Estados Unidos: uma década e meia do atentado terrorista, por Virgílio Arraes

Há quinze anos, os Estados Unidos surpreenderam-se com o ataque de aeronaves civis sequestradas em seu próprio país por uma vintena de homens naturais do Oriente Médio, conforme identificação posterior dos órgãos de segurança, em cuja filiação política encontrava-se estreita vinculação com uma organização fundamentalista.

De forma estonteante, ela havia sido outrora apoiada parcialmente por eles mesmos, norte-americanos, quando do extenso enfrentamento do intricado Afeganistão contra a União Soviética muitos anos antes.

A crônica relativa ao trágico destino dos quatro aviões de grande porte é assaz conhecida: dois deles se chocaram contra o complexo do World Trade Center, em Nova York, ao ter por consequente resultado a derrubada de dois dos seus prédios mais altos. O total de vítimas aproximar-se-ia de quase três mil. O terceiro encaminhou-se ao Pentágono, em reforma, em Washington. O último não foi destinado para o mesmo propósito, graças à heroica atuação dos passageiros, segundo registro do governo norte-americano.

No entanto, sua sina seria também desventurosa para os embarcados, ao cair em uma área florestal da Pensilvânia. Especula-se até hoje para qual alvo teria sido endereçado, de acordo com a vontade dos sequestradores: a Casa Branca ou o Congresso?

Na época de vigência da confrontação bipolar, a disputa mais importante por poder ocorria aos olhos da opinião pública entre o capitalismo democrático e o comunismo trabalhista. Todavia, eram, na prática, duas superpotências nucleares em defesa de seus interesses imediatos, convergentes à medida do possível aos de seus aliados, materializados ou não como Estado.

No caso do Afeganistão, os russos deslocaram-se lá de maneira ávida com o propósito de defender o partido comunista local do integrismo ascendente, apoiado de forma paradoxal por alguns governantes do Ocidente, até por receio dos efeitos em sua vasta fronteira de longa memória muçulmana, a despeito dos esforços da doutrinação comunista.

Após quase duas décadas desgastantes, Moscou desistiu da peleja afegã e recolheu-se de modo aviltado a seu território. Com o ocaso interno do regime socialista, não havia justificativa persistente para vultosos gastos com atividades belicosas como o deslocamento de numerosos contingentes para além da fronteira.

Abandonados de maneira sumária pelos combalidos soviéticos, partidários ou simpatizantes do comunismo afegão, devido ao crescente enfraquecimento castrense, estiveram à mercê das agremiações extremistas, entre as quais a da Al-Qaeda, cujos inúmeros adeptos comportavam-se de modo bastante rígido com seus adversários de feitio secular.

À proporção que o tempo passava, a antipatia tradicionalista dos veteranos combatentes locais ao Kremlin trasmudou-se para a Casa Branca, em decorrência do envio de efetivos ocidentais para solo médio-oriental, no período da chamada Primeira Guerra do Golfo, em que estava em jogo a soberania do monárquico Coveite diante do ditatorial Iraque, logo depois do cerramento do confronto ideológico amero-soviético.

Após o término do conflito, os antigos insurgentes atordoavam-se com a continuidade da permanência de tropas estadunidenses próximas de locais observados como sagrados como Meca, na Arábia Saudita, para os muçulmanos de vertente sunita.

Isso teria insuflado em segmento de fiéis mais fervorosos, ainda que em quantidade reduzida, o repúdio à permissão para o estacionamento indefinido de tropas e estimulado neles a aspiração de expulsá-los de maneira definitiva.

Em não sendo possível satisfazer nem sequer de modo parcial tal objetivo através da política, posto o caráter autoritário do regime teocrático de Riade, a possibilidade do recurso à violência privada extrema veio a lume, circulou em toda a região e cooptou aderentes de várias nacionalidades, embora no referido ataque tenha-se centrado em ativistas sauditas – quinze dos dezenove perpetradores.

De modo lamentável, não foi o primeiro, nem seria o último atentado, porém se tornaria o de maior impacto em termos de divulgação pública, até pelo país atingido, a única superpotência remanescente. No momento do ataque, o presidente George Bush localizava-se em uma escola primária, onde lia um texto para alunos do ensino fundamental.

A resposta à inesperada investida de uma agremiação terrorista, não Estado, veio através do lançamento de milhares de bombas ao Afeganistão, comandado naquela fase pelo também extremista Talibã, grupo aliado à Al-Qaeda, apontada como a organizadora do acometimento no território estadunidense.

Tal qual a União Soviética na Guerra Fria ou mesmo a Grã-Bretanha no século dezenove, os Estados Unidos não desfrutariam de êxito cimentado no Afeganistão, malgrado os imensos custos materiais e desgastantes perdas humanas, em especial as civis.

A corrosão do prestígio estadunidense aflorou mais, ao estender sua mão militar, mesmo quando de forma reservada, a outros países muçulmanos como Iêmen, Síria, Somália, Paquistão e Líbia, com gastos estimados em uma quinzena de anos em alguns trilhões de dólares – adicione-se ao cálculo o despendido com Afeganistão e Iraque.

Isto não desaguou, por outro lado, em impedir a todo o momento o nascimento de tropel de grupamentos inspirados no fatídico ataque ou até uma maior estruturação de um deles, o Estado Islâmico, afamado pela ambição de delineio territorial entre Iraque e Síria, ao indicar o revivescimento de um califado.

Nos derradeiros momentos do segundo mandato, o presidente Barack Obama assistiu a momento raro do Congresso: o da derrubada de um veto presidencial, possível graças a dois terços das duas casas, em uma inaudita composição bipartidária. Este foi o único de sua administração. Nem sequer Hillary Clinton, candidata democrata, posicionou-se a favor do dirigente presidencial.

A discordância parlamentar referiu-se a singular projeto autorizador de processo judicial aos eventuais responsáveis da investida de 11 de setembro pelas famílias dos milhares de vitimados. A partir dele, poder-se-ia acionar até o governo saudita, situação muito incômoda tanto para Washington como para Riade.

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Estados Unidos: uma década e meia do atentado terrorista, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 17/10/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/10/17/estados-unidos-uma-decada-e-meia-do-atentado-terrorista-por-virgilio-arraes/>.

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