Recrutas ou profissionais? Os dilemas das forças armadas dos EUA na virada do século XXI, por João Fábio Bertonha

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p align=”justify”>Recentes notícias vinculadas pela mídia escrita e na Internet indicam as crescentes dificuldades das forças armadas dos Estados Unidos para recrutar novos membros. Como efeito desta dificuldade, o Exército aumentou, desde 2006, a idade máxima para alistamento para 40 anos, rebaixaram-se os padrões educacionais e médicos e considera-se, atualmente, a possibilidade de recrutar mais estrangeiros para as fileiras, os quais receberiam cidadania americana por seus serviços. Uma técnica que, curiosamente, já era adotada pelo Império romano milênios atrás (o qual concedia a cidadania romana aos seus soldados auxiliares depois de vinte anos de serviço), e que indica as dificuldades de recrutamento atuais nos EUA.
Antes de mais nada, convém um esclarecimento para os menos familiarizados com o tópico. Ao contrário do acontecido, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial e nas guerras da Coréia e do Vietnã, quando, teoricamente (pois sempre era possível conseguir uma isenção devido a relações familiares ou de poder), todo homem em idade militar podia ser convocado para a frente de batalha, todos os soldados americanos são, hoje, profissionais.
Com efeito, desde o final da Guerra do Vietnã (e, em grande medida, por efeito dela) nos anos 70, aboliu-se o serviço militar obrigatório nos Estados Unidos em favor de um feito por voluntários que se alistam por tempo determinado e são pagos por isto. Diferentemente dos homens que pertencem a empresas de segurança como a Blackwater, não são mercenários no sentido estrito do termo, pois lutam por seu país e sob a bandeira de instituições oficiais. Mas são profissionais e voluntários, bem diferentes daqueles jovens de 18 anos que eram convocados para lutar nas praias da Normandia ou nas selvas do Sudeste asiático.
Claro que o conceito de voluntariado implica em uma liberdade de escolha que muitas vezes não existe. Há estímulos indiretos fortíssimos que ajudam a conduzir até mesmo pessoas pouco inclinadas à profissão das armas ao alistamento. Entre estes estímulos, incluem-se desde planos de saúde para si e a família, generosos prêmios em dinheiro e outras benesses, como o pagamento da Universidade depois da baixa e outros. Não espanta, assim, a forte proporção de minorias (negros, hispânicos) ou de brancos pobres entre os militares, especialmente em armas menos “glamourosas” e mais sujeitas a baixas em combate, como a infantaria.
As atuais dificuldades em manter um fluxo regular de recrutas para as forças armadas refletem, provavelmente, às baixas e problemas no Iraque, que levam muitos soldados a deixar o Exército e os fuzileiros (armas que estão pagando o grosso do preço da ocupação) e inibe outros de alistar-se. Mesmo com aumentos de soldo e vantagens e diminuição de exigências, as dificuldades para manter o fluxo de recrutas estão, como visto, aumentando, o que gera imensos problemas.
Há vozes, nos Estados Unidos, que consideram que a volta do alistamento militar obrigatório poderia ser a resposta para várias questões. Algumas pessoas entendem que a cidadania é reforçada quando os jovens tem que prestar serviço militar, ao mesmo tempo em que o governo seria inibido na sua agressividade quando filhos da elite pudessem ser mortos em ação. Idéias questionáveis, mas presentes.
A questão central relacionada à volta do alistamento militar obrigatório, contudo, é realmente a necessidade de solucionar a sobrecarga das forças armadas dos Estados Unidos e a falta de soldados, especialmente na infantaria. Atualmente, cerca de 1,5 milhão de homens pertencem a elas, com mais uns 900 mil homens da Guarda Nacional e reservistas. Parece muito, mas isso inclui unidades de apoio, treinamento, forças navais e outras que não podem ser mandadas para a linha de frente. E, durante uma ocupação prolongada como a do Iraque, os soldados enviados à frente têm que ser substituídos regularmente. Para manter sua estrutura ao redor do mundo, os 150 mil homens no Iraque, mais 20 mil no Afeganistão e outros 30 mil na fronteira coreana, os Estados Unidos estão raspando o fundo do caldeirão e isso é preocupante, pois não há reservas para outro grande conflito ou necessidade.
Este é um problema imenso e as soluções não estão ao alcance. Robotizar e informatizar as forças armadas é um plano de longo prazo e recorrer a mercenários e empresas de segurança privada, como está ocorrendo no Iraque, é caro e problemático. Oferecer ainda mais vantagens financeiras é a resposta óbvia, mas têm limites, pois o custo para manter soldados profissionais é alto. No caso dos EUA, aumentar o efetivo em dez mil homens significa US$ 1,2 bilhão de gastos adicionais por ano, mais US$ 2 bilhões em equipamentos. Mesmo para um país rico como os Estados Unidos, chegará o momento em que os fundos disponíveis se tornarão escassos.
Para setores militares, a única maneira de evitar esta falta crônica de efetivo seria a volta do recrutamento militar universal. Se incluirmos homens e mulheres, 135 milhões de americanos estão em idade militar e, todo ano, quatro milhões de pessoas atingem a idade mínima de recrutamento, ou seja, 18 anos. Bastaria que uma parte dessa população fosse compulsoriamente recrutada, com soldos simbólicos, para poder aumentar os efetivos a vontade, garantindo reservas para qualquer eventualidade, triplicando as forças no Iraque, etc.
Demográfica e financeiramente, seria assim a melhor solução. Mas, politicamente, seria completamente inviável. Qualquer governo em Washington que proclame a volta do recrutamento militar obrigatório estaria automaticamente, a não ser em caso de ameaça real e imediata ao país, desacreditado e morto politicamente. A opção, portanto, não existe a curto prazo e não espanta a tensão dos recrutadores e dos planejadores estratégicos com a infinidade de missões e a escassez dos meios humanos para realizá-las.
Na verdade, é curioso como a História dá voltas. Os soldados romanos eram profissionais, enquanto boa parte dos Exércitos medievais era de nobres. Já na Idade moderna, os soldados normalmente eram mercenários, pagos para lutar pelo rei e pela Monarquia. Sua lealdade ao rei vinha centralmente do pagamento e não de algum princípio ideológico, o que tornava difícil, aliás, exigir deles sacrifícios excessivos, como o combate até a morte no campo de batalha.
A Revolução francesa representou uma mudança radical nesse panorama. Desenvolveu-se o nacionalismo (ou seja, a idéia de que o Estado-nação é o representante de todos os cidadãos e que estes devem a sua lealdade, acima de tudo, a este) e, como derivação, os princípios da “nação em armas” e da “guerra total”. Guerra não era mais algo a ser feito por mercenários, com a população civil à parte, mas por toda a nação. Toda a sociedade passou a ser mobilizada para apoiar as atividades militares do Estado, em nível inimaginável no período anterior.
No século XIX, ficou claro que o princípio da “nação em armas” seria agora universal. O recrutamento militar passou, então, a se tornar a regra para todos os Exércitos europeus, para o que colaborava, inclusive, a idéia de que era nas Forças Armadas que se formava o cidadão. As únicas exceções foram países como a Inglaterra e os Estados Unidos, onde, por vários motivos, o recrutamento militar só foi implantado em momentos críticos (como as guerras mundiais) e, mesmo assim, com relutância.
Hoje, o sistema de recrutamento militar universal está sendo questionado na maior parte dos países de Primeiro Mundo, pois as novas tecnologias militares exigem homens com um treinamento muito mais elaborado que recrutas que passam apenas algum tempo nas fileiras podem receber. Além disso, nas modernas democracias ocidentais, se torna cada vez mais difícil exigir, dos seus cidadãos, que eles morram em combate, o que torna politicamente mais aceitável a volta dos exércitos profissionais. É isso o que ocorre hoje, por exemplo, nos Estados Unidos.
Há desvantagens em um Exército profissional, como os custos maiores, mas as vantagens também são grandes, como a maior facilidade do Estado para lidar com a opinião pública e seu maior treinamento e eficiência em campo de batalha. Não espanta, assim, que vários países europeus estejam caminhando, depois de séculos no outro sistema, para a idéia do soldado profissional e que, mesmo no Brasil, a discussão sobre este tópico esteja se esboçando.
O problema é que os soldados profissionais, por definição, nunca poderão ser tão numerosos como os fornecidos pelo alistamento compulsório. Nos momentos em que isto se torna um problema, como o atual nos EUA, a questão não pode deixar de retornar a baila. O pêndulo da História caminha, agora, na direção da força armada profissionalizada, mas a discussão sobre o recrutamento ou o voluntariado parece realmente ir e voltar nos últimos séculos, conforme a realidade política, social e estratégica mundial vai mudando. O atual debate nos Estados Unidos é apenas mais um capítulo nesta História.

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