Donald Trump: eleição e perspectivas

Nestes primeiros dias da Administração Trump muitas perguntas têm sido feitas sobre o alcance e os possíveis desdobramentos das medidas que vem anunciando. Cada uma dessas perguntas comportariam uma análise de várias páginas para não ser demasiadamente superficial.

Neste momento, sobretudo para quem vive num país de incertezas como o Brasil, talvez seja o caso de pensar que a pergunta mais importante seria: “Por que alguém como Donald Trump foi eleito?” Por que uma sociedade grande e livre como a americana elegeu alguém como Donald Trump para governante? Pode-se discutir o sistema eleitoral americano que considera o pacto federativo tão importante quanto o voto popular. Para nós, brasileiros, essa importância atribuída à Federação soa estranho, já que nossa experiência política, diferentemente do que ocorre nos EUA, a tradição sempre foi a de atribuir um valor muito pequeno à Federação.

Apesar de tudo, de qualquer modo, o fato é que Donald Trump teve praticamente a metade dos votos populares e ganhou por larga margem no Colégio Eleitoral, que representa a Federação.[1] Além disso, cabe perguntar também se a população americana estivesse tão preocupada com a eleição de Trump, onde estavam os demais 60 milhões que não se deram ao trabalho de votar?

Para nós, brasileiros, parece que a eleição de Donald Trump acende uma “luz amarela” (alguns diriam “luz vermelha”) sobre as eleições de 2018. No Brasil, o voto é obrigatório, mas a quantidade de votos em branco ou nulos têm aumentado significativamente de eleição para eleição, revelando existir um ambiente de grande rejeição pela classe política e também desprezo pelo processo eleitoral. Nesse quadro, parecem crescer muito as chances de que, nas eleições de 2018, saia vencedor algum “outsider”, algum candidato de fora do sistema com discurso capaz de captar a crescente insatisfação de grande parcela da população que se vê profundamente desassistida pelo Estado enquanto, por outro lado, a classe política tradicional se vê envolvida em escândalos de corrupção e parece permanecer alheia às demandas da população em relação não apenas a questões críticas como a da segurança pública e da saúde pública, mas também em relação aos transportes nas grandes cidades e outros serviços que continuam lamentavelmente precários. Além de priorizarem seus próprios interesses (em especial a re-eleição ou a ocupação de cargos na administração pública) a classe política parece repetir os mesmos erros do Governo Obama e de seu Partido na última década.

A classe política brasileira, como a americana, continua preocupada prioritariamente com as elites engajadas em ONGs cuja influência sobre os meios de comunicação é grande. Veja-se, por exemplo, o episódio da decisão de extinguir o Ministério da Cultura. Diante da rebelião de artistas e ONGs o governo decidiu voltar atrás. Na mesma direção, enquanto a grande massa da população se vê às voltas com as grandes dificuldades do dia-a-dia (segurança, transporte público, falta de serviços públicos básicos) a classe política envolve-se com temas tipicamente das elites como a liberação do uso da maconha, as ciclovias nos fins de semana, os direitos de imigrantes ilegais ou a criação de assentamentos e regularização de imóveis que beneficiam pequenos segmentos organizados em ONGs. Esse tipo de desconexão foi uma das razões que levou a candidatura do Partido Democrata ao desastre nas últimas eleições americanas. Cabe notar que foi graças ao seu carisma, e não à sua política, que o Presidente Obama garantiu a manutenção de sua popularidade. Sua política fez encolher notavelmente a força de seu partido nas instâncias mais importantes. A representação do Partido Democrata na Câmara dos Deputados caiu de 256 deputados no início de seu primeiro mandato para 194 ao encerrar seu segundo mandato. No Senado, a queda também foi notável, de 55 para 46 senadores. Esse encolhimento do Partido Democrata também ocorreu no sistema Federativo onde o número de Estados governados por democratas caiu de 28 para 16 o que explica, em grande parte, a derrota no Colégio Eleitoral.

Em relação às questões sobre os possíveis desdobramentos dos discursos e das medidas anunciadas pelo Presidente Trump, parece sempre difícil fazer predições, mas dois desenvolvimento emergem como razoáveis de se esperar. O primeiro é que a organização do Estado americano tem como característica “desconfiar” do governante, isto é, quando os “Pais Fundadores” conceberam o país, a principal preocupação era a de controlar o poder do governante para que não se tornasse um tirano. Nesse sentido, embora o Presidente tenha muito poder, o uso desse poder é bastante limitado e controlado pelas instituições (o Congresso é apenas uma dessas instituições). O segundo desenvolvimento a ser observado é saber o que deve se passar com o resto do mundo. A política internacional é um jogo muito complexo, com muitos atores e processos extremamente dinâmicos. Os EUA continuam poderosos, mas hoje não possuem mais a predominância que tinham há meio século atrás. No início da década de 1950 o PIB americano era maior do que o PIB de todas as demais grandes potências somadas, incluindo a própria URSS. Hoje se somarmos a China, o Japão e a Alemanha praticamente formam um PIB equivalente ao dos EUA. Assim, obviamente qualquer política desenvolvida por uma potência como os EUA impactam o cenário internacional, mas hoje esse poder está muito menor. Na maior parte das grandes questões internacionais, os EUA continuam atores importantes, mas não são mais tão decisivos quanto o eram há algumas décadas. Um exemplo, é o caso do Acordo Trans-Pacífico (TPP). O projeto do TPP mesmo que não seja efetivado, não quer dizer que haverá abalos nos fluxos econômicos internacionais, muitas outras possibilidades poderão emergir ou, alternativamente, o comércio internacional continuará mais ou menos com os mesmos padrões que existem hoje.

Notas

  1. Hilary Clinton obteve 62,5 milhões de votos populares enquanto Donald Trump obteve 61,2 milhões. No Colégio Eleitoral, no entanto, Donald Trump venceu por 306 a 232 delegados.

Sobre o autor

Eiiti Sato é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (irel.sato@gmail.com).

Como citar este artigo​​

Eiiti Sato. "Donald Trump: eleição e perspectivas". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/09/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?article=donald-trump-eleicao-e-perspectivas-por-eiiti-sato>.
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