As Eleições 2008 nos EUA: Das “Primeiras” Primárias à Super Terça, por Cristina Soreanu Pecequilo

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p align=”justify”>Iniciado em Novembro de 2006 quando George W. Bush perdeu as eleições de meio de mandato para os democratas, que recuperaram depois de mais de uma década o controle do Legislativo, Câmara e Senado, o ciclo eleitoral de 2008 entra, neste início de mês de Janeiro, em seu momento decisivo. Tal momento é caracterizado pelo começo das eleições primárias nos estados norte-americanos que culminará, em Agosto e Setembro nas respectivas convenções nacionais dos partidos democrata e republicano que, por sua vez, formalizarão oficialmente o nome dos candidatos à presidência. Todavia, muito antes disso, nestas semanas seguintes de Janeiro, até chegar à Super Terça em 5 de Fevereiro, quando a maioria dos estados relevantes já terá realizado suas prévias internas, o desenho do quadro eleitoral norte-americano poderá estar melhor definido
Particulares ao sistema norte-americano as eleições primárias são um reflexo da complexidade e arcaísmo do processo eleitoral implementado no século XVIII que permanece sem significativas alterações até o XXI. Realizadas em cada um dos estados da federação, estas eleições prévias foram originalmente idealizadas como parte dos mecanismos de “filtros” e “seleção dos melhores” que previam os formuladores da Constituição. Neste nível de disputa, os embates seriam intrapartidários, seguindo-se as convenções partidárias nacionais para a confirmação destes nomes, passando-se a posterior confrontação entre os partidos e seus respectivos candidatos que, adicionalmente, estariam submetidos, pós-votação popular, ao Colégio Eleitoral. Quatro são os embates: nas primárias individuais, na convenção nacional, na eleição popular e no Colégio Eleitoral.
Naturalmente longo, este processo tem apresentado fissuras nos últimos anos, sendo o exemplo mais patente a eleição de 2000 quando George W. Bush perdeu no voto popular para Gore, mas elegeu-se no Colégio Eleitoral. Contudo, as primárias também tem sido objeto de críticas há várias décadas, antecipando-se à crise de 2000, devido ao elevado desinteresse e cansaço que o eleitorado demonstra frente a estas disputas. Paradoxalmente, este desinteresse relativo é acompanhado pela intensificação dos gastos de campanha nestas mesmas primárias e da divulgação excessiva pela mídia dos processos, o que gera distorções referentes à popularidade dos candidatos e sua capacidade de mobilização das bases eleitorais em nível nacional e entre independentes.
Desta forma, o que ocorre nas primárias (e mesmo nas eleições nacionais) nem sempre representa o que são os Estados Unidos e as prioridades da maioria da população, o que produz dois fenômenos sociais: a não-participação efetiva nas eleições em especial as de meio de mandato (nestas eleições o comparecimento oscila entre 35-45% dos eleitores registrados e nas presidenciais entre 45-50%, sendo que apenas 50% dos norte-americanos aptos a votar registram-se como eleitores), e quando desta participação, a sua definição como eleitor independente, sem vínculo com democratas ou republicanos (na última década a porcentagem de eleitores que se declara como independente passou de 4% a 22% dos eleitores registrados). Porém, independente destas tendências, das críticas ao sistema, 2008 seguirá o mesmo caminho das eleições que a antecederam, podendo-se estabelecer algumas considerações prévias sobre estas “primeiras” primárias de Janeiro até Fevereiro.
Como mencionado, o ciclo 2008 vem sendo marcado por uma campanha precoce que se revela no igualmente citado cansaço do eleitorado e em pesquisas de opinião conflitantes e permeadas por oscilações nas preferências dos eleitores. Estas oscilações produzem uma maioria de empates técnicos nas pesquisas de opinião seja no nível intrapartidário como no nacional, com a alternância de posições e relevância dos candidatos em seus respectivos partidos, opondo os favoritos (front runners) e os que “correm por fora” (outsiders ou underdogs).
Do lado democrata, Hillary Clinton, apesar de ainda favorita nas pesquisas, perdeu terreno significativo para Barack Obama à medida que se intensificou a campanha das primárias e por um erro tático da pré-candidata. Tal erro revelou-se em uma relativização dos esforços de Hillary em dialogar com seus oponentes democratas, preferindo confrontar o governo Bush, o que permitiu o crescimento de Obama e, paralelamente, de John Edwards, cujo nome encontrava-se praticamente descartado. Edwards, a despeito da pouca arrecadação e capacidade de campanha, ocupou espaços deixados pela polarização Obama-Clinton, em especial entre os eleitores de baixa renda e os que desejam mudança (que, ao lado da esperança, é igualmente tema de campanha de Obama, enquanto Hillary faz uso de slogans que unem experiência-mudança).
Para os republicanos, as perspectivas são até mais complexas, com quase cinco candidatos possuindo possibilidades de indicação: dois possíveis favoritos, Rudy Giuliani, que perdeu espaço nos estados pequenos e com queda na arrecadação de campanha, Mitt Romney, com bom suporte orçamentário e resultados positivos nas pesquisas internas, e três outsiders, McCain, cuja candidatura parecia ter desaparecido até Dezembro, mas que agora se recuperou, Fred Thompson, que ainda é bem visto por parte dos conservadores, mas cuja campanha não decolou, e a “novidade” Mike Huckabee, que nos últimos três meses partiu para uma ofensiva contra Giuliani e Romney, crescendo exponencialmente nas pesquisas e na preferência dos eleitores, mas cujo impacto não se converteu em contribuições adicionais à campanha.
Como Edwards, Huckabee aproveitou-se da polarização Giuliani-Romney, colocando-se como um candidato que representaria a mudança e o real conservadorismo. Giuliani, neste sentido, continua apresentando um sério problema nas bases do partido: sua agenda percebida como liberal em temas como aborto e direitos civis, enquanto Romney (mórmon e ex-governador) e Huckabee (ex-pastor, ex-governador e criacionista) atraem este perfil mais religioso e tradicionalista. Igualmente, ambos procuram mostrar menos tolerância com imigrantes ilegais, postura não compartilhada por Giuliani e McCain, mas que pode custar-lhes votos em estados com um eleitorado hispânico significativo como Flórida e Novo México.
Ainda é duvidoso se estes outsiders Edwards, McCain, Thompson e Huckabee poderão manter uma campanha nacional intra ou entre partidária prolongada com os baixos recursos que possuem, mas não é possível igualmente descartar seus nomes nem como possíveis indicações à medida que boas performances em Janeiro/Fevereiro podem torná-los mais interessantes ao eleitorado e doadores de campanha ou como aliados que podem transferir votos importantes ao candidato escolhido pelos partidos. No caso, esta transferência de votos poderia ocorrer tanto no âmbito das convenções nacionais como na eleições presidencial, o que reforçaria seu peso político.
Também voltou à pauta a candidatura independente de Michael Bloomberg, ex-republicano e prefeito de Nova Iorque, que apareceria como um elemento de conciliação em meio ao profundo bipartidarismo que tomou conta da política norte-americana. Bloomberg, contudo, nega a candidatura, o que poderia indicar uma espera dos resultados das primárias republicanas de Janeiro/Fevereiro para o lançamento de seu nome em Março caso nenhum candidato se destaque consideravelmente. Março, especificamente é percebido como prazo limite para uma candidatura viável independente devido à burocracia envolvida no processo de conseguir angariar apoio em todos os estados, o que leva à oficialização da candidatura na cédula de cada um destes estados individuais.
Outro nome que não pode ser descartado é o de George W. Bush. A despeito da derrota em 2006 e do encolhimento natural da presidência, que se consubstanciou na perda de aliados importantes como Donald Rumsfeld, Lewis Libby, Karl Rove e Alberto Gonzalez, Bush não perdeu plenamente sua margem de manobra, administrando suas tensões com o Legislativo democrata. Na realidade, este domínio do Legislativo tem se revelado um real problema para os democratas: a baixa popularidade do Congresso rivaliza com a de Bush para ver qual é a pior, comprovando-se que a vitória em 2006 deveu-se mais a erros táticos republicanos do que a uma agenda alternativa do partido.
Esta ausência de agenda tem se revelado dos dois lados da campanha democrata e republicano e na ambiguidade em temas relativos ao Iraque, com o nível da retórica se mantendo controlado. Afinal, aparentemente o governo estava certo em sua estratégia de aumentar tropas em 2006 devido à diminuição relativa do nível de violência e uma razoável aceleração da transição para a “iraquização” da segurança local.
Da mesma forma, o trinômio medo-sucesso-terror ainda funciona a favor de Bush, mantendo-se a polarização bipartidária e os constrangimentos estruturais gerados pelos neoconservadores: tensionamento com aliados internacionais, perda de relevância e representatividade das organizações internacionais governamentais, instabilidade no Oriente Médio no campo externo e, no interno, desaceleração econômica, crise orçamentária e imobiliária, empobrecimento, inflação, desemprego e baixos níveis de confiança do consumidor. Mais ainda, ao não ter um candidato próprio no partido republicano (o Vice-Presidente Dick Cheney e a Secretária de Estado Condolleza Rice eram os nomes favoritos mas que sucumbiram ao esvaziamento neocon), a presidência funciona como um elemento desagregador destas mesmas forças, o que igualmente dificulta a plataforma democrata que não consegue identificar o “seu outro”. E, como indicado, estes vácuos de pensamento e crises levam ao cenário eleitoral bastante povoado de nomes e promessas de ambos os lados, mas que pouco traz de novo para um eleitorado insatisfeito.
Decisivos, estes dois primeiros meses do ano começarão a definir quais serão as opções deste eleitorado, com um grande peso do passado recente e do presente na apresentação destas escolhas. Seja qual for o eleito, ao tomar posse em 2009, mais do que construir o futuro, este novo (a) presidente deverá corrigir os rumos da última década, e, para isso, tenderá a olhar mais para dentro do que para fora. Talvez o mundo não mais seja confrontado por um ataque preventivo de Washington ou uma nova Doutrina Bush, mas também não se deverá esperar uma hegemonia benigna e cooperativa como a do imediato 1945. Da liderança da superpotência restará, possivelmente, um internacionalismo moderado, que equilibre internacionalismo e isolacionismo, uni e multipolaridade, buscando o pós do pós-Guerra Fria e uma “nova América” dentro de casa.

Cristina Soreanu Pecequilo é Professora de Relações Internacionais Universidade Estadual Paulista – UNESP (Campus Marília), e Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (crispece@gmail.com).

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