Crise Financeira e Desenvolvimento Econômico Sustentável: desafios para as relações internacionais, por Robson Coelho Cardoch Valdez

A globalização é um tema controverso que alimenta discussões acirradas entre adeptos e contrários a este processo. Mas o que se percebe é que a integração econômica é um fato e a questão atual é quão rápido uma nação se adaptaria a esta realidade tirando melhor proveito desta situação. Assim, dentro dos vários processos de integração política e econômica que existem, levantam-se questões acerca da soberania dos países em adotarem suas próprias mediadas de estímulo ao desenvolvimento econômico, que têm de ser sustenátveis, em meio uma conjuntura econômica global recessiva.

A crise financeira na Ásia em 1997 serviu como alerta para as demais nações de que a velocidade e maneira como um país se integra economicamente com o resto do mundo pode afetar seu desempenho e a performance dos demais países. Esta crise financeira afetou Tailândia, a Indonésia, a Malásia e a Coréia do Sul desestabilizando o vigoroso crescimento dos países da região denominados Tigres Asiáticos. Até então, estes países e as Filipinas tinham atraído mais de 65 bilhões de dólares em 1996 e passaram a perder 20 bilhões de dólares nos anos de 1997 e 1998. Essa liberdade de circulação de capitais levou à perda de 85 bilhões de dólares devido à fuga financeira, desvalorizando moedas e ações e espalhando temor suficiente para desencadear crises na Rússia em 1998 e no Brasil em 1999 (BHAGWATI, p. 225).

A volatilidade dos fluxos de capitais externos provoca impactos nas políticas macroeconômicas dos países e como conseqüência acabam provocando mudanças microeconômicas também. Os efeitos dessa vulnerabilidade são sentidos por intermédio do ajuste das contas externas, da política monetária e do processo produtivo dos Estados de acordo com suas capacidades e restrições domésticas e externas (KEOHANE, NYE. 1977). A abundância de recursos financeiros que deixam de ser captados no exterior para cobrir empréstimos de curto prazo de bancos e empresas provocam uma perda de reservas internacionais forçando o país a implementar políticas de estabilização macroeconômicas baseadas na redução de gastos públicos, consumo, investimentos, reduzindo as importações e orientando a produção interna para o mercado exterior. Já a acumulação de reservas acima de um nível ótimo, no caso de uma liquidez internacional, pode ser um problema para as economias nacionais controlarem a oferta de recursos externos. Isto se deve ao fato de na maioria das vezes, os governos optarem pela compra de reservas por intermédio da emissão de títulos públicos aumentando assim a dívida pública nacional uma vez que a diferença entre as taxas de juros internas e externas é muito grande.

Assim, com a crise Asiática e seus efeitos no resto do mundo, sendo estes mais devastadores nos países emergentes como o Brasil, o FMI passou a dar alguma ênfase à exigência de prudência na abertura de capitais ao mercado externo e à necessidade de fortalecimento das estruturas e práticas bancárias antes de tal abertura, aceitando assim a adoção de medidas de controles de capital (BHAGWATI, p. 232). Enquanto movimentos antiglobalização acusavam as instituições internacionais como o FMI, o Banco Mundial e a OMC de serem os principais estimuladores desse processo de liberalização dos fluxos de capitais externos na década de 1990, John Williamson reconheceu que “a agenda de políticas da década anterior certamente não advertiu os países contra tais atos inconsistentes, e realmente em alguns casos os países podem mesmo ter sido encorajados a realizar alguns de tais atos” (KUCZYNSKI, WILLIAMSON, 2003, p. 5).

A crise financeira mundial de 2008 é resultado da vinculação extrema das economias do mundo com os Estados Unidos. Investidores americanos mantinham seus recursos no exterior e os investidores estrangeiros mantinham os seus no mercado norte-americano. Todos sujeitos ao ritmo da atividade econômica mundial. Contudo, boa parte do fluxo de capital é fruto de um mercado financeiro paralelo altamente alavancado por títulos, dentre eles os imobiliários, que são revendidos várias vezes. Foi justamente nesse mercado de títulos imobiliários nos Estados Unidos que a crise financeira atual surgiu e se espalhou pelo mundo. Para Paul Krugman “tudo isso apresenta semelhanças com as crises cambiais anteriores… Mas a escala agora é muito maior. Esta é efetivamente, a mãe de todas as crises cambiais e representa novo desastre para o sistema financeiro mundial” (KRUGMAN, 2008, p.187-188).

Dessa forma, estímulo ao desenvolvimento econômico em época de crise sempre é lembrado como alternativa à baixa atividade econômica. Porém, já não se pode falar em desenvolvimento econômico sem a preocupação corrente de se preservar o meio ambiente.

Atualmente ambientalistas e economistas debatem qual seria a melhor maneira de equilibrar desenvolvimento com proteção ambiental. Organizações não governamentais responsabilizam as instituições internacionais como o FMI, o Banco mundial e a OMC por incentivarem países emergentes a adotar políticas macroeconômicas recessivas forçando os governos a intensificarem suas exportações agrícolas causando a expansão de suas fronteiras agrícolas florestas adentro. Carlos Walter Porto-Gonçalves (PORTO-GONÇALVES, p. 82-84) afirma que o impacto ambiental causado pela concentração urbana promovida pelo desenvolvimento acelerado dos últimos anos pode ser medido pela pegada ecológica,[1] que quantifica a degradação dos ecossistemas em relação à concentração populacional de uma determinada região. O autor afirma que uma cidade norte-americana típica, de 300.000km2 e com população de 650 mil habitantes, necessitaria de 30.000 km2 de terras para suprir suas necessidades internas. Isto, sem considerar as demanda ambiental da indústria. Nesta mesma linha de raciocínio, uma cidade indiana do mesmo porte e nas mesmas condições consumiria 2.900 km2 de terras. Colocando esses números de outra forma, o impacto do americano médio – que tem consumo per capita de 12 hectares de ecossistema sobre o meio-ambiente – corresponde ao impacto de cerca de dez africanos ou asiáticos que apresentam consumo per capita de 1,5 e 1,8 hectares respectivamente.

Observa-se nesta discussão entre ambientalistas e economistas que, segundo Bhagwati (BHAGWATI, p.154), os ambientalistas priorizam o meio ambiente em relação à renda e os “neoliberais” fazem o oposto. No entanto, antes que se discuta a introdução de taxas sobre a degradação ambiental oriunda do desenvolvimento econômico, há de se questionar o valor que cada sociedade atribui ao seu meio ambiente de forma racional e soberana, mas também levando em conta o impacto do desenvolvimento nacional no planeta. Atualmente a pressão que governos, instituições internacionais e ONG’s internacionais e nacionais exercem sobre os países, sobretudo os emergentes, é muito forte e decisiva na escolha de qual política desenvolvimentista as nações adotam.

Bhagwati lembra, contudo, que há extremos na valorização do meio ambiente em que o impacto de determinada atividade econômica é avaliado diferentemente por cada nação. Há atividades que podem trazer grande ganho econômico causando pouco dano ambiental ou vice-versa, e cabe a estas sociedades decidirem se estão dispostas a arcar com as conseqüências econômicas e ambientas resultantes de tais atividades. Para o autor, porém, em casos de impactos graves e irreparáveis para o meio ambiente global, faz-se necessário a adoção de taxas sobre a poluição causada por certas atividades assim como o seu monitoramento por órgãos internacionais competentes. Fica evidente, assim, que o debate entre ambientalistas e economistas está centrado entre a relação existente entre desenvolvimento econômico e agressão ao meio ambiente.

Em paralelo ao trabalho de Simon Kuznets para a desigualdade de renda e as rendas[2], foi elaborada uma pesquisa semelhante, que ficou conhecida como a curva ambiental de Kuznets, a qual estabelece que quando colocado o nível de poluição ou degradação ambiental no eixo vertical e os níveis de desenvolvimento econômico no eixo horizontal obtêm-se também uma curva no formato de “U” invertido. Essa curva também mostra que a nação no começo do processo de desenvolvimento apresenta altos índices de degradação ambiental chegando a um ápice. A partir de um nível satisfatório de desenvolvimento, seus impactos são amenizados com o aumento nos níveis de desenvolvimento econômico. Essa trajetória é explicada pelo fato dos países, ao se desenvolverem, passarem por etapas intensivas de exploração dos recursos naturais como a agricultura e extração mineral, seguidas de um desenvolvimento industrial, e por fim chegarem ao estágio da prestação de serviços em que o desenvolvimento tecnológico e científico atinge altos níveis de racionalização de recursos. De toda forma, essa análise da curva ambiental de Kunznets pode gerar argumentos tanto para ambientalistas como para antiambientalistas.

Economistas mais radicais podem ponderar que a força natural do desenvolvimento econômico amenizaria os danos ambientais do planeta na medida em que os Estados fossem se desenvolvendo apoiados em políticas de livre comércio, por exemplo. Da mesma forma, ambientalistas extremistas podem afirmar que o atual modelo de crescimento econômico, apoiado no livre comércio, tem um custo inicial de degradação ambiental que pode ser irreparável. É o caso, para muitos, de obras de infra-estrutura desenvolvidas por países com apoio de instituições financeiras internacionais, regionais e nacionais[3].

Dessa forma, a economia internacional e o meio ambiente tornam-se cada vez mais relevantes para as relações internacionais, devido seus respectivos papéis para o incremento da interdependência entre os países e, entre os países e as mais variadas instituições internacionais que lidam com os diversos temas da política internacional. Estes temas, economia e meio ambiente, ganham peso à medida que ONGs, instituições financeiras internacionais e governos pressionam por uma alternativa que garanta o desenvolvimento econômico sustentável dos países assim como a preservação do meio-ambiente.

Referência Bibliográfica

  • BAGWATI, Jagdish. (2004). Em Defesa da Globalização: Como a globalização está ajudando ricos e pobres. Rio de Janeiro, Elsevier.
  • KEOHANE, Robert. O.; NYE, Joseph. (1977), Power and Interdependence: World Politics in Transition. Boston, Little Brown and company
  • KUCKZYNSKI, Pedro-Pablo.;WILLIAMSON, John. (2004). Depois do Consenso de Washington: Retomando o Crescimento e a Reforma na América Latina. São Paulo, Saraiva.
  • PORTO-GONÇALVES, Carlos Porto. (2004), “O Desafio Ambiental”, in E. Sader (org.), Os Porquês da Desordem Mundial: mestres explicam a globalização, Rio de Janeiro, Record.


[1] De acordo com o autor, “a pegada ecológica estima a pressão humana sobre os ecossistemas mundiais. Segundo o Pnuma (GEO 3,2002:36), é uma unidade de área que corresponde ao numero necessário de hectares de terra biologicamente produtiva para produzir os alimentos e a madeira que a população consome, a infra-estrutura que utiliza, e para absorver o CO2 produzido durante a queima de combustíveis fósseis. Por conseguinte a pegada ecológica leva em conta o impacto que a população produz sobre o meio ambiente . a pegada ecológica depende do tamanho da população, do consumo médio de recursos per capita  e da intensidade dos recursos tecnológicos utilizados”.

[2] Quando colocados os níveis de desigualdade de renda no eixo vertical e a renda no eixo horizontal, observou se que a curva obteve o formato de “U” invertido mostrando que o nível de desigualdade chegaria a um pico e depois cairia com o incremento da renda dos indivíduos, ou seja, através do crescimento econômico.

[3] A Integração Sul-americana tem ganhado destaque na política externa brasileira e a Iniciativa de Integração das Infra-estruturas Regionais Sul-americanas (IIRSA) faz parte desse processo e tem recebido financiamentos elevados em obras de transporte, energia e infra-estrutura. O BNDES transformou-se em um dos seus principais financiadores – Cooperação Andina de Fomento (CAF), BID – sob condição de que empresas brasileiras sejam contratadas para execução das obras financiadas pelo banco. A relação entre as ações do BNDES e as empreiteiras nacionais (Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez) é estreita na execução das obras da IIRSA.

Robson Coelho Cardoch Valdez é Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES (robsonvaldez@hotmail.com).

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2 Comentários em Crise Financeira e Desenvolvimento Econômico Sustentável: desafios para as relações internacionais, por Robson Coelho Cardoch Valdez

  1. No caso dos Tigres Asiáticos, ficou flagrante a questão da diferença da facilidade da mudança de local de capitais em relação às estruturas físicas. Os capitais saíram enquanto que as instalações e os bens, que necessitam de material humano para funcionar, ainda estavam lá. Contudo, sem os capitais – que se movimentam instantaneamente de Peoria a Penang – perderam muito de sua capacidade de promover o desenvolvimento daqueles países.

  2. Olá Gostaria de saber sobre essa “Nova” Crise Cambial.
    Se existe alguma relação de “Nova “crise cambial com, a politica de estimulo Econômico EUA? .
    O que poderia me dizer sobre está relação?

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