Estados Unidos: campanha presidencial sem definição para o Iraque, por Virgílio Arraes

Iniciou-se em 2008 o processo dos dois principais partidos norte-americanos para a indicação de seus candidatos à Presidência da República. Embora o evento mais importante ocorra no início de fevereiro – na chamada super-terça – é perceptível a cautela dos candidatos ao abordar a política externa atual – tão polêmica quanto desaventurada – principalmente no quesito relativo à II Guerra do Golfo. Assim, os pretendentes envidam esforços em questões internas relacionadas, por exemplo, ao social.
Contudo, 2007 tornou-se o ano com mais mortes para os efetivos da coligação anglo-americana e seus apoiadores – policiais iraquianos e milicianos curdos – ao totalizar mais de dois mil e quinhentos falecidos, dos quais 901 estadunidenses. Em 2006, o número havia sido de 822.
Não obstante os conservadores minimizarem os custos humanos – inclua-se o demorado tratamento de recuperação física e, muitas vezes, psicológica de inúmeros combatentes, sob responsabilidade do Departamento de Veteranos – há os materiais, tão significativos que poderão obstar o próximo ocupante da Casa Branca, se democrata, a reformar o sistema de saúde – caso aplicado de modo universal, o modelo pretendido poderia ultrapassar mais de 50 bilhões de dólares anuais.
O Congressional Research Service estimou em 2006 o gasto semanal de dois bilhões de dólares para o confronto no Iraque. Naquele ano, Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia de 2001, previu o total das despesas ao final da confrontação em pelo menos um trilhão de dólares.
Apesar de os democratas posicionarem-se contra a guerra, nenhum deles advoga a idéia de uma retirada acelerada: Hillary Clinton, ao invocar a justificativa de que os aliados locais ou empresários e trabalhadores norte-americanos – sem olvidar as grandes corporações lá instaladas – poderão ficar à mercê da sanha dos fundamentalistas, defende o retorno aos poucos, com a conclusão para 2013, desde que haja a permanência de algumas unidades de matiz antiterrorista em solo iraquiano.
Remoça-se, por conseguinte, a postura empregada na América Central entre as décadas de 1970 e 1980 quando o governo manteve, além de tropas de elite, consultores militares, a fim de anular a ‘subversão’ patrocinada supostamente por Cuba ou União Soviética, pondo em segundo plano a autonomia política de grupos locais.
Sem ainda dispor de sua senadoria por Illinois em 2003, mas mesmo assim contrário ao conflito desde os seus primórdios, Barack Obama manifesta-se também por fases, porém até 2010; por fim, John Edwards, já desistente, inclinava-se a um recolher imediato de 40 a 50 mil e, após um ano de avaliação, mais efetivos seriam despachados para os Estados Unidos. Sem chances desde o desenrolar da eleição, Bill Richardson – também já fora do páreo – e Dennis Kucinich patrocinariam a saída imediata.
No plano retórico, portanto, as propostas democratas dos dois contendores são acanhadas. Não se considera ainda a pressão política do Pentágono ou de setores energéticos para uma presença mais constante no Iraque por causa do peso estratégico do país. Nem mesmo o quadro recessivo estadunidense – com a retração dos preços do petróleo – diminui a importância de fixar-se em solo iraquiano.
No lado republicano, os três principais disputantes – Mike Huckabee, John McCain e Mitt Romney – apóiam quase irrestritamente a guerra, de sorte que não se comenta a possibilidade de um cronograma de retirada. Pesquisas de opinião indicam que o eleitor norte-americano dedica mais atenção à possibilidade de diminuição do ritmo de crescimento da economia do país do que ao confronto no longínquo Oriente Médio.
Se os republicanos escolherem McCain, condecorado capitão da reserva da Marinha e ex-prisioneiro de guerra por meia década, há chances de o candidato a vice dos democratas ser um militar como o General da reserva Wesley Clark, por exemplo.
Em decorrência da forma de recrutamento, o voluntariado – opção vigente desde o desgaste na Guerra do Vietnã – a classe média norte-americana não se envolve diretamente com os percalços do atual conflito. Meia década de invasão incorporou ao eleitorado de lá a sensação de cotidianidade. Há a natural perda de impacto das dificuldades e dos reveses, observados e assimilados sempre à distância.
Além do mais, o comando militar sob responsabilidade do General David Petraeus adotou tática concernente a tornar menos vistoso o conflito do Golfo. Há um êxito relativo, visto que restou despercebido, no ano passado, o dobrar de cidadãos iraquianos presos, com a conseqüente convicção das forças armadas de que os ataques a alvos não militares arrefeceriam. Segundo Petraeus, de junho a dezembro, houve uma diminuição de 60%, o que balizaria a sua opção por mais detenções ;
o aumento de sete vezes o número de ataques aéreos, com a natural diminuição da exposição em combates das tropas, ampliadas em mais 30 mil; e, por fim, a pressão para que o parlamento iraquiano aprovasse legislação permitindo o retorno ao serviço público dos antigos filiados ao Partido Baath, do regime de Saddam Hussein.
Acresça-se que a Casa Branca não promoverá certamente cenas como as de 2003, quando o Presidente George Bush vestiu-se de militar para proclamar no porta-aviões Abraham Lincoln o êxito da campanha, ainda que haja frases desmesuradas, devido ao caráter ufanista, como a emitida em sua visita de oito dias ao Oriente Médio no começo de janeiro em que ele afirmou que quando a história (do conflito) fosse escrita, na última página estaria que a vitória havia sido obtida pelo país para o bem do mundo.
No entanto, diante do enfraquecimento da economia em 2008, parcela considerável da população poderá sofrer, porque não haverá condições financeiras suficientes para que o próximo mandatário conserve o atual grau belicista da política externa e, ao mesmo tempo, promova reformas sociais, como na área de saúde, a mais preocupante para os cidadãos pobres e de classe média baixa.
Virgílio Arraes é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).
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1 Comentário em Estados Unidos: campanha presidencial sem definição para o Iraque, por Virgílio Arraes

  1. Se fosse norte americano, escreveria o comentário alinhando com o pensamento de Hillary ou McCain, seria crítico perante os potências vencedores ou então seria indiferente e enveredava pela abstenção, o que não é muito correcto. Todavia, como europeu, tecerei algumas considerações críticas sobre o assunto e serei o mais imparcial. São candidatos com personalidades diferentes que disputam um lugar cuja influência é por demais evidente em todo o mundo. A continuidade a curto, médio ou longo prazo no Iraque, depende essencialmente da capacidade das forças envolventes serem capazes de colocar a administracção pública, segurança, economia, governo e outros aspectos a funcionar neste último país. pode levar muito tempo, mas compete aos EUA e aliados encontrarem solução para esta questão, independentemente dos custos financeiros e evitar perdas humanas para ambos os beligerantes. Este artigo evidencia o que muitos críticos já salientaram como principal responsável a orientação da política externa estadunidense que contribui para um anti-americanismo na opinião pública internacional, inclusivé em regiões muito próximas deste país. A nível interno, os EUA e todo o globo, vivem com angustia um novo conceito de terror onde os aspectos desumanos se sobrepõem aos valores humanos e são notícia de primeira página. As assimetrias sociais internas e regionais são evidentes, contribuindo para situações delicadas e que provocam mal estar em todos os estratos sociais, até nos menos necessitados. A recuperação económica tarda em aparecer e revela uma vulnerabilidade tremenda que nos pode conduzir a situações delicadas. São precisamente estes assuntos e outros associados que não encontram resposta nas breves passagens dos discursos dos principais candidatos à ocupação da Casa Branca. É necessária actualemente para qualquer ocupante deste lugar, ter uma mundovisão interna e externa capaz de enfrentar uma conjuntura internacional muito complexa e que represente os EUA com interesses globais. McCain ou Hillary, serão concerteza dignos representantes desta nação, o mesmo terão que desempenhar um mundo cinematográfico, de outras artes, do desporto, da política, da economia, das finanças, etc. Em conjunto, terão o seu efeito e contribuirão para uma sociedade mais justa e um globo mais equilibrado. Os latino americanos, africanos, asiáticos e nós, precisamos dos senhores.
    A frase: sejamos realista e exijamos o impossível, deve fazer parte do vocabulário dos candidatos e relegar para segundo plano lamentações fatalistas que em certa medida revelam falta de racionalidade na preparação dos respectivos discursos. Que nos próximos dias a opinião pública internacioal seja bafejada por ideias originais concretas e se necessário se entre na abstração, para os mais entendidos. O visual e o charme são importantes. No entando, o berço e a formação também o são. Mas aquele que apresentar ideias mais originais e que consiga apresentar as melhores soluções deve ser o eleito, independentemente o aparelho partidário seja democrata ou republicano.

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