atuais de Política Internacional, Relações Internacionais, Inserção Internacional do Brasil, Relações Interamericanas, entre outros que ocupam uma parcela relativamente pequena das disciplinas de Geografia e História; tais disciplinas enfrentam a dificuldade estrutural de adequar um conteúdo programático extenso – geralmente voltado para o Vestibular ou outras formas de ingresso na Universidade – a uma carga horária relativamente pequena.

Além da percepção das variadas necessidades dessa área acadêmica, fundamentalmente, se consolida a cada dia a visão de que em Relações Internacionais, ensino, pesquisa e extensão têm de ser experiências e vivências de fato indissociáveis. A grande dificuldade é a de encontrar o tipo de “material” a ser oferecido à comunidade externa, que seja próprio das Relações Internacionais. Também difícil é conceber as formas de levar esse “material” à comunidade. Muito se pensa em aulas de reforço em idiomas, a serem ofertadas à comunidade acadêmica e à comunidade externa a qualquer Instituição de Educação Superior. Mas esse seria um “material” mais afeito, talvez, a um curso de Letras, ou Letras e Tradução. O que seria, então, próprio das Relações Internacionais, que pudesse, ao mesmo tempo servir de expansão ao que se estuda em sala de aula na Universidade e beneficiar a comunidade externa? Como fazer isso levando em conta a marcante vocação para a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão que se verifica particularmente nas Universidades brasileiras? Como inovar em Relações Internacionais, um curso por vezes considerado de elite, ou voltado para estudantes de classe média alta, com vocação para a diplomacia e, portanto, com conhecimentos culturais elevados? Ainda que esse seja um mito que aos poucos se desfaz na sociedade, a lentidão desse processo permanece oferecendo algumas dificuldades na composição de atividades que, originadas nos cursos de Relações Internacionais, possam atender à comunidade externa a eles.

Em uma análise mais detida do Ensino Médio no Brasil, nota-se uma grande discrepância entre conteúdos a serem estudados e carga horária de disciplinas. Em geral, são muitos os conteúdos e pouco tempo para serem abordados[1]. Ademais, na estrutura curricular do Ensino Médio brasileiro, faz-se muita preparação para exames de admissão na Educação Superior, e pouco se educa para a vida, para a resolução de problemas cotidianos, para o desenvolvimento de capacidades e habilidades, enfim, raramente se encontra em uma escola de Ensino Médio uma formação integral – técnica e humanista – dos estudantes. Para além disso, em uma conjuntura internacional caracterizada pela complexidade e pela fluidez, política internacional, diplomacia, economia, meio ambiente, segurança, estratégia, intercâmbio cultural, antropologia, sociologia, dentre várias temáticas, muitas vezes não são contemplados com o tempo necessário para sua melhor compreensão e aprofundamento. Isso prejudica alguns dos objetivos das instituições de ensino em toda parte.

E com a globalização e a crescente interdependência, assuntos cotidianos passam a fazer parte de uma ampla e complexa gama de inter-relações com impactos não apenas locais, mas também, em muitos casos, internacionais, à medida que afetam a inserção internacional do Brasil, seja em sua imagem seja na própria construção da identidade nacional, na formulação do interesse nacional ou na projeção de poder do País. Assim, a discussão das variadas facetas da inserção internacional do Brasil, ao partir necessariamente de uma perspectiva “multi”, “inter” e “transdisciplinar”, visa a contribuir também para a formação de cidadãos capazes de uma compreensão holística dos processos sociais mais relevantes, haja vista a incontornável necessidade de tratar a relação entre temas gerais e particulares em um mundo cada vez mais interligado.

Nesse sentido, ao buscar superar as persistentes lacunas do Ensino Médio no que tange ao conhecimento sobre a realidade internacional, mostra-se inescapável às IES se desencapsularem e tratarem, para além dos seus muros, dos temas inerentes ao estudo das relações internacionais, questões de segurança pública, lei e ordem; políticas públicas nas mais diversas áreas; desenvolvimento e política econômica; difusão da informação; acesso à educação; meio ambiente; entre outros anteriormente referidos.

A interdisciplinaridade e a maior integração das IES com o Ensino Médio já são de algum modo promovidos, mas alguns projetos dentre os quais o pioneiro é o projeto Monitor Internacional (Moninter), de 2007, vinculado ao Curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília, vêm atuando em consonância com escolas de Ensino Médio; essa interação tem em seu escopo estreitar os laços entre as IES e a comunidade estudantil e docente do Ensino Médio para juntas incentivarem o debate interdisciplinar, a partir da experiência de uma área do conhecimento acadêmico que se define pela “multi”, pela “inter” e pela “transdisciplinaridade”, que são as Relações Internacionais.

A extensionalidade, tal como a pesquisa e o ensino, é intrínseca à atividade universitária. A premência do envolvimento com a comunidade intra e extra-acadêmica, no atendimento às necessidades e demandas da sociedade, é instrumental na formação integral do estudante e futuro profissional. À luz dessas linhas gerais, os projetos que integram ensino, pesquisa e extensão em Relações Internacionais têm criado oportunidades de aprendizagem tanto para as escolas associadas quanto para os graduandos da UCB, considerando a qualificação e a formação do indivíduo para o exercício da cidadania. Assim, teoria e prática encontram-se para dar maior consistência ao processo ensino-aprendizagem. Para além da difusão e consolidação da prática extensionista por entre os estudantes do curso de Relações Internacionais, as ações de projetos como o Moninter objetivam, em linhas gerais, fortalecer nos estudantes do Ensino Médio a compreensão do mundo, a partir de discussões aprofundadas e orientadas sobre temas das relações internacionais e da inserção internacional do Brasil, bem como temas correlatos, apresentados nos meios de comunicação.

De modo mais específico, têm-se como possíveis atividades no âmbito da extensionalidade, isto é, daquilo que integra IES e comunidade externa, e da sua necessária associação ao ensino e à pesquisa: a) analisar o noticiário nacional e internacional sobre questões econômicas, jurídicas, sociais, ambientais, de desenvolvimento, que envolvam a inserção internacional do Brasil; b) propiciar aos estudantes do Ensino Médio conhecimentos gerais abrangentes e consolidados, com vistas a uma melhor preparação humanística e ética para a escolha da profissão; c) propiciar aos estudantes do Ensino Médio formação instrumental que lhes favoreça a entrada e permanência na Educação Superior; d) favorecer a ocorrência de práticas que integrem ensino, pesquisa e extensão e sejam protagonizadas pelos estudantes universitários nas áreas de Relações Internacionais, Comunicação Social, Economia, Direito, Serviço Social, Engenharia e Gestão Ambiental, Letras, entre outras áreas associadas; e e) propiciar capacitação e atualização a professores do Ensino Médio em matérias de atualidades que venham a compor os vestibulares e avaliações seriadas. Todas essas ações integradas podem de fato vir a contribuir para sanar algumas das lacunas do Ensino Médio no Brasil e, ao mesmo tempo, moldar percepções sociais sobre a área acadêmica das Relações Internacionais, sua atualidade, relevância e perspectivas.

Em suma, a existência de projetos que de fato integram ensino, pesquisa e extensão na área das Relações Internacionais configura-se como uma novidade a ser celebrada na cena da educação superior brasileira e que não deve ficar restrita apenas às Universidades, mas expandir-se até mesmo às IES que não tenham obrigação legal de prover aos seus estudantes de nada mais que o ensino. As experiências já existentes, como o Moninter, deverão ensejar a existência de várias outras nas Instituições de Educação Superior que de fato queiram dar uma contribuição social válida e expressiva. Há lacunas ainda a preencher e, havendo ainda projetos inovadores mas incipientes, problemas ainda há a resolver que dependerão da manutenção das boas práticas e eventuais correções de rumos.

De todo modo, as experiências já existentes podem servir de referência caso tenham a visibilidade necessária, que advirá fundamentalmente da troca de idéias com que profissionais da área em outras IES possam contribuir para o crescimento da área de Relações Internacionais em toda a sua potencialidade.


Notas

[1] “MEC [Ministério da Educação] pretende aumentar carga horária do Ensino Médio. Alunos, no entanto, escolheriam o que estudar. Autoridades da educação debateram sobre novo Enem e Ensino Médio Inovador em São Paulo”. Disponível em: http://guiadoestudante.abril.com.br/vestibular/enem/paulo-renato-souza-prefere-que-o-enem-substitua-a-primeira-fase-das-federais-498303.shtml. Acesso em  10 de maio de 2010.

Tânia Maria Pechir Gomes Manzur é Diretora do Curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília – UCB (tania.manzur@gmail.com);

Egidio Lessinger é Professor do do Curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília – UCB;

José Romero Pereira Júnior é do Curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília – UCB.

Print Friendly, PDF & Email

Seja o primeiro a comentar

Top