Entendendo a geopolítica do medo no Vale do Swat, por Pedro Lara de Arruda

No último sábado, dia 13 de Março, jornais e revistas do mundo inteiro noticiaram um ataque terrorista a um posto policial no vale do Swat, região situada a noroeste do Paquistão. Por ocasião desse atentado 13 pessoas já foram dadas como mortas, numa onda de violência que também atingiu a cidade de Lahore, próxima à região do Swat, contabilizando um total de não menos que 71 mortos (FOLHA DE SÃO PAULO, 2010). As principais manchetes atribuem esses atentados a um suposto recrudescimento da polícia paquistanesa diante da crescente penetração de talibãs vindos do Afeganistão. Contudo, esta é uma explicação que preza pela simplicidade e negligencia a particularidade da região do Swat.

Embora seja natural pensarmos que o governo paquistanês está combatendo essas levas de radicais talibãs que entram em seu país fugindo da guerra estadunidense ao Afeganistão, há que se ponderar o fato de que, pelo menos desde 2004, a postura do governo paquistanês diante da penetração talibã no Vale do Swat é, no mínimo, complacente. Desde 2004 o governo paquistanês vem reclamando energicamente dos ataques não-pilotados de aviões estadunidenses em seu território (BURGHARDT, 2009). Nas poucas ocasiões em que Washington se pronunciou sobre o assunto, alegou estar mirando apenas alvos terroristas que fugiam do Afeganistão (NEW YORK TIMES, 2009a). Com isso a penetração de radicais talibãs em território paquistanês trouxe consigo o inconveniente dos bombardeios estadunidenses, declarados de forma unilateral e sem o menor respeito à soberania paquistanesa. Nesta verdadeira sinuca internacional, o governo paquistanês acabou sendo obrigado a colocar-se numa posição de rival do país que, supostamente, poderia lhe ajudar no enfrentamento dessas levas de radicais, os EUA. Além de um enfraquecimento substantivo no potencial de combate paquistanês, que ficou desprovido de uma parceria poderosa, houve a incorporação do bom e velho discurso maniqueísta por parte de importantes nomes da política de defesa paquistanesa. Ou seja, vários atores importantes na dinâmica de segurança do Paquistão optaram por buscar alianças com os próprios radicais talibãs contra os referidos ataques não-tripulados dos EUA, seguindo os conselhos do Tio Sam de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Esta posição, que pode parecer absurda, na verdade tem muito de realista e pragmática, afinal, alianças com o outro pólo desse problema que invadia o território paquistanês estavam bastante restritas, principalmente pela dificuldade de se formalizar acordos de cooperação militar uma vez que as declarações presidenciais tornavam-se cada vez mais críticas e o distanciamento diplomático cada vez mais evidente, conforme ficou claro quando o Ministro de Relações Exteriores paquistanês, Shah Mehmood Qureshi, disse ao Almirante estadunidense, Mike Muller, e ao enviado especial de Obama para a região, Richard Holbrooke, que havia um distanciamento entre os dois países e que a confiança entre os dois países era questionável (NEW YORK TIMES, 2009a).

Assim, a ação inconseqüente dos EUA no Afeganistão logo tomou de assalto seu vizinho, o Paquistão. Em vista desse estravazamento de fronteiras do conflito os EUA mais uma vez decidiram sua ação da forma mais rudimentar e violenta possível, simplesmente decidindo violar o espaço aéreo paquistanês e destilar toda a imprecisão de sua artilharia em territórios que, como no caso do Vale do Swat, são historicamente marcados pela existência de povos tribais culturalmente diversos entre si e das demais regiões do Paquistão (JONES, 2009). Inclusive, essas regiões tribais gozam de um status diferente dentro da organização nacional paquistanesa, sendo chamadas de Federally Administered Tribal Areas (FATA), que são resultado de anos de esforços para a construção de paz nessas regiões (JONES, 2009).

Um efeito direto da ação estadunidense foi a emergência de ódios étnicos e a politização de conflitos tribais que até então não significavam um problema para Islamabad. Dessa forma, o governo nacional passou a lidar não apenas com o problema da inserção talibã, mas também com a desestabilização de tribos cuja paz destruída pelos bombardeios estadunidenses fora fruto de históricas negociações. Com isso, a energia do governo teve de ser dividida entre essas duas questões, aumentando a impotência de sua ação contra os talibãs, que já ocorria pela impossibilidade de cooperar com os EUA para esses fins. Nesse clima de instabilidade alguns nomes da política de defesa decidiram ocupar o vazio de poder e firmaram alianças com os próprios grupos talibãs (BURGHARDT, 2009).

Desde então o Vale do Swat sofre o fechamento compulsório de escolas, execuções sumárias e sem julgamento em tribunal, violação de direitos fundamentais e uma série de outras formas de violência não combatidas pelo estado, conforme apontou o presidente da Peshawar Bar Association, Abdul Latif Afridi (BURGHARDT, 2009):

    “the most fundamental rights are violated every second of every day. People are being ejected from their houses, courts are closed, 300 schools have been demolished”.

Esse pacto velado manteve seu silêncio até 2009, quando a contraparte talibã passou a se sentir suficientemente forte para pressionar o governo paquistanês a estabelecer algumas regras que, de certa forma, oficializavam a presença e a influência talibã no Vale do Swat. Em fevereiro de 2009 o governo, influenciado pelo braço político do Talibã na região – Awami National Party (ANP) – e pelo Tehrik-Nifaz-Shariat-e-Muhammadi/ Movimento para Implementação da Lei Islâmica (TNSM), assinou um acordo de paz que incluía a oficialização da Sharia nesses territórios e a liberação de diversos radicais talibãs presos por crimes como assassinato, estupro e prática de atos terroristas (BUGHARDT, 2009).

Após quase cinco anos de complacência o governo paquistanês não teve como negar a lei do estado a um grupo que se fortaleceu militar e politicamente enquanto seduzia lideranças tribais e altos escalões do exército com sua promessa de promover a resistência aos provocativos ataques estadunidenses.

O fato é que a partir de 2009 a mídia internacional mirou suas câmeras nesse pacto absurdo entre um governo não-islâmico (coalizão do Partido Popular do Paquistão, laico, e do Partido Nacionalista Awami, pashtun) e milícias radicais talibãs. Ao fazê-lo, os jornais e revistas de todo o mundo também se escandalizaram diante das torturas e violências praticadas pelos talibãs no Vale do Swat. Um momento marcante nessa nova postura internacional diante da realidade dessa região foi conseqüência de um vídeo da tortura de uma mulher que não aceitou o pedido de casamento do filho de Muslim Khan, porta voz e líder influente do grupo armado Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP).  Na ocasião Khan não buscou se defender e, pelo contrário, usou a oportunidade para comunicar sua intenção de estender tais atos a todo o Paquistão, conforme na declaração dada ao jornal The Guardian (THE GUARDIAN, 2009):

    “Swat is a test case. After this, it [sharia] should be brought in in the whole of Pakistan. How can we have British law here? It is the task of the Taliban to make them agree. It is our right, 95% of the population is Muslim.”

Apesar do estardalhaço da mídia e dos protestos levados a cabo por organizações pró-direitos Humanos do Paquistão e do resto do mundo, este capítulo passou em branco pelos sistemas jurídicos Paquistaneses. O Chefe da Suprema Corte de Justiça do Paquistão, Iftikhar Muhammad Chaudhry, chegou mesmo a pedir ao governo para “not taking up the case until it became a national scandal” (NEW YORK TIMES, 2009b). Pressionado pela sociedade civil internacional o Presidente Pervez Musharaf chegou a designar sua Ministra do Interior para comandar uma ação que apurasse as denúncias e estabelecesse um plano de combate à infiltração Talibã, porém, esta ação acabou se transformando num fiasco que ficou marcado pela recusa do Chefe da Suprema Corte em visitar o local, retrucando ainda à Ministra que ela mesma deveria ir à região, num tom pelo menos ameaçador (NEW TORK TIMES, 2009b).

Dessa forma o incidente foi silenciado pela incompetência do estado e, daí  em diante, abusos semelhantes foram se tornando cada vez mais freqüentes, a despeito das crescentes críticas da sociedade civil.

Sentindo a vulnerabilidade da região, radicais Talibãs passaram a emigrar ainda mais para o Paquistão a partir de fevereiro de 2009. Com isso os conflitos tribais também foram se exacerbando, piorando uma situação que já se mostrava bastante frágil.

A intensificação deste processo passou a ter reflexos imediatos na política estadunidense, que tinha cada vez mais dificuldade em esconder o fracasso da milionária ação militar de caça aos Talibãs. Dessa forma, um ponto chave da ‘reformulação da política militar para o Afeganistão’, que é uma das metas principais do governo Obama, incluiu o aumento dos bombardeios não-tripulados, bem como a intensificação de verba para as ações da CIA nessa região (BUGHARDT, 2009). Acontece que as ações da CIA nessa área seguem o padrão das ações da CIA em todo mundo, o que envolve negociar com criminosos, fomentar disputas e guerras locais e contratar serviços mercenários (CHOMSKY; HERMAN, 1976; WEINER, 2008).

Obviamente que uma região etnicamente fragmentada e vulnerável como o Vale do Swat não deixou a desejar nas expectativas da CIA. De fato o ano de 2009 apresentou um crescimento substantivo nos conflitos tribais (BURGHARDT, 2009), o que não deixa de ser uma forma de enfraquecer os Talibãs no Paquistão. Porém, o grande trunfo da ação criminosa da CIA foi gerar o caos inter-étnico num nível tal que o estado paquistanês se visse obrigado a intervir, não-necessariamente reprimindo o Talibã, mas buscando estabilizar a região e, dessa forma, eventualmente contrariando interesses pontuais de radicais talibãs. Com isso muitos Talibãs acabaram retaliando as ações de estabilização, promovendo ações terroristas e outras formas de manifestações ainda mais violentas que de costume, fato que, se de um lado representa uma complicação ainda maior para o governo paquistanês, por outro facilita a as ações estadunidenses, cuja maior dificuldade vem sendo justamente localizar seus alvos (BURGHARDT, 2009). Assim, é perfeitamente razoável pensarmos que os intensos e atrapalhados bombardeios não-tripulados são, na verdade, uma estratégia para elevação das tensões a um nível que obrigue a intervenção do estado e, por conseqüência, desperte a ira de grupos radicais que, ao agirem, acabam se revelando para a inteligência de Washington.

Dessa forma podemos notar que, de fato, as explicações mais corriqueiras sobre o cenário que levou aos atentados do último fim de semana são demasiadamente simplificadas e escondem um mar de variáveis. Afinal, não se trata de um recrudescimento paquistanês diante da infiltração talibã, mas sim de uma desestabilização da zona tribal multi-étnica paquistanesa em função de radicais talibãs, mas também em função de uma política de terra arrasada reelaborada em novos termos. Obama parece ter decidido mostrar trabalho com relação ao Talibã e, para isso, não vem medindo esforços para estimular o caos no Vale do Swat. O presidente democrata, da ‘mudança’, vem praticando a pré-histórica Realpolitik como poucos republicanos seriam capazes, ignorando completamente os custos humanos e sociais envolvidos em sua caçada Hollywoodiana aos Talibãs.

Numa situação em que talibãs se beneficiam da forma como os EUA lidam com o problema numa esfera estritamente militar, destruindo possibilidades de uma ação bilateral com o Paquistão para capturar as levas de fugitivos, há um claro interesse eleitoral na ação de Obama, que busca resultados a qualquer preço. Como conseqüência, o Paquistão agoniza sua incapacidade diante desses grupos radicais enquanto seus governantes encenam uma paz às custas da entrega gradual de territórios paquistaneses a Talibãs radicais. Debilidade essa que é ainda mais agravada quando os EUA exercem a imagem social de invasor e, portanto, favorecem a construção social de justiça por trás dos terroristas do Talibã que se opõem energicamente aos bombardeios teleguiados.

Além dos interesses eleitorais dos dois lados e do evidente contentamento de lideranças radicais, esse cenário também se configura muito favorável ao crime organizado, à máfia e a algumas grandes empresas.

Além de uma diversidade cultural quase explosiva, o Vale do Swat também possui uma vasta riqueza natural. Possuindo florestas de árvores grossas e de fácil extração, esta é uma das regiões madeireiras mais cobiçadas e, recentemente, das mais destruídas do mundo (THE NATIONAL, 2009). Destruição essa que, em 2009, atingiu uma proporção assustadora, nunca antes vista, a ponto de biólogos locais afirmarem que o que se cortou de madeira em um ano foi mais do que se extraiu ao longo dos últimos vinte anos (THE NATIONAL, 2009). Esta devastação, que gera sérios problemas sócio-ambientais e, portanto, só faz agravar os conflitos étnicos, é tanto um reflexo do aumento da influência talibã, quanto do uso irracional que se vem fazendo desse bem, extraído das formas mais rudimentares e danosas (THE NATIONAL 2009).

Outra preciosidade que aumenta a cobiça sobre a região é o bolsão de esmeraldas que ela abriga, o segundo maior da Ásia (THE NATIONAL, 2009). Fator que se torna ainda mais interessante em função da regulamentação trabalhista hiper flexível e os baixíssimos preços, por volta de US$50,00 a gema, que o Talibã pratica (THE NATIONAL, 2009).

Todo este caos fez passar despercebido pelas agências ambientais e jornais que os acordos de 2009 concederam o direito de manejo desses bens aos grupos talibãs do Vale do Swat. No estado de guerra em que esta região se transformou, fica cada vez mais difícil de notar os interesses financeiros por trás de todos esses conflitos. Inclusive, é sob o véu da guerra generalizada que uma das maiores corporações mafiosas asiáticas, a D-Company, de Dawood Ibrahim, também conhecida por mover o mercado negro de ouro, armas, material nuclear, heroína para a Europa, Mandrax para a África do Sul, dentre outras drogas e materiais contrabandeados, promove a saída de contrabando paquistanês para Jaipur, na Índia, onde a mercadoria é ‘lavada e vendida’ às maiores joalherias e empresas madeireiras do mundo, sediadas principalmente na Suíça, Israel e Bangkok (GLENNY, 2009).

Dessa forma, podemos concluir que a matança dos últimos dias foi apenas mais um movimento desse teatro dos horrores em que todos os envolvidos declarados perdem enquanto atores nem tão evidentes ganham e muito por trás dos panos da corrupção, da máfia e da máquina eleitoreira.

Referências Bibliográficas

Pedro Lara de Arruda é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e pesquisador do úcleo de Estudos Asiáticos (Neásia) da mesma universidade (pedrolarapesquisa@gmail.com).

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2 Comentários em Entendendo a geopolítica do medo no Vale do Swat, por Pedro Lara de Arruda

  1. Ótimo texto, muito bem articulado, crítico e informativo. Muito útil, estou fazendo uma pesquisa sobre a educação feminina no paquistão, com um viés de soberania de Estado (que envolve o talibã) e de violação de direitos humanos. Me ajudou muito! Parabéns

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