Definições conceituais para o entendimento de Política Externa: o poder duro e o poder brando, por Marcos Alan Ferreira

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Os conceitos de poder duro (hard power) e poder brando (soft power) propostos pelo internacionalista norte-americano Joseph S. Nye Jr. têm se mostrado importantes para a compreensão das principais abordagens da política externa dos Estados Unidos (EUA) nos dias atuais. Esses conceitos foram introduzidos por Nye nos anos 80, destacando que o exercício do poder se dá em duas frentes, uma através da coerção e intimidação (poder duro) e outra através da persuasão e atração (poder brando). A partir da ascensão de George W. Bush, o autor avança na caracterização das duas modalidades de poder, principalmente nos livros O paradoxo do Poder Americano e Soft Power: The Means to Sucess in World Politics, que serão o principal objeto da nossa análise nos parágrafos a seguir.

O conceito de poder duro

Nos seus escritos, Nye não define poder duro como uma entidade única. Em relação ao conceito tradicional, entendido como o exercício da força bruta imposta contra outrem no sentido de obter os efeitos desejados em benefício de determinado interesse, o autor introduz uma divisão entre as dimensões militar e econômica. O poder duro nada mais é que seu exercício direto, diferente do poder brando, de ação indireta.

As duas modalidades que compreendem o poder duro, militar e econômica, procedem através de ferramentas como a coerção, a indução, a intimidação e a proteção. Ambas são aplicadas por meio de sanções, ameaças e punições. Por sua vez, a força bruta é empregada através de diferentes políticas governamentais, muitas delas bastante conhecidas por todos nós ao longo da história, como as guerras, diplomacia coercitiva e alianças estratégicas com fins bélicos.

No âmbito militar, o poder duro é exercido por meio de políticas como a diplomacia coercitiva, a guerra e as alianças. A diplomacia coercitiva é aquela em que a ameaça é algo nitidamente presente nas negociações de determinado assunto. Aqui, ao invés da confiança, o uso de ameaças é o comportamento que rege no caso da demanda de uma das partes não ser atendida. Um exemplo atual que podemos citar para explicar o conceito de diplomacia coercitiva são os acontecimentos envolvendo a Síria e os EUA, em que este último diz não descartar o uso de medidas severas contra aquele país caso continue gerando instabilidade no Oriente Médio.

Ainda no leque de políticas governamentais, temos as alianças militares, que são normalmente utilizadas nas guerras, fato percebido, por exemplo, na II Guerra Mundial – dividida em duas alianças entre o Eixo e os Aliados –, e na recente Guerra do Iraque – entre os países da Coalizão formada por EUA, Inglaterra, Polônia, Costa Rica, entre outros.

Dentro do campo econômico, o poder duro é utilizado em políticas de apoio financeiro, subornos e sanções. No caso do apoio financeiro, o objetivo do Estado é obter resultados favoráveis aos seus interesses seja no plano geopolítico ou econômico. Como exemplo de apoio financeiro na acepção aqui analisada podemos citar a compra de açúcar cubano feita pela União Soviética acima da cotação internacional desta commodity durante os anos da Guerra Fria. Este apoio servia para fortalecer esse regime aliado naqueles anos de tensão mundial. No que se refere aos subornos, este é utilizado para a obtenção de favores nos mais diversos campos das relações internacionais, sejam eles econômicos ou militares.

As sanções são utilizadas como meio de punição contra um comportamento que não é de interesse do ator mais influente em determinado assunto. Um exemplo são as restrições às importações de materiais de uso dual impostas aos países que, segundo o Departamento de Estado dos Estados Unidos, apoiariam o terrorismo.

 O conceito de poder brando

As maiores atenções no livro de Nye (2004) estão direcionadas para a definição do poder brando. Neste campo, o autor inova ao trazer uma análise que coloca no centro as dimensões do poder vinculadas a atração e a persuasão. De acordo com o autor:

Há mais de quatro séculos atrás, Nicolau Maquiavel recomendou aos príncipes da Itália que era mais importante ser temido do que amado. Porém, nos dias de hoje, o melhor é ser ambos. Ganhar corações e mentes sempre foi importante, no entanto o é ainda mais na era da informação global. (NYE, 2004, p. 1).

Nesse sentido, ganhar corações e mentes se torna ainda mais importante na era da informação global, era esta que guarda características que a diferenciam de qualquer outra na história mundial. Hoje, com a revolução da informação, a diminuição das fronteiras econômicas e a interdependência entre os países nas mais diversas questões de interesse mundial, preconizar o uso do poder duro é para Nye uma atitude pouco inteligente. Se antigamente a denúncia de uso da força militar contra civis era algo difícil de ser provado, hoje temos uma Al Jazeera que pode mostrar através de imagens que determinado bombardeio da coalizão que atacou o Iraque atingiu uma zona residencial de Mosul ou Kirkuk. Ou ainda, hipoteticamente, possíveis sanções econômicas por parte da União Européia contra a China podem por outro lado abrir frentes de entendimento entre EUA e este Beijing.

Como ferrenho crítico à política externa republicana do período de George W. Bush, Nye sugere uma revisão da política externa norte-americana com uma maior sofisticação na definição e na utilização do poder brando, caracterizado como

(…) a habilidade de obter o que você quer através de atração, ao invés de coerção ou punição. Ele provém da atratividade da cultura de uma nação, ideário politico e políticas públicas. Quando nossas políticas são legítimas aos olhos dos outros, nosso poder brando se intensifica. (NYE, 2004, p. X).

Essa definição complementa aquela apresentada num livro anterior, em que ressaltava que

Na política mundial, é possível que um país obtenha os resultados que quer porque os outros desejam acompanha-lo, admirando os seus valores, imitando-lhe o exemplo, aspirando ao seu nível de prosperidade e liberdade. Neste sentido é igualmente tão importante estabelecer a agenda na política mundial e atrair os outros quanto força-los a mudar mediante a ameaça ou o uso das armas militares ou econômicas. A este aspecto do poder – levar os outros a querer o que você quer -, dou o nome de poder brando. Ele coopta as pessoas, ao invés de coagi-las. (NYE, 2002, p. 36).

Mas como afinal cooptar os países tal como propõe Nye? Para ele, os meios de atração serão a cultura, as instituições e políticas governamentais que sejam compartilhadas pelos atores que determinado país quer cooptar.

Em relação ao uso da cultura, um exemplo citado pelo autor são os valores de liberdade que o Ocidente irradiou aos países do Leste Europeu, que acabaram por influenciar alguns jovens a reivindicarem a abertura democrática nos anos 1980. No que se refere a políticas governamentais, podemos citar a concessão de bolsas de estudos para estudantes estrangeiros. No âmbito das instituições, destaca-se a exportação do modelo ocidental de democracia para o resto do mundo, especialmente para os países árabes. De acordo com Nye,

O país que consegue legitimar seu poder aos olhos dos demais encontra menor resistência para obter o que deseja. Contando ele com uma cultura e uma ideologia atraentes, os outros se mostram mais dispostos a acompanhá-lo. Se conseguir estabelecer regras internacionais compatíveis com sua sociedade, é menos provável que tenha que mudar. (NYE, 2002, p. 39)

Referindo-se à realidade dos Estados Unidos, o autor destaca que

(…)a universalidade da cultura de um país e sua capacidade de estabelecer um conjunto de normas e instituições favoráveis que governem setores de atividade internacional são fontes decisivas de poder. Os valores da democracia, da liberdade pessoal, da mobilidade pessoal e da abertura, freqüentemente expressos na cultura popular americana, a instrução superior e a política externa contribuem com o poder do nosso país em muitas áreas (NYE, 2002, p.39).

            De todas essas fontes de poder brando propostas por Nye, não podemos perder de vista que sua ótica, além do exercício intelectual, incorpora o lado político com sua participação nos governos Bill Clinton e Barack Obama, o que justifica sua preocupação com a manutenção da hegemonia americana, porém valorizando o consenso em detrimento da força. Portanto,

Já que o poder brando é atração com base em valores compartilhados e equitativos e o dever de outros de contribuir para políticas consistentes com aqueles valores compartilhados, as conversações multilaterais são provavelmente mais apropriadas para gerar poder brando do que a simples defesa de meros valores unilaterais. (NYE, 2004, p. 64).

Conciliar interesses globais através de valores compartilhados e de instituições exemplares não significa deixar de lado o uso da força. Caso seja necessidade, tal uso é legítimo no entendimento de Nye. Não obstante, na busca da hegemonia, o equilíbrio entre poder brando e duro é fundamental.

O poder brando será importante na definição da agenda política ao mostrar que os valores preconizados pelo núcleo comandante são os certos, sem que para isso se precise fazer uso da força. Não obstante, apesar do seu pioneirismo nas análises das relações internacionais, a ideia central que gira em torno desse conceito não é nova na ciência política. Antonio Gramsci, ao discorrer sobre a noção de hegemonia, explicou que esta se exerce pela combinação da força e do consenso, “sem que a força suplante em muito o consenso, mas, ao contrário, tentando fazer com que a força pareça apoiada no consenso da maioria (…)”. (GRAMSCI, 2000, p.95). O próprio Nye afirma que a ideia de se determinar o arcabouço do debate político já tinha sido discutida anteriormente por Gramsci (NYE, 2002, p. 37).

Em ambos, seja em Nye ou Gramsci, a hegemonia – ou smart power (poder inteligente – proporcionalidade entre os dois poderes) especificamente para Nye – é pensada através do equilíbrio nas ações pautadas pela força e pelo consenso. Assim, a preponderância ou domínio será atingido no momento em que o núcleo comandante criar o consenso, tendo como pano de fundo e base para qualquer eventualidade a sua força bruta (NYE, 2004, p. 147).

Conclusões

A utilização do conceito de poder como entidade única não é adequada hoje para uma análise da política externa, especialmente de grandes potências como os EUA. Neste sentido, dividir o conceito de poder entre duro e brando, tal como Nye propõe, se mostra importante para um entendimento mais aprofundado da atual política norte-americana. Respectivamente, o primeiro simboliza o poder tradicional exercido através do uso da força, da sanção e da indução. O segundo seria a capacidade de atrair e cooptar aliados para lograr determinados interesses.

Não obstante, não podemos perder de vista que estas definições encontram base em escritos mais antigos da ciência política que diferenciam o uso da força e a busca do consenso – que podem ser comparados, respectivamente, a poder duro e poder brando. Tais escritos nos trazem um caráter que não é desenvolvido nos escritos de Nye, que seria a busca da hegemonia no equilíbrio entre o poder duro e o poder brando. Assim, o smart power, proporcionalidade entre os dois poderes, nada mais seria que o ponto ótimo de equilíbrio para o exercício da hegemonia, tal como anteriormente já discutira o cientista político italiano, Antonio Gramsci.

Marcos Alan S. V. Ferreira é Docente no Departamento de Relações Internacionais na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). E-mail: marcosalan@gmail.com

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Definições conceituais para o entendimento de Política Externa: o poder duro e o poder brando, por Marcos Alan Ferreira". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 03/10/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/10/03/definicoes-conceituais-para-o-entendimento-de-politica-externa-o-poder-duro-hard-power-e-o-poder-brando-soft-power-por-marcos-alan-s-v-ferreira/>.

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