Como é o campo de Relações Internacionais na América do Sul? – uma entrevista com os autores, por Patrícia Martuscelli

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O desenvolvimento do campo de estudo em Relações Internacionais tem acontecido em toda a América do Sul, com o aumento do número de pesquisas, cursos de Relações Internacionais, revistas especializadas na área e artigos envolvendo questões e teorias internacionais em periódicos de outros campos do conhecimento. Frente a esse assunto, Marcelo de Almeida Medeiros, Israel Barnabé, Rodrigo Albuquerque e Rafael Lima propõem-se a analisar como é o campo de Relações Internacionais na América do Sul, por meio do artigo What does the field of International Relations look like in South America?, publicado na edição 1/2016 da  Revista Brasileira de Política Internacional – RBPI.

Para responder à questão que intitula o estudo, os autores realizam uma análise de conteúdo de 7857 artigos publicados em 35 periódicos acadêmicos de 6 países da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia e Venezuela), publicados entre os anos de 2006 e 2014. Os pesquisadores buscam observar quais os principais métodos, teorias, áreas de estudos e como eles interagem entre si nos trabalhos levantados. Esses tipos de estudos são especialmente úteis para realizar um perfil da produção acadêmica em Relações Internacionais na América do Sul nos últimos anos. A esse respeito e sobre suas posições pessoais quanto ao tema, os autores concederam entrevista a Patrícia Nabuco Martuscelli, membro da equipe editorial da RBPI.

  • Em resumo, como se revela a produção acadêmica no campo de Relações Internacionais na América do Sul, a partir da análise feita pelos senhores?

Marcelo de Almeida Medeiros, Israel Barnabé, Rodrigo Albuquerque e Rafael Lima: Nossos dados indicam que a produção acadêmica em RI na América do Sul aparenta reproduzir, mimeticamente, preferências paradigmáticas norte-americanas, apesar das idiossincrasias regionais. Não conseguimos identificar nenhuma tendência genuinamente sul-americana na produção dos seis países estudados, a não ser uma preferência por métodos qualitativos e teorias positivistas, notadamente o Liberalismo e o Realismo, que foram as predominantes. O baixo volume de artigos explicitamente citando algum método (12,9%) também revela uma carência preocupante em nosso campo.

  • Em seu artigo, há uma seção que aborda como ideologia não é ciência. A partir da pesquisa realizada, quais seriam as recomendações que os senhores dariam aos pesquisadores e aos estudantes de Relações Internacionais da América Latina para que evitem confundir ideologia e ciência em seus trabalhos?

Marcelo de Almeida Medeiros, Israel Barnabé, Rodrigo Albuquerque e Rafael Lima: Weber já advertiu que juízos normativos incidem no início e no fim da empreitada científica, isto é, na decisão do que estudar e na apresentação da relevância dos achados. Assim sendo, o importante é assegurar que, na fase intermediária, a condução da pesquisa seja feita com imparcialidade, o que torna indispensável o uso do método científico. Em suma, a busca rigorosa pela neutralidade axiológica deve ser uma constante na atitude do pesquisador, mesmo consciente de que atingi-la perfeitamente é exercício muito complexo, de dificuldade extrema e, provavelmente, impossível. Não obstante sua provável impossibilidade, não deve deixar de ser perseguida, sob pena de se tornar mero panfleto ideológico. É importante notar, também, que reconhecer que ideologia impende sobre nossos juízos enquanto acadêmicos não significa o mesmo que abandonar o rigor metodológico, porquanto este é o caminho apropriado para evitar aquele. Em tempos nos quais se busca aproximar as estratégias de produção de conhecimento das ciências sociais às estratégias das ciências “duras”, reconhecer a interferência da ideologia é apenas o primeiro passo em busca de contorná-la.

  • Dentre as teorias latino-americanas de maior abrangência no campo das Relações Internacionais, destaca-se a teoria da dependência, a qual avalia as relações interestatais por meio da divisão centro-periferia. Apesar de importante, o artigo de vocês indica uma redução do número de trabalhos que utilizam essa teria. Quais os motivos para esse declínio? Qual o significado disso para o campo das Relações Internacionais na América do Sul?

Marcelo de Almeida Medeiros, Israel Barnabé, Rodrigo Albuquerque e Rafael Lima: Houve um declínio no número de trabalhos que utilizam a teoria da dependência em razão da falta de capacidade explicativa da referida teoria no que se refere aos fenômenos oriundos da globalização. A interdependência complexa provocada por uma miríade de regimes internacionais tornou, de certa forma, obsoletos os argumentos assentados na dicotomia centro vs. periferia, pedra angular da teoria da dependência.  O significado disso para o campo das Relações Internacionais na América do Sul é que ele, por um lado, perde em singularidade explicativa original, ou seja, uma matriz genuína de compreensão gestada, em grande parte, in situ, praticamente deixa de importar; por outro lado, isto também significa que o campo das RI na América do Sul se coaduna com as novas tendências interpretativas da realidade mundial de gênese europeia e/ou norte-americana.

  1. Como os senhores explicariam o maior número de trabalhos que utilizam abordagens Liberais e Realistas, predominantemente oriundas de países desenvolvidos, dentro da academia sul-americana, onde diferentes autores advogam novas abordagens advindas de conceitos e de ideias dos próprios países da região?

Marcelo de Almeida Medeiros, Israel Barnabé, Rodrigo Albuquerque e Rafael Lima: A grande recorrência do Liberalismo e Realismo no volume de artigos publicados se explica, em parte, pelo fato que a referência a essas duas abordagens é praticamente incontornável em RI, dado seu caráter fundacional. O contraponto entre ambas as correntes parece ser um expediente frequente nas revisões teóricas dos artigos: mais de 40% de suas menções são conjugadas. Não obstante, essa prevalência não é puramente uma consequência estilística, mas também decorrente da ausência de teorias gerais – como as duas mencionadas – com ampla capacidade explicativa. A exceção mais notável é o Construtivismo de vertente social, presente no nosso corpus em 12,8% dos artigos analisados. As demais abordagens e teorias partem dos limites e das lacunas encontradas nas três grandes correntes citadas, de modo que é genuinamente impraticável recorrer a autores que não são explícita ou implicitamente referenciados como filiados a alguma dessas correntes.

  • Como os senhores explicariam o aumento da preocupação dos pesquisadores sul-americanos de RI com a questão metodológica nos últimos anos? Como explicar o aumento no número dos estudos quantitativos e o que isso significa para a disciplina de Relações Internacionais na América do Sul?

Marcelo de Almeida Medeiros, Israel Barnabé, Rodrigo Albuquerque e Rafael Lima: Os dados mostram que, nestes nove anos estudados, houve de modo geral um aumento no número de artigos citando algum método. Todavia, tem sido um aumento discreto e o percentual permanece bastante baixo – o ano com mais artigos explicitando métodos, 2012, registrou apenas 69 artigos.

Um achado intrigante foi vermos em 2014, pela primeira vez, métodos quantitativos ultrapassando qualitativos. Isso pode ser ou apenas um pico temporário que recuará nos próximos anos, ou um ponto de inflexão na produção sul-americana em RI, sinalizando um afastamento das abordagens mais próximas do campo das humanidades – que caracterizaram a gênese da disciplina – e uma afinidade maior com métodos estatísticos, tal qual vem acontecendo com a ciência política. Nisto também se pode notar uma mimese da preferência estadunidense por métodos estatísticos. É possível que esse aumento seja devido à busca por maior inserção internacional das publicações na região, buscando se adaptar ao que é realizado em termos metodológicos nos principais centros de pesquisa estadunidenses.

Leia o artigo:

Medeiros, Marcelo de Almeida, Barnabé, Israel, Albuquerque, Rodrigo, & Lima, Rafael. (2016). What does the field of International Relations look like in South America?. Revista Brasileira de Política Internacional, 59(1), e004. Epub May 24, 2016.

Marcelo de Almeida Medeiros é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE (mam14@uol.com.br);

Israel Barnabé é professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe – UFSE (israelbarnabe@gmail.com);

Rodrigo Albuquerque  é professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe – UFSE (albuquerque.rodrigo@gmail.com);

Rafael Lima é professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe – UFSE (rafaelmesquita_5688@hotmail.com);

Patrícia Martuscelli, membro  da  equipe  editorial da  Revista  Brasileira  de  Política Internacional – RBPI – é doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo – USP.

Como citar este artigo:

Mundorama. "Como é o campo de Relações Internacionais na América do Sul? – uma entrevista com os autores, por Patrícia Martuscelli". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 02/12/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/12/02/como-e-o-campo-de-relacoes-internacionais-na-america-do-sul-uma-entrevista-com-os-autores-por-patricia-martuscelli/>.

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