A guerra civil na Síria em 2017: Rússia como fiador de uma eventual vitória?

À primeira vista, a guerra civil síria aparenta exaurir-se, à proporção que o Estado Islâmico em termos geográficos recua. Mantido o compasso, a ditadura de Bashar al-Assad confirmar-se-ia no poder, sem que isto signifique o fim da oposição a ele, mas sua contenção no curto prazo. A incógnita é o posicionamento do futuro governo dos Estados Unidos em face do novo cenário, embora se emitam sinais de tolerância à continuidade do antigo e vergastado regime.

Há quase década e meia, após a atribulada invasão do Iraque, a Síria passou a ser considerado o alvo mais factível do arrebatamento neoconservador norte-americano, ainda que a preferência fosse sem sombra de dúvida o Irã.

A justificativa para a eventual investida contra Damasco seria diferente da empregada com Bagdá: em vez da posse e produção de armas de destruição em massa, o patrocínio do terrorismo e a administração do Líbano sem autorização internacional.

Durante o frustrado processo de consolidação de gestão do Iraque pós-Saddam Hussein, os Estados Unidos poderiam ter corroído a Síria de forma econômica através de dois caminhos: o primeiro teria sido dificultar-lhe o acesso a petróleo, caso se restringisse a utilização do oleoduto iraco-sírio por onde transitava o equivalente a dezenas de milhares de barris por dia;

O segundo teria sido interromper as exportações a partir de 2004, referendado por legislação, ainda quando as consequências fossem bastante modestas, haja vista o baixo grau de interação comercial – cerca de duas centenas de milhões de dólares por ano naquela fase.

À medida que a tomada do território iraquiano erodia, Washington acostumou-se a atribuir a Damasco a responsabilidade por parte do fracasso, ao infligir a ele – e também a Teerã – o labéu de apoiador da resistência mais encarniçada.

Ao retornar-se ao final de 2016, observa-se que a ferrenha disputa nas últimas semanas entre a Síria, auxiliada pela Rússia e por voluntários iranianos e iraquianos, e o Estado Islâmico por Aleppo, outrora a maior cidade do país, tem desencadeado sofrimento desproporcional à população local, indefesa, desesperançada e fatigada diante das incessantes escaramuças.

O menosprezo aos direitos humanos em suas imediações é inegável. Ademais, a amplitude da devastação da infraestrutura é assaz desanimadora, de sorte que anos e anos de calmaria seriam imperiosos para todo ensaio de reconstrução.

Acochados entre a pesada artilharia destes combates, os civis mal conseguem circular em busca de abrigo seguro temporário, de socorro médico ou de esquivança da perseguição política ou religiosa, à guisa de vingança, dos dois lados. A tomada da histórica localidade pela oposição no primeiro semestre de 2012 parecia de modo inexorável exprimir a derrocada da família al-Assad do poder.

Hoje, sua recuperação pelos baatistas simboliza a progressiva possibilidade de reconquista de outras áreas administradas não apenas por fundamentalistas. Algumas  delas, como as de controle curdo, a dificuldade não será só militar, mas se vinculará à política por envolver as considerações geoestratégicas de turcos e iranianos.

Nos Estados Unidos, a vitória dos republicanos na eleição presidencial pode ocasionar a alteração da postura do país concernente à confrontação síria de meia década, uma vez que a atenção maior seria direcionada à contenção do extremismo religioso, não na defenestração do longevo ditador Bashar al-Assad, como acima mencionado.

Sob nova administração a datar de janeiro de 2017, a Casa Branca teria condições de atribuir à gestão predecessora sem embaraço algum o ônus de uma política considerada equivocada na região médio-oriental, dada a ausência de estabilidade em toda aquela área desde a emergência da Primavera Árabe em 2011.

No caso sírio, bastaria citar a expansão geográfica momentânea, de agremiações fundamentalistas e, de forma simultânea, a sobrevivência do governo baatista, apesar do auxílio iraniano e, de maneira mais recente, do russo. Entre um, novo e difuso, e outro, antigo e restrito a um país, a escolha poderia recair no regime ditatorial, mesmo a contragosto.

Com o propósito de prevenir baixas, em decorrência do posterior impacto negativo aos olhos da opinião pública, o Kremlin, ao efetuar sua participação no confronto, optou por valer-se de maciças investidas aéreas em porções de controle dos inimigos da administração baatista.

 Por um lado, Moscou preserva-se internamente; por outro, pululam, todavia, acusações de que os ataques atingem de forma indistinta civis, até os alojados em hospitais, por exemplo – em menos de um ano, teriam sido quase dez mil e quinhentas vítimas, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos – http://www.syriahr.com/en/?p=55152.

O assassínio do embaixador Andrei Karlov por um policial turco na abertura de uma exposição em museu de Ancara não interromperá o posicionamento do Kremlin sobre o tópico médio oriental, embora ocasione a natural necessidade de reconfigurar a segurança de seus servidores e por que não a de seus próprios cidadãos em deslocamentos ao Oriente Médio.

Não obstante a menção a Aleppo, o jovem galfarro poderia possivelmente pertencer a uma organização adversária à gestão mão de ferro do presidente Recep Erdogan, acossada em julho último por um golpe de Estado, reprimido de modo severo.

Um dos desdobramentos da tentativa de ruptura seria a inesperada aproximação com Moscou. O relacionamento diplomático entre ambos havia-se desgastado em decorrência da derrubada de um jato russo em novembro de 2015.

Antes de o atual ano encerrar-se, Rússia, Irã e Turquia encetam nova rodada de negociações com a finalidade de se chegar a um consenso, materializado, por exemplo, em um cessar-fogo momentâneo, ainda que sem a presença dos Estados Unidos e a da Síria na mesa o eventual entendimento da trinca será envilecido.

Na visão do governo turco, a interrupção do conflito civil à margem de sua fronteira significa a consequente redução do numeroso fluxo de refugiados, para o qual lhe faltam recursos para atuar de maneira adequada. De todo modo, 2017 será o período no qual a paciência das grandes potências determinará para onde o pêndulo de poder na Síria irá deslocar-se.

Sobre o autor

Virgilio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@gmail.com).

Como citar este artigo

Virgílio Arraes. "A guerra civil na Síria em 2017: Rússia como fiador de uma eventual vitória?". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 17/07/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?article=a-guerra-civil-na-siria-em-2017-russia-como-fiador-de-uma-eventual-vitoria>.

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