China e Índia – “Chindia”: vasto espaço para negociação cultural e mega estrutura econômica em construção, por Paulo Antônio Pereira Pinto

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China e Índia emergem e cada fenômeno é analisado separadamente, com seus riscos e oportunidades. Pouca atenção, contudo, tem sido conferida à possibilidade de que possam vir a integrar-se, seja como vasto espaço para negociação cultural, seja como mega estrutura econômica em construção. A possibilidade da criação de umaChindia”, ademais, é analisada apenas na perspectiva da crescente inserção internacional das economias dos dois países, bem como a partir da cobiça quanto ao acesso de centenas de milhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros.

O exercício de reflexão a seguir procura analisar, em linhas reconhecidamente simplificadas, como a emergência da China e da Índia, com suas diferentes percepções sobre a espiritualidade e caminhos distintos de evolução econômica podem impactar, até com possível convergência, o ordenamento internacional vigente. O desafio maior, no momento, seria o de imaginar como China e Índia poderão voltar a influenciar-se mutuamente com suas respectivas “soft powers conforme prevaleceu há séculos, quando processo de “cross fertilization” levou ao que alguns estudiosos chamaram de “hinduanisação da China”, na medida em que – segundo estes – o antigo “Império do Centro” – guardadas as devidas diferenças de proporções e de momentos históricos – veio a importar tanto do Budismo indiano, quanto os europeus absorveram do Cristianismo.

Por enquanto, a maioria das análises disponíveis concentra-se na possibilidade de formação de um bloco econômico – a ser chamado de “Chindia” – que, em 2020, poderia vir a contar com superior ao dos Estados Unidos da América.

O mais importante, no entanto, seria considerar, inicialmente, a possibilidade de formação de enorme espaço de cooperação cultural, caso viesse a ressurgir, com naturalidade e de forma pacífica, o intercâmbio de ideias, manifestações artísticas e material genético, via Sudeste Asiático, que existiu, há séculos, entre hinduístas e chineses.

Até recentemente, a maioria da leitura disponível sobre China e Índia visava a interpretar um ou outro país a público ocidental. Ademais, os parâmetros de comparação para a RPC eram, quase sempre, o Japão, a Coréia do Sul, ou mesmo Taiwan. Os indianos eram, nesses estudos, associados, inevitavelmente, aos paquistaneses.

No momento, a China parece “descolar-se” do resto da Ásia Oriental, que continua a ser vista com atenção, por sua dinâmica própria. O Paquistão, de sua parte, tornou-se merecedor de referências a processos em curso no Afeganistão.

Vasto espaço para a cooperação cultural

China e Índia são, hoje, focos de comparações inesgotáveis, para os leitores ocidentais, seja a respeito de seus respectivos processos de desenvolvimento econômico, seja quanto à inserção de cada país no cenário internacional.

Como observador em Mumbai, na condição de Cônsul-Geral, entre 2006 e 2009, o mais interessante foi obsevar o esforço de analistas indianos para explicar, ao seu próprio país, a “China”. Isto porque, como se sabe, o intenso intercâmbio comercial, a “cross-fertilization” cultural e mesmo a mistura étnica que prevaleciam, havia séculos, entre as duas civilizações, foram suspensos, a partir de 1962, com a guerra fronteiriça entre os dois países.

Parte-se do princípio, nessa perspectiva, de que as atuais gerações indiana e chinesa, após mais de cinquenta anos de distanciamento, procuram interpretar seus comportamentos recíprocos, no âmbito das condicionantes de cada cultura própria.

Assim, aos chineses cabe explicar, por exemplo, a “sacudida de cabeça hindu, à esquerda e à direita” – que para os indianos significa “ser a verdade sempre contextual e que, portanto, a resposta a cada pergunta deve ser interpretada como afirmativa ou negativa, dependendo da conveniência dos interlocutores”. Da mesma forma, é esclarecido aos indianos que tamanha é a necessidade chinesa de “não perder face” que um “sim” dito de forma muito enfática pode, disfarçadamente, significar um “não”. Isto é, um chinês busca sempre não ser exposto ao constrangimento de, através de uma negativa, aparecer incapaz de satisfazer ao pedido ou responder a pergunta da outra parte. Assim, haverá quase sempre um “sim”, como resposta, mesmo que seu significado seja o de um “talvez” ou um “não”.

Os receituários ora disponíveis, para que a China seja mais bem entendida na Índia, procuram, também, esclarecer as diferenças entre os dois países, no campo espiritual. É, então, explicado aos indianos que os chineses contam, em sua mitologia, com centenas de “deuses” e “deusas”, além de seres sobrenaturais, como o dragão. Não haveria, segundo o ponto de vista local, o conceito de um “Ser Divino Todo Poderoso” ou “Deus”. Conflitos relacionados com a reencarnação ou renascimento – encontrados no Hinduísmo – ou com o pecado – vigentes no Catolicismo, Judaísmo e Islã – estariam ausentes entre os chineses.

Enquanto isso, os indianos, seguidores do Hinduísmo ou Bramanismo, com seus “deuses” maiores ou menores, seus templos e cerimoniais, desenvolveram sua espiritualidade, em torno da crença no “Bhrama”, que é a unidade. Assim, cada “alma” é uma parte destacada desta unidade, que só se reencontra quando volta a se fundir no “todo”. Daí, a perene espera pelo retorno ao “Universal”.

Os chineses, de sua parte, desfrutariam de uma civilização extremamente prática, onde interessaria o “aqui” e o “agora”. A ética social prevaleceria sobre questões espirituais. Tal realidade teria três origens: o Taoismo, o Budismo e o Confucionismo. O Taoismo ditaria o perfil místico da China. Seu princípio básico é o de que o mundo, como um todo, funciona em torno de dois polos, que se expandem alternadamente, enquanto representam limites recíprocos. Trata-se do “Yang” e do “Yin”. O yang é tudo o que for masculino, quente, agudo, iluminado, pesado e seco; o yin é o feminino, frio, macio, escuro, leve e molhado. A desarmonia entre os dois extremos provoca desordens e doenças.

O Taoismo misturou-se com crenças e práticas tribais, dando origem ao culto de numerosos “espíritos” e “entidades”, associados à água, fogo, vento, chuva, rios, arroz, portões, paredes, entre outros. A maioria das entidades objeto de devoção dos chineses é de ancestrais, guerreiros, reis, dignitários e sábios. Por exemplo, os “Oito Imortais” foram pessoas que, através da realização de “obras dignas de reconhecimento e vidas plenas de alegrias” foram agraciados com o “pêssego da vida eterna”, o que os tornou imortais. Suas imagens “guiam e ajudam os fiéis”, em momentos de necessidade.

Em virtude do espírito prático da mentalidade chinesa, o Budismo chegou ao país com sua “Escola Mahayana”, cujo objetivo principal seria não o de se tornar um Buda, mas, sim, o de, com persistente esforço individual, invocar a intervenção divina – do Buda – para que as dificuldades do mundo material se tornem mais suportáveis. Segundo seus adeptos, haveria diversos níveis de “paraísos” e de “infernos”, com diferentes recompensas e punições. Os que demonstrassem comportamento mais correto seriam contemplados com a entrada no “paraíso mais elevado”, onde conviveriam com o “Imperador de Jade”, que, segundo a referida crença, seria o que mais próximo haveria da noção de um “Deus”. A “corte divina” do Imperador de Jade seria idêntica a uma versão terrestre, com um exército, burocracia, família real e “parasitas de plantão”- estes em busca de favores. Seu julgamento, no entanto, é justo e sem caprichos: o bem é recompensado e o mal punido.

Por ocasião das celebrações do Ano Novo Lunar, os fiéis chineses queimam dinheiro de papel, como símbolo de pagamento para que “deuses que habitam suas casas” viagem até à referida corte do Imperador de Jade e relatem favoravelmente sobre as famílias que os hospedam. Outro recurso é o de oferecer doces ao “deus da cozinha”, para adoçar-lhe os lábios e permitir um discurso favorável àquela entidade maior. Tais explicações, na Índia, fazem a China parecer bastante utilitária e simplista, preocupada mais com a “face” dos que seguem o ramo prevalecente do Budismo, enquanto, entre os indianos, os hinduístas privilegiam e convivem com complicado sistema de castas e formas de vida – inclusive na de animais – que podem se suceder, em reencarnações futuras.

Cabe ressaltar que, em momento algum, as diferenças assinaladas procuram identificar obstáculos a um possível renovado bom entendimento entre as duas civilizações. Pelo contrário, buscam-se, sim, coincidências herdadas por interlocuções, durante séculos, de diferentes formas, no campo econômico, político e cultural. Há especialistas, a propósito, que comparam a “indianização” da China – com a sua “importação” do Budismo do país vizinho – à cristianização da Europa.

Para atender ao já mencionado interesse da nova geração indiana com respeito ao antigo “Império do Centro”, a imprensa local tem ressaltado a crescente visita de cientistas indianos da área de informática à cidade de Hangzhou (onde aconteceu a reunião do Grupo dos 20), na RPC, e a ida de especialistas chineses em “software” a Bangalore, na Índia. Relaciona-se, então, este crescente intercâmbio técnico-industrial com a recíproca criação de centros de estudos do Budismo, em Universidades dos dois países, como consolidação de “cross fertilization” cultural histórica. Isto é, segundo era entendido em Mumbai, parecia ser fortalecido o consenso de que a mesma facilidade de troca de ideias e maneiras de produção, que permitiu que o Budismo penetrasse na China – como assinalado acima – os habitantes dos dois países poderiam hoje se articular, a partir de valores em comum, criando um vasto espaço para a convivência entre suas diferentes culturas.

Trata-se de conclusão importante para os que, até recentemente, acreditavam que Índia e China viriam a importar modelos e formas de comportamento do “Ocidente”, na medida em que se consolidam, como potências econômicas emergentes. Pode ser que, na prática, entre os dois países, forme-se um vasto espaço cultural, a facilitar a convivência entre diferentes culturas. Esta “Chindia” poderia proporcionar e priorizar o ressurgimento de formas tradicionais de relacionamento entre diferentes povos, que conviviam entre e através de suas fronteiras.

Chindia”: mega estrutura econômica em construção

Quanto à possibilidade de o relacionamento sino-indiano evoluir no sentido de integração econômica, não se pode deixar de citar o livro “Billions of entrepreneursHow China and India are Reshaping Their Futures and Yours”, por Tarun Khanna, que visa a interpretar, a leitores ocidentais, oportunidades de negócios na vasta estrutura econômica em construção entre os dois países asiáticos emergentes.  Nessa perspectiva, a narrativa de Tarun Khanna – de nacionalidade indiana – é bastante simples, na medida em que seleciona alguns aspectos da vida econômica nos dois países. Cada capítulo é baseado em tais comparações, utilizando histórias de sucessos e fracassos de empresas, indivíduos e projetos nas nações vizinhas.  Assim, o autor analisa, por exemplo, porque cidades podem ser construídas, praticamente da noite para o dia, na China, enquanto Mumbai não consegue, apesar de repetidos esforços, há anos, urbanizar sua favela Dharavi, a maior do mundo. Em contrapartida, o mercado de capitais indiano – também com sede em Mumbai – tornou-se respeitado mundialmente, a partir do início deste milênio, na medida em que a forte intervenção estatal chinesa mantém as instituições financeiras da RPC atrasadas.

Tharun Khana questiona a razão de a indústria de “software” ter prosperado na Índia, mas não na China. Por que os chineses atraíram maior volume de capital externo do que os indianos. Busca explicar a razão da diferença de tratamento oferecido aos chineses de ultramar – que são bem vindos, com seus investimentos no país de origem – e aos indianos residentes no exterior – que hesitam, ainda, em aplicar seu dinheiro na terra onde nasceram ou de seus antepassados. Ressalta, também, que as propostas para introduzir, na China, a “economia socialista de mercado” foram iniciadas com reformas no campo, enquanto, na Índia, pouco resultado pode ser visto com a redistribuição de terras. Em outro capítulo, analisa o sucesso indiano, em sua inserção internacional, com a exportação de “soft power”, manifestada em filmes de Bollywood, medicina tradicional e gurus, atraindo, assim, simpatias em diversas partes do mundo. Os chineses, de sua parte, especializam-se em “hard power”, isto é, explorando fortemente os recursos minerais e energéticos de países na África e América Latina, criando, assim, antipatias externas. Cada parte de seu livro demonstra profundo conhecimento pessoal dos temas abordados, revelando ter o autor ampla vivência dos dois países. Sua carga de informação é, portanto, significativa. Algumas conclusões, contudo, deixam a desejar. Por exemplo, analisa que, além da influência budista – de origem indiana – na China, foi encontrado, também o registro do símbolo “OM” – palavra que inicia toda a prece da religião hinduísta – em templo na já referida cidade chinesa de Hangzhou, onde são crescentes os investimentos da Índia em “software”. Conclui, portanto, que a facilidade de absorção de tecnologia indiana, nesta metrópole da RPC, deve-se a predisposição histórica da China em receber influência da Índia.

O livro, ademais, busca ser um receituário a grandes empresas multinacionais ocidentais que queiram investir nos dois países. Seu conselho principal é o de que deveria ser emulado o exemplo da General Electric, que foi bem sucedida em empreendimento que teve como base o estabelecimento de “hardware”, na China, e de “software”, na Índia. Assim, caso se queira produzir um “chip” ou realizar um projeto de arquitetura, cabe recorrer a parceiros indianos. Se o investimento depender de estradas, portos, energia e demais elementos de infraestrutura eficiente, é melhor pensar no vizinho chinês. Segundo este raciocínio, ambas as nações teriam muito a ganhar, em sua inserção na economia internacional, caso viessem a melhor articular suas complementaridades e vantagens competitivas. Retorna-se, portanto, ao tema de que a emergência atual da Índia e da China é, muitas vezes, analisada apenas na perspectiva da cobiça quanto ao acesso de centenas de milhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros.

Consta que, na década de 1950, Nehru comentou sobre a histórica falta de vontade e de habilidade da Índia em aprender da China: “Durante estes milhares de anos, cada país aprendeu algo do outro, não apenas em termos de pensamento e filosofia, mas também nas artes e ciências da vida. Provavelmente, a China foi mais influenciada pela Índia, do que a Índia pela China, o que é uma pena, pois a Índia poderia ter tirado proveito do sólido senso  comum dos chineses, facilitando, assim – na Índia – o controle de suas próprias extravagâncias…a China levou muito da Índia, mas foi sempre suficientemente forte e auto confiante para absorver influências externas em seus próprios termos e enquadrá-las em algum lugar na sua própria textura social. Até mesmo o Budismo, com sua complexa filosofia não pode mudar ou suprimir o amor pela vida e alegria dos Chineses”.

Verifica-se finalmente que, ao consolidar-se no cenário internacional a maior participação da China e Índia, que possuem laços de vizinhança milenares, bem como se desenvolva cooperação mais intensa e troca de ensinamentos sobre como administrar seus respectivos processos de crescimento exponenciais, haverá, sem dúvida, impacto significativo regional e em outras partes do mundo. Isto ocorrerá, tanto por suas diferentes formas de atrair e influenciar novos e velhos amigos, criando um vasto espaço para a cooperação cultural, quanto pela maior inserção integrada de ambos na economia mundial, fazendo surgir uma mega estrutura econômica em construção.

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata, Embaixador do Brasil em Minsk, Belarus, a partir de 2015. Foi  Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul (ERESUL), entre 2012 e 2014,  Embaixador do Brasil em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012, e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009. Serviu, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África,  nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul.  As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores.

Como citar este artigo:

Mundorama. "China e Índia – “Chindia”: vasto espaço para negociação cultural e mega estrutura econômica em construção, por Paulo Antônio Pereira Pinto". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 19/09/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/09/19/china-e-india-chindia-vasto-espaco-para-negociacao-cultural-e-mega-estrutura-economica-em-construcao-por-paulo-antonio-pereira-pinto/>.

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