China e Índia – A Disputa por “Soft Power” (II), por Paulo Antônio Pereira Pinto

China e Índia buscam atrair e influenciar outras regiões do planeta, através da divulgação de práticas, hábitos, criações e formas de raciocínio herdados ou marcados por suas respectivas longas histórias. Trata-se de disputa com o emprego de “soft power”, para emprestar o termo popularizado por Joseph Nye, conforme registrado na coluna anterior sobre o assunto.
Esta concorrência acontece, como também já exposto, em setores como: a reivindicação de ser sede do Budismo e, portanto, o espaço cultural de definição do “perfil espiritual” da Ásia; em Medicina e cinema, indianos e chineses aparecem, também, engajados em atrair e influenciar novos e velhos amigos. Estes processos aconteceriam nos continentes asiático, europeu e América do Norte.
A competição entre ambas as potências emergentes acontece, no entanto, de forma menos poética, pelo acesso a recursos naturais e energéticos, principalmente na África e América Latina. Nesse esforço, cada país parece adotar estratégias distintas que, de maneira simplificada, poderiam resumir-se nas explicações de que os chineses oferecem seu apoio diplomático – “soft power” – e amplos recursos financeiros, em troca do abastecimento de recursos naturais e energéticos.
Os indianos, de sua parte, através de sua diáspora pelo continente africano, apresentam um bem sucedido modelo de fazer comércio, bem como temas de inspiração, como sua luta contra o colonialismo e ideais políticos no estilo do “Não Alinhamento”.
Cabe lembrar, a propósito, que os registros iniciais da China com a África nos levam ao século XV, quando o legendário navegador Zheng He trouxe do Kênia uma girafa.
Por coincidência, também foi do Kênia, a partir da cidade marítima de Mombasa, que um navegador muçulmano conduziu Vasco da Gama a Calicute, em 1498, levando os portugueses a “descobrirem o caminho marítimo para as Índias”, já havia muito tempo percorrido por comerciantes indianos e africanos. No momento, contudo, a abordagem da Índia com respeito à África começa a ter perfil econômico, cada vez maior. Não se confunde, ainda, com o aspecto “mercantilista” adotado pela China, com respeito àquele continente.Assim, estrategistas indianos procuram distinguir que, com respeito à África, “China’s is resource-based investment, Indian investment concentrates on capacity building”.
Registra-se, a propósito, que em 2007, em diferentes países africanos, pricipalmente Zâmbia, Angola e Zimbabue, houve protestos contra o que seria visto como “imperialismo amarelo”. Assim, após a explosão em mina de cobre zambiano, de propriedade chinesa, houve manifestações que chegaram a provocar o cancelamento da ida do Presidente Hu Jintao ao local, em fevereiro do ano passado, quando visitava oficialmente Lusaka.
Em Luanda e Harare circulam severas críticas quanto à ausência de oportunidades de emprego, em companhias estabelecidas pela RPC. Tais empresas trazem trabalhadores chineses, que vivem em guetos. O presidente da África do Sul denunciou a criação de um “relacionamento colonial” com a China, na medida em que aquele país asiático se limitaria a importar recursos minerais e energéticos da África, sem criar valor agregado no continente.
A Índia, de sua parte, adota estratégia distinta. Os investimentos indianos são quase que integralmente privados e empregam, em grandes números, trabalhadores locais. Nesse processo, os países anfitreões sentem-se mais identificados com tais empreendimentos.
No México, por exemplo, haveria cerca de US 3 bilhões em investimentos indianos na indústria farmacêutica, devido à proximidade do mercado dos EUA. Colômbia está nos planos de expanção da mega-empresa Reliance, com vistas à criação de rede de energia elétrica, demonstrando o interesse da Índia por projetos de infra-estrura na América Latina.
Enquanto isso, existe proposta conjunta indo-africana para um “pan-African e-network project” com vistas ao desenvolvimento de tecnologias de informação e comunicação, que, eventualmente, resultariam na inter-ligação entre os 53 países do continente – com o emprego de “software” indiano, é óbvio.
Á India busca, também, exportar seu modelo de universidade aberta para o Botswana e Uganda. Trata-se, conforme mencionado acima, de priorizar “capacity building”, em oposição à ênfase chinesa de “resource-based investiment”.
Neste artigo e no anterior, buscou-se, portanto, explorar diferentes aspectos da competição sino-indiana, em “soft-power”, bem como identificar regiões do mundo onde esta rivalidade acontece. Cabe registrar que o desafio maior, no momento, seria o de imaginar como China e Índia poderão voltar a influenciar-se mutuamente com suas respectivas “soft powers” – conforme preveleceu há séculos, quando processo de “cross fertilization” levou ao que alguns estudiosos chamaram de “hinduanisação da China”, na medida em que – segundo estes – o antigo “Império do Centro” – guardadas as devidas diferenças de proporções e de momentos históricos – veio a importar tanto do Budismo indiano, quanto os europeus absorveram do Cristianismo.
Por enquanto, a maioria das análises disponíveis concentram-se na possibilidade de formação de um bloco econômico a ser chamado de “Chindia”, que, em 2020, poderia vir a contar com PNB superior ao dos Estados Unidos da América.
Para o observador em Mumbai, no entanto, o mais importante seria considerar a possibilidade de formação de enorme espaço de cooperação cultural, caso viesse a ressurgir, com naturalidade e de forma pacífica, o intercâmbio de idéias, manifestações artísticas e material genético, via Sudeste Asiático, que existiu, há séculos, entre hisduístas e chineses.
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1 Comentário em China e Índia – A Disputa por “Soft Power” (II), por Paulo Antônio Pereira Pinto

  1. Haja vista a abordagem do autor vir se desenvolvendo em etapas (conta-se dois artigos até o momento), não seria o caso de, na próxima, quiça tocar no ponto nevrálgico da análise do “soft-power”, isto é, em sua mensuração? Explico: quais as contingências, condicionantes, limites do recurso a esse expediente? A China, por um lado, reclama titularidade de sede do Budismo. O Tibete (refúgio do Budismo Mahayana após a Diáspora do Norte, quando da invasão islâmica do Indostão) encontra-se – hoje – incorporado ao território chinês. Todavia, não teria a invasão de 1959, a tentativa de assassínio e, logo em seguida, a fuga do Dalai Lama para a Índia, maculado quaisquer aspirações à titularidade de sede da pacífica e pacifista religião-filosofia? (No mínimo, tratar-se-ia de uma incoerência, não?) Do outro lado, que identidade há entre o Budismo e o modelo de organização social chinês? Não há congruência nem com o taoísmo! Talvez alguma com o confucionismo, da perspectiva da disciplina e da verticalização do poder… Quanto à Índia, a perpetuação do sistema de castas (condena-se o vergonhoso pacto de suas elites, que, a despeito da obrigatoriedade da norma positiva, assegura, na prática, a sobrevida, senão do escravismo, da discriminação social justificada na lei brâmane)aponta para a mesma contradição que impede a China de se apossar do tesouro espiritual do Budismo. Demais, há de se atentar para o fato de que, do ponto de vista dos ocidentais que comungam o Budismo, o fascínio de que Índia e China se pretendem imantar, a fim de atrair simpatias, e com isso construir plataformas para ação política ou iniciativa econômica, não prosperará. O Budismo é uma religião com características que o afastam de qualquer comparação. Tentar explicar o Budismo por intermédio da racionalidade linear ocidental é o mesmo que tentar colocar um quadrado dentro de um círculo, ou vice-versa (considerando a mesma área para as duas geometrias, evidentemente). Assim, noções como nacionalismo, ainda mais um nacionalismo com notas religiosas, ou mesmo um fervor religioso com tons nacionalistas (tal como o dos judeus para com Israel), é estranho aos budistas, sejam os do ocidente, ou do oriente (ressalva feita aos japoneses, mais pela cultura guerreira do samurai do que pelo Budismo).

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