O fenômeno da internacionalização empresarial trata-se de uma tendência adotada em distintas partes do globo sem uma trajetória predefinida que é advinda da formação de fluxos de exportação e de investimento externo no exterior por meio de redes de licenciamento e de empresas subsidiárias, de alianças estratégicas no exterior ou por processos de fusão e aquisição.
São registradas na América do Sul duas grandes tendências internacionais que têm como ponto focal as empresas, seja partindo delas a formação de redes corporativas de ação internacional paradiplomática, seja chegando até elas processos internacionais paradiplomáticos de fusões e aquisições.
Em primeiro lugar, grandes grupos transnacionais juntamente com fundos de investimento são protagonistas de uma série de transações no setor empresarial sul-americano sem precedentes, que tem como repercussão um processo natural de concentração nas mãos de um pequeno grupo de empresas advindo de fusões e aquisições à época das ondas de privatização na década de 1990, o que torna a propriedade privada na América do Sul extremamente internacionalizada.
Registra-se neste contexto de internacionalização da propriedade privada um processo de financeirização da riqueza, onde os padrões de investimento definidos pelas economias de escala estão assentados em um acentuado fluxo de capitais direcionado ao mercado de empresas nacionais por meio de diversas operações de aquisições e lançamento de ações em bolsas de valores.
O desempenho dos blocos do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e da Comunidade Andina de Nações (CAN) na captação de fluxos de IDE tem mostrado um comportamento cíclico nos países da América do Sul que se alterna em função de períodos mais e menos expressivos dos ciclos internacionais de negócios.
Embora os blocos regionais do MERCOSUL e da CAN sejam áreas de atração internacional, observa-se que os investidores estrangeiros tendem dar preferência às economias maiores como Brasil e Colômbia dentro das estratégias de regionalização transnacional na América do Sul, o que leva a um aumento na assimetria econômica já existente.
O comportamento dos fluxos de investimento intra-regionais não seria diferente no caso do MERCOSUL ou da CAN uma vez as firmas dos países menores, como Argentina e Equador, usualmente se realocam nos territórios das economias maiores, criando tensões não somente entre os Estados, mas também no interior de cada um desses países em função de guerras fiscais.
Neste quadro dinamizado pelo investimento externo direto surge uma geografia econômica da regionalização transnacional cujo efeito resulta em um processo polarização dos fluxos, com a formação de um núcleo duro de atração que tende a dinamizar os processos maleáveis de criação e fechamento dos territórios entre países vizinhos.
Este efeito de polarização dos investimentos que acontece na América do Sul tanto nos blocos do MERCOSUL quanto da CAN obedece a uma lógica própria das localidades em razão da concentração das atividades nos países maiores, gerando por fim economias de escala e direcionamento dos fluxos econômicos.
Segundo uma perspectiva normativa, o estabelecimento de uma política de formação de cadeias produtivas transfronteiriças poderia ser um significativo instrumento para dirimir parte dos problemas de polarização regional uma vez que favoreceria um ambiente de cooperação através da atuação de redes de produção transregional.
Em segundo lugar, a paradiplomacia corporativa engendrada pela ação estratégica de internacionalização de empresas sul-americanas surge como um conjunto de ações por empresas nacionais para adquirirem maior competitividade frente aos concorrentes ou como reação à abertura das economias e desregulamentação dos mercados.
Essa estratégia de internacionalização empresarial busca aproveitar das capacidades institucionais por meio da extroversão internacional a fim de potencializar ganhos de escala e escopo.
A maturação da internacionalização empresarial a partir da década de 1990 na América do Sul é oriunda de um processo sistêmico de concentração industrial engendrado tanto por privatizações quanto fusões e aquisições que aumentou o tamanho das firmas e a própria escala de produção.
Porém, existe uma heterogeneidade setorial no padrão de internacionalização empresarial na América do Sul que desempenha um papel relevante entre exportar ou investir no exterior uma vez que, normalmente, é observado que as empresas apenas exportadoras concentram-se em produtos primários e commodities, enquanto que as firmas que também investem no exterior têm maior diversificação de produtos, produtividade e tamanho maior que aquelas que apenas exportam.
Para a análise do grau de internacionalização empresarial na América do Sul registra-se que não existe escolha compensatória entre exportar e investir no exterior já que ambas as atividades são mais complementares do que propriamente substitutas, o que torna cumulativo o processo de internacionalização empresarial.
Mesmo sendo o investimento externo um elo de criação de sinergia com as exportações, observa-se na América do Sul um grau primário de internacionalização empresarial onde predomina a vertente exportadora em função de uma estrutura comercial altamente concentrada em produtos primários e commodities, que dispensa diversificação produtiva e investimentos no desenvolvimento da inovação, e em função fluxos de exportação ainda representarem uma baixa participação na receita de muitas firmas, o que demanda baixa complementaridade de investimentos no exterior.
Apesar de sua crescente autonomia, a empresa sul-americana continua dependente do ente estatal e justamente por isso, a análise do relacionamento corporativo-estatal tem relevância na definição do padrão de regionalização transnacional da diplomacia corporativa, pois as corporações necessitam acesso aos recursos contidos nas unidades territoriais ainda controladas pelos Estados.
Neste processo de regionalização transnacional, quando se analisa o peso do poder estrutural das empresas transnacionais nas economias nacionais da América do Sul, observa-se que assimetricamente os países tornam-se dependentes em maior ou menor grau do capital internacional uma vez que o porte da empresa e a mobilidade do capital são indicadores relativos que definem o grau de dependência estrutural dos países.
No caso de países pequenos, como Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai, existe uma relação de vulnerabilidade estatal em relação às empresas transnacionais, haja vista que são economias menores e com poucas alternativas frente ao grau de dependência estrutural do capital internacional.
No caso de países grandes, como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela, existe uma relação de sensibilidade positiva ou negativa advinda das estratégias de mobilidade empresarial, já que estas economias têm um maior raio de manobra produzido pelo tamanho do mercado consumidor, o que acarreta menor dependência estrutural frente às estratégias empresariais.
Estas considerações revelam que a internacionalização de empresas ou a participação de empresas multinacionais na América do Sul criam uma série de sensibilidades e vulnerabilidades entre os países que tende a se refletir por um processo paradoxal de uma concentração de fluxos geoeconômicos vis-à-vis a uma dispersão de uma identidade positiva da regionalização transnacional.
Elói Martins Senhoras é Professor do Departamento de Relações Internacionais e pesquisador do Núcleo Amazônico de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima – UFRR (eloi@dri.ufrr.br).
