Azerbaijão – A Esquina do Mundo e Seus Três Caminhos Alternativos

Localizada na convergência de diferentes civilizações, a região caucasiana foi invadida e disputada por grandes impérios e personagens famosos, como Alexandre, o Grande, o General Romano Pompeu, o conquistador mongol Genghis Khan, e o Tsar Pedro o Grande. Um dos países mais prósperos da vizinhança do Cáucaso, o Azerbaijão, é palco de história rica e antiga e tem sido cenário de batalhas há mais de um milênio. Há evidência de ocupação humana em seu território desde a Idade da Pedra. Hoje, verifica-se intensa disputa entre Turquia, Irã e Rússia por influência sobre esse Estado, emancipado da ex-União Soviética, em 1991.

Cartograficamente, o Azerbaijão estende-se do Noroeste do Irã ao Mar Cáspio, a Leste. Faz fronteria, a Oeste, com a Armênia e Turquia. Ao Norte, situam-se a Georgia e a Rússia. A nação azeri encontra-se, hoje, dividida em duas partes. A que ocupa o território do país, estimada em cerca de oito milhões de pessoas. E ao Sul, a que habita na parte meridional iraniana, calculada ao redor de 20 milhões. Esta divisão ocorreu conforme previsto pelo Tratado de Gulistan, em 1828, que incorporou o território hoje ocupado pelo Azerbaijão ao Império Russo, deixando a maioria da população do idioma azeri no Império Persa.

Há versões distintas sobre a origem étnica desta população, cuja língua é conhecida como azeri e, hoje, segue, majoritariamente o Islã Shiita. A região ao Sul da Cordilheira do Cáucaso, onde se situa o Azerbaijão, era melhor conhecida,na Antiguidade Greco-Romana e no auge da Rota das Sedas, do que no mundo atual.

Segundo a mitologia grega, foi no alto daquelas montanhas que Zeus mandou acorrentar Prometeu, para que seu fígado fosse comido por abutres, como punição por ter entregue o fogo prometido aos humanos.

Até hoje, há uma chama eterna que brota do chão, perto de Baku, que, para fins de atração turística é apresentada como aquela fogueira inicial. Ao escurecer, adquire um tom azulado. O fenômeno é hoje entendido pela óbvia presença de gás subterrâneo. Tive várias oportunidades de, enquanto Embaixador naquele país, no verão, ao anoitecer, ir tomar chá e saborear doces típicos, diante de cenário tão intrigante.

Imagine-se, no entanto, a popularidade daquele fogaréu todo, inexplicado através dos séculos, favorecendo o surgimento de crenças e credos como os seguidores de Zaratustra, que adoram o fogo. Os seguidores do Zoroastrismo, hoje, vivem principalmente na área de Mumbai, Índia.

No auge da Rota das Sedas, que ligava a Europa à Ásia e foi popularizada por Marco Polo, a área hoje ocupada pelo Azerbaijão era bem conhecida – segundo consta – nos dois continentes. A parte antiga de Baku, ainda hoje, preserva muralhas do Século XIV que protegiam os comerciantes que transitavam, naquela época, com suas caravanas de camelos. Hoje, o Azerbaijão, quando reconhecido, é identificado por situar-se na “esquina do mundo”.

Especialistas e simpatizantes lá situam fronteiras entre a Europa e a Ásia,entre o Ocidente e o Oriente, entre o Mundo Cristão e o Muçulmano, entre áreas de influências atuais da Rússia, Irã e Turquia e – na condição de ex-integrante da URSS – uma típica fase de transição pós-soviética, entre um sistema centralmente planificado e um de economia de mercado. Coloca-se, portanto, o desafio da adoção de perspectiva estratégica para o mapeamento de tendências e estruturas regionais em construção e identificação de novos atores regionais.

O artigo, portanto, procurará delinear cenários futuros prováveis – “caminhos alternativos a partir desta esquina do mundo” –  para a inserção internacional do Azerbaijão. Busca-se, então, saber se “haverá seda” – isto é, um cenário futuro favorável – na rota de inserção internacional desse pequeno país, marcado por vizinhança incerta, e passado de turbulências cíclicas.

A Inserção Internacional

A maioria das avaliações disponíveis sobre o papel do Azerbaijão no cenário mundial, o reduzem, cartograficamente, ao grupo de três pequenos estados recentemente emancipados na região do Cáucaso, junto com a Georgia e a Armênia. A seguir, são feitas observações sobre o término da Guerra Fria, o esfacelamento da União Soviética e a emergência de nações, sempre antagônicas, ao Sul daquela cadeia de montanhas, cujas diferentes culturas foram sufocadas,durante os 70 anos de jugo comunista.

O interesse pela inserção internacional do país pode ser maior, contudo, quando se verifica a crescente importância estratégica das margens do Mar Cáspio. Compartilham da mesma situação geopolítica a Rússia, o Irã, o Cazaquistão e o Turcomenistão. O país merece, portanto, atenção diferenciada do exterior, pelas conhecidas e recentemente revalorizadas riquezas energéticas que compartilha, nessa área ribeirinha.

O Cáspio é o maior mar interior do mundo e situa-se na confluência de conflitos étnicos, religiosos, nacionais e extrarregionais históricos. Durante o Século XIX, travou-se disputa, nesta parte da Ásia Central, por conquistas territoriais e acesso a mercados e recursos naturais, entre o Império Russo e a Grã Bretanha, também conhecida como “The Great Game”.

Cabe lembrar, a propósito, que no território hoje ocupado pelo Azerbaijão, há cerca de 3.500 anos, floresceu o Zoroastrismo, divulgado pelo Profeta Zaratustra, que pregava o monoteísmo, advogava a igualdade das mulheres, contava apenas no diálogo direto com Deus – sem a intermediação de sacerdotes– condenava o sacrifício de animais e a noção de milagres. Denunciava o flagelo de guerras religiosas, que causassem destruição em nome de uma fé ou de outra.

Zaratustra recomendava o entendimento dos elementos terrestres e a existência de um Deus. E três regras para viver bem: bons pensamentos, boas palavras, bons feitos. Também defendia a crença na natureza purificadora do fogo, que é pensamento fundamental de sua fé e simboliza o Todo Poderoso. A palavra persa para fogo é “azer”. Assim, desde a antiguidade, a abundância de gás, que provocava explosões em suas montanhas, levou o Azerbaijão a ser conhecido como o centro do Zoroastrismo.

Cabe assinalar, a propósito da disposição histórica daquela parte do mundo à convivência pacífica, que não seria correto, portanto, afirmar que estaria ela condenada a turbulência permanente, por sua multiculturalidade, multirreligiosidade, multietnicidade e multiquase-tudo. Até o inicio do “Grande Jogo”, disputado pelos imperialismos extrarregionais russo e britânico, no século XIX, havia dinâmica regional própria capaz de recuperar, de forma cíclica, a estabilidade política, enquanto era palco de história rica e antiga, marcada por cenário de batalhas há mais de um milênio.

Verifica-se, então, que o término da Guerra-Fria acenava com o fim da bipolaridade mundial, enquanto a globalização surgiria como remédio para todos os males da divisão do mundo em partes conflitantes. Em suma, análises geopolíticas perderiam seu valor, na medida em que o planeta tenderia a ser menos

dividido cartograficamente e mais interligado por valores em comum.

O ressurgimento de novas geometrias de poder ocorreu, contudo, sem muita demora com o retorno de criaturas regionais, como as centradas nos chamados “hinterlands”, enquanto largas fatias de nações, adormecidas durante a bipolaridade mundial, soltaram-se, tornaram-se países independentes, pediram

passagem e encontram-se à deriva e na espera de configurações inovadoras que voltem a ordená-las.

Assim, no caso do Azerbaijão, que tivera breve vida como país independente, entre 1918 e 1920, ao emergir da União Soviética, após 71 anos de imposição de um sistema planificado a partir de Moscou, não se tratou de inserir-se, na fase conhecida como “pós-soviética”, em cenário internacional pronto a acolhê-lo, com tolerância, diante da carga de mazelas herdadas daquelas sete décadas de dominação socialista.

Pelo contrário, o continente europeu passou a viver, desde então, com novas ameaças convencionais e não-convencionais. Nesse sentido, segundo se observava em Baku, vigora a convicção de que o bloco euro-atlântico – em substituição ao “Ocidente” – constitui o fulcro – o “hinterland” – em cujo redor se concentram perigos e tensões, provocadas por atores políticos que, à sua volta, insistem em manter acesos os seus próprios projetos de afirmação nacional.

Em suma, entre desafios não-convencionais, estariam o terrorismo, o acesso de imigrantes e a proliferação de armas de destruição em massa. No elenco dos desafios mais “clássicos”, situam-se os que afetam a segurança dos Estados, nos termos explicitados, desde a Paz de Westphalia.

Na prática, os euro-atlânticos parecem misturar estes medos todos, enquanto procuram manter à distância, áreas que – para eles, conforme descrito acima – não tenham atingido o mesmo patamar de governança. Entre os repudiados, encontram-se os países emancipados da URSS, ao Sul do Caúcaso.

Cabe lembrar, no que diz respeito ao Azerbaijão, causas dos descompassos ora apresentados por este país que deseja ser acolhido pela Europa Ocidental, como parceiro. Segundo a visão de Baku, tais razões podem ser encontradas no fato de que, quando os soviéticos invadiram o país – após seu curto período de vida independente, entre 1918 e 1920 – encontraram um “aparelho de estado” em transição. Conviviam, então, uma estrutura de poder “medieval”, caracterizada por alianças entre tribos e povos nômades, e uma sociedade em busca de nova forma de governança que comportasse as demandas de um capitalismo emergente,em virtude da indústria de exploração petrolífera.

Os conquistadores, vindos da URSS, interromperam este processo de ajuste social e, sobre esquemas patriarcais de governança, agregaram relações políticas socialistas. Assim, se impuseram sobre o país, até 1991.

Com a emergência do Azerbaijão, naquele ano, seus novos dirigentes defrontaram-se, em sua “transição pós-comunista”, com o desafio de superar estas duas camadas de poder: os esquemas patriarcais de governança e as relações políticas socialistas.

A receita então vigente para países recém-emancipados da União Soviética, de acordo com os registros disponíveis aqui, seria o “choque capitalista”. Isto é, havia a certeza de que reformas, com base no estabelecimento de uma economia de mercado, criariam sua própria dinâmica de renovação política. No Azerbaijão, isso não aconteceu, pois a inércia herdada, resultante da mistura de formas patriarcais e socialistas de pensar, levou a completo e imediato caos político, logo após a independência, agravado pela guerra contra a Armênia, por disputa territorial.

Em suma, ao instalar-se no Governo, Haydar Aliyev, de acordo com a propaganda oficial, buscou “moldar o sistema político segundo as estruturas tradicionais”. Estas incluiriam alto grau de poder para a “autoridade central”, que se cercaria de patriarcas “iluminados por valores democráticos, a serem instalados.

Tratar-se-ía, portanto, de processo de outorga de direitos políticos e benefícios sociais, na medida em que os cofres do Governo fossem recebendo dividendos da exportação de recursos energéticos, a partir de 2006, como início do funcionamento de dutos para a venda de petróleo e gás ao exterior.

Cabe recordar que, na década de 1960, quando se tornaram independentes a maioria das ex-colônias européias, na Ásia e África, havia um mundo bipolarizado com escolha de sistemas de governança mais simples e bem definidos:o socialista ou o capitalista.

Era, então, possível a um país recém-independente escolher, como modelo, um ou outro. Como consequência, um poderoso aliado– fossem os EUA ou a URSS – e grupo significativo de simpatizantes era imediatamente adquirido.

Quando emergiram da União Soviética, no entanto, as novas repúblicas tiveram que inserir-se, a partir de 1991, em emaranhado de “geometrias político econômicas variáveis”, que não lhes garantia aliados automáticos. Além disso, com a globalização já em vigor, receberam prontas cobranças sobre como adotar modernas legislações para formas de governança que respeitassem direitos humanos, meio ambiente, propriedades industriais e intelectuais e outras maneiras de comportamento internacional aceitável. Cabe reiterar, no entanto, que se trata de área situada no percurso da antiga Rota das Sedas. Apesar de conter, no nome, a ideia de intercâmbio comercial, as principais trocas foram de caráter cultural, sobrepondo diferentes religiões, hábitos e costumes.

Verifica-se, a propósito, que, entre os principais problemas atuais dos estados emancipados da URSS, estão os que dizem respeito à recuperação de suas identidades nacionais e reconstrução de mecanismos institucionais. Daí, após a análise de cada cenário alternativo provável, serão, em seguida, feitas considerações sobre o contexto cultural em que a hipótese em estudo se situa.

Cenários Alternativos Futuros

No Azerbaijão, ouve-se, com frequência, a pergunta sobre se seus nacionais – os azeris – são turcos-iranianos ou iranianos-turcos. A questão não é apenas acadêmica, pois, este país, como os que se emanciparam da União Soviética, a partir da década de 1990, enfrentam, entre outros, os problemas do estabelecimento de identidades nacionais viáveis e da reconstrução de suas instituições culturais e educacionais.

Verifca-se, então, a possibilidade de se consolidarem três cenários alternativos futuros. O primeiro é o perseguido atualmente, marcado pela opção azeri por uma parceria estratégica com os turcos. O segundo implicaria a opção iraniano-turca. O terceiro seria um “cenário russo” – com ou sem as implicações populares do termo.

As relações da Turquia com o Azerbaijão têm sido prioritárias para Baku, desde a independência em 1991. A partir da chegada ao poder da família Aliyev, quando Heydar Aliyev assumiu a Presidência, em 1993, o país tem considerado os de idioma turco, na Europa e Ásia, como irmãos por origem étnica e língua comum. O atual Presidente Ilham Aliyev manteve a mesma política de seu falecido pai e, no momento, há mais de 130 acordos firmados entre Ancara e Baku, garantindo forte moldura contratual à cooperação e amizade entre os dois Estados.

Tais demonstrações de amizade azeri não se devem, apenas, a afinidades étnicas e culturais ou facilidades mercantilistas. Tratou-se de opção estratégica de Baku, no processo de consolidação de sua independência, buscando cortar os vínculos excessivos com a antiga metrópole russa, enquanto não se precipitava – no estilo da Georgia – em alinhamento com a OTAN, temendo a consequente reação antagônica de Moscou. Em contrapartida, o Azerbaijão acenava à Turquia com um aumento de seu perfil de importância para a Europa Ocidental, na medida em que seu território serviria de trânsito para dutos, de transporte de petróleo – já em operação – e futuramente de gás, contornando a Rússia.

Sabe-se, no entanto, que o Grande Jogo atual, em disputa por recursos energéticos desta área, dependerá muito mais dos interesses e pressões de potências extrarregionais, do que dos acertos entre Azerbaijão e Turquia. Para Baku, no entanto, o que está em risco é o perfil de sua inserção internacional independente,optando por vínculos econômicos com a Europa Ocidental. As relações com a Turquia até o momento, preferenciais, caso o deixem de ser, colocaria este país diante de duas outras opções, com vínculos bem mais complicados: com o Irã ou com a Rússia.

O Cenário de Influência Iraniana

Sempre de acordo com a percepção azeri, recentemente, a Turquia teria cessado de corresponder, no mesmo patamar anterior, a expectativas do Azerbaijão. Isto porque, Ancara procuraria, agora, por um lado, supervalorizar sua importância como trânsito para o transporte de recursos energéticos, que Baku

afirma depender de decisões locais, como fornecedor de petróleo e gás. Por outro, os azeris reclamam de concessões turcas aos armênios, sem a devida defesa de seus interesses na questão de Nagorno Karabakh.

Nessa perspectiva, pode ser questionado cenário admitido como provável, que manteria a opção azeri por sua inserção internacional como “turcos-iranianos”, através da gradativa aproximação da Europa Ocidental, com a intermediação da “amizade turca eterna”. Pergunta-se, então, quais seriam os cenários

alternativos para que o Azerbaijão permaneça independente, diante de novas condicionantes externas que poderiam comprometer a proposta seguida, a partir de 1993, de “caminhar em direção à Europa, enquanto mantém o olhar para a Ásia”.

É o dilema, já mencionado, entre ser turco-iraniano ou iraniano-turco.

No início do artigo, já foi mencionado que a nação azeri encontra-se, hoje,dividida em duas partes. Os cerca de oito milhões que ocupam o território do país independente, a partir de 1991. E os cerca de 20 milhões, ao Sul, que habitam na parte meridional iraniana. Essa divisão ocorreu em 1828, a partir de tratado entre os Imperadores persa e russo. Cabe reiterar que os que permaneceram no Norte passaram, então, a ser súditos do Tsar. O cenário alternativo, com ênfase no tal perfil “iraniano-turco”, não parece aqui excessivamente “bombástico”. Segundo literatura disponível, Teerã consideraria provável o retorno futuro de Baku a suas origens persas – “Azer”, como se sabe, significa “fogo”, na língua falada no Irã. Daí, Azerbaijão ser a “Terra do Fogo”, devido às explosões de gás em suas montanhas, desde tempos remotos.

A cena de partida dessa evolução já teria acontecido – segundo tal ponto-de-vista iraniano – com a emancipação do Azerbaijão do abraço soviético, que “não corresponderia aos anseios da nação azeri”. A opção inicial pela vertente cultural “turco-iraniana” seria devido à condicionante de “choque entre polos de poder”, que ainda vigoram no continente europeu, entre Moscou e capitais ocidentais.

Gradativamente, haveria evolução para um aconchego mais expressivo, com base em identidades nacionais azeris (dois terços dos quais, como já mencionado, vivem no Irã) e afinidades religiosas – shiitas.

Existe, também, dimensão econômica de forte peso, que permitiria a chamada “ligação vertical”, facilitando meios para o transporte de energia entre a Rússia e o Irã, através do território do Azerbaijão. Conseguir-se-ía, assim, evitar que a Europa conseguisse recursos energéticos do Cáucaso, sem a intermediação russa ou fontes iranianas.

O Cenário “Ruço”

Com o término do Império Russo, formou-se, em 1918, a República Democrática do Azerbaijão. Fortalecida a União Soviética, o território azeri foi reintegrado por Moscou, dois anos após. Com a extinção da URSS, emergiu a República do Azerbaijão, em 1991.

Receia-se, em Baku – conhecida como a “cidade dos ventos”- que prevaleça, nos tempos atuais, dinâmica regional cíclica, determinado por fenômenos da natureza que provocariam maiores ou menores ventanias.

Isto porque, com o recente ressurgimento do nacionalismo na Rússia, voltam a soprar aqui temores vindos da fronteira Norte deste país. Segundo entendimento local, é objetivo permanente russo a ocupação do Cáucaso. Enquanto, na vizinha Georgia, isto poderia acontecer militarmente, no Azerbaijão, especula-se a respeito da determinação de Moscou de manter a hegemonia econômica sobre este país.

Na sequência do exercício de reflexão, sobre cenários futuros alternativos para a inserção internacional do Azerbaijão, respectivamente chamados de turcoiraniano e iraniano-turco, coloca-se, então, uma terceira hipótese: o retorno da dominação russa. As relações entre o Azerbaijão e a Rússia, no entanto, devem ser entendidas no contexto da história compartilhada no Cáucaso.

Nesse sentido, ressoam ainda, na região, dizeres atribuídos ao lendário General Alexei Yermolov, que desencadeou guerra brutal de conquista do Norte do Cáucaso, no início do século XIX: “Desejo que o terror de meu nome seja melhor guardião de nossas fronteiras do que uma cadeia de fortalezas, e que minha palavra seja para os nativos uma lei mais inevitável do que a morte”.

O referido militar russo é ainda odiado pelos “nativos”, em ambos os lados do Cáucaso, por sua brutalidade e ações genocidas. Durante a fase soviética, sua estátua, na Chechenya foi seguidamente destruída por descendentes de suas vítimas. Em outubro de 2008, segundo a edição de 29 de novembro daquele ano da revista “The Economist”, novo monumento gigantesco em honra de Yermolov foi recolocado em pedestal, na região russa de Stavropol, onde seria acordada fronteira étnica entre a Rússia e as cinco repúblicas muçulmanas ao Sul do país.

As ações bélicas de Moscou, contra a Georgia, em 2008, reacenderam preocupações caucasianas quanto a novas agressões da Rússia a esta região.

No momento atual, tal preocupação russa teria sido agravada, como resultado da opção azeri por um cenário de parceria com a Turquia, para a instalação de dutos, transportando petróleo e gás do Azerbaijão para a Europa Ocidental,contornando o território da Rússia, através da Gerogia, para profundo desagrado de Moscou. A reconquista do território georgiano livraria a Rússia deste incômodo, enquanto, também, tolheria qualquer ambição de Ancara de reviver o chamado “mundo turco”, que incluiria os povos desta origem, residentes no Azerbaijão e Ásia Central.

Em momento de redefinição de sua inserção internacional, no começo da década de 1990, os novos dirigentes em Moscou, não abandonaram, facilmente, o hábito de tratarem os ex-integrantes da União

Soviética, como vassalos seus. Para os azeris, conforme mencionado acima, houve pronta opção por parceria estratégica com a Turquia. Buscou-se, assim, consolidar a independência, tentando cortar os vínculos excessivos com a antiga metrópole russa, enquanto não se precipitava – no estilo da Georgia – em alinhamento com a OTAN, temendo a consequente reação antagônica de Moscou.

Com certa habilidade, Baku conseguiu estabelecer prudente distância de dependência do Norte de suas fronteiras, até que, em 2006, foi obtida a autossuficiência energética e tiveram início suas exportações próprias de petróleo, via Georgia e Turquia, para a Europa Ocidental. Hoje, o Azerbaijão passou de importador a exportador de gás para a Rússia.

Enquanto exerci minhas funções como Embaixador em Baku, entre 2009 e 2012,  portanto, analisava que haveria duas hipóteses de evolução das relações russo-azeri. A primeira seria um cenário róseo, que contemplaria a preservação da parceria estratégica ora estabelecida com a Turquia, de forma que dutos de petróleo e gás possam transportar tais recursos deste país à Europa Ocidental, evitando o terrítorio da Rússia. Paralelamente, nesse quadro auspicioso, seria consolidado, também, o “corredor Norte-Sul”, que permitiria o transporte das mesmas fontes de energia, do Irã e Golfo Pérsico, para a Rússia, que as encaminharia ao ocidente europeu.

Há, contudo, o cenário “ruçopardo claro; pardacento”, é difícil evitar a nossa expressão popular do termo – que teria sido antecipado pelo conflito na vizinha Georgia, em 2008.

Prevaleceria, nesse caso, a visão de Tbilisi, no sentido de que Moscou simplemente não admitiria recuo de seu projeto nacional de ocupação do Cáucaso. Nesta hipótese, a Rússia buscaria antecipar-se ao ingresso do Azerbaijão na OTAN, e encerraria qualquer possibilidade de acesso de gás dessa área, à Europa, sem o trânsito por seu território.

Os que receiam evolução nesse sentido acreditam que Moscou teria meios para manipular as divergências entre Baku e Ierevan, de forma a provocar novo conflito armado azeri-armênio, que viria a possibilitar, sob o pretexto de pacificar “os nativos”, intervenção e ocupação russa.

Conclusão

Na introdução deste artigo antecipou-se a questão sobre a possibilidade de que exista um cenário futuro favorável para a inserção internacional do Azerbaijão, que o recoloque na posição privilegiada desfrutada, por exemplo, na época da Rota das Sedas, quando a Europa dependia de seu território para o comércio com a Ásia. Logo após a emancipação da União Soviética, conforme foi mencionado, o país teve, como preocupação inicial, a consolidação de sua própria sobrevivência, como estado soberano.

Em seguida, defrontou-se com a possibilidade de optar por três cenários alternativos futuros. O primeiro, que vem sendo perseguido atualmente, é marcado pela opção azeri por uma parceria estratégica com os turcos. O segundo implicaria a opção iraniana. O terceiro seria um retorno à esfera de influência russa.

Os temas maiores para a inserção internacional do Azerbaijão, no momento, transcendem a sua localização geográfica ao Sul do Cáucaso e ocorrem em patamares superiores. Dizem respeito à importância estratégica de seus recursos energéticos. No século XIX, as nações dessa região eram vítimas ou protagonistas de disputas por territórios e mercados, que se convencionou chamar “The Great Game”.

Com o término da Guerra Fria, a vizinhança do Cáspio ressurge como espaço a ser cobiçado em novo “Grande Jogo”, em virtude agora, principalmente, de suas reservas de petróleo e gás, por Estados Unidos, Europa Ocidental e Rússia, além de potências menores. Hoje, no entanto, o Azerbaijão e seus vizinhos são influenciados por forças mais abrangentes de um mercado globalizado não apenas de energia, mas também de ideias, instituições e tendências sócioeconômicas.Cabe reiterar, a propósito, que se trata de área situada no percurso da antiga Rota das Sedas. Apesar de conter, no nome, a ideia de intercâmbio comercial, as principais trocas foram de caráter cultural, sobrepondo diferentes religiões, hábitos e costumes. Verifica-se que, entre os principais problemas atuais dos estados emancipados da URSS, estão os que dizem respeito à recuperação de suas identidades nacionais e reconstrução de mecanismos institucionais. Daí, após a análise de cada cenário alternativo provável, foram feitas considerações sobre ocontexto cultural em que cada hipótese se situa.

Conclui-se com a afirmação de que haverá “seda” em cenário futuro que seja favorável ao Azerbaijão – e demais países do Cáucaso – na medida em que lhes seja permitido, por potências regionais e situadas fora dessa área, manter sua identidade cultural própria e soberania sobre seus recursos naturais.

“Inchalá”, como se diz em Baku.

Sobre o autor

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata, Embaixador do Brasil em Minsk, Belarus, a partir de 2015. Foi  Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul (ERESUL), entre 2012 e 2014,  Embaixador do Brasil em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012, e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009. Serviu, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África,  nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul.  As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores.

​​Como citar este artigo

Paulo Antônio Pereira Pinto. "Azerbaijão – A Esquina do Mundo e Seus Três Caminhos Alternativos". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 23/09/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?article=azerbaijao-a-esquina-do-mundo-e-seus-tres-caminhos-alternativos-por-paulo-antonio-pereira-pinto>.
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