A batalha das narrativas em torno da crise turca, por Monique Sochaczewski

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Em relação ao que sabemos a respeito do golpe frustrado na Turquia, eis o seguinte: na noite de 15 de julho, houve uma tentativa de golpe militar que envolveu sequestro de autoridades militares na tentativa de tomada do poder, o fechamento de pontes de Istambul, ataque ao resort em que o presidente Erdoğan se encontrava com a família, e mesmo um bombardeio ao parlamento em Ancara. O governo reagiu imediatamente, usando redes sociais e chamados das mesquitas para pedir ao povo que fosse às ruas e resistisse ao golpe, e foi bem sucedido. O saldo inicial foi de 260 mortos e 3000 presos, e três hipóteses que explicassem o ocorrido: 1) foi obra de militares kemalistas insatisfeitos com islamização do governo e fracasso na luta contra terrorismo; 2) foi um ato de facção militar ligada ao Hizmet, grupo liderado pelo clérigo residente desde 1999 na Pensilvânia, Fetullah Gülen; 3) foi um caso de “false flag”, ou seja, armação do governo.

Convicto desde o início da culpa do Hizmet, o presidente Erdoğan e membros de seu governo falaram em “limpar membros do governo paralelo do Exército”, e passaram a exigir que os EUA extraditassem seu líder, além de ameaçar dificultar o acesso desses à bases turcas essenciais na luta contra o Estado Islâmico (EI). Sacou-se também imediatamente uma longa lista, certamente já pronta há tempos, de pretensos afiliados ao grupo no judiciário, na academia, na mídia, nas forças armadas e de segurança e nas diversas dependências estatais, incluindo o gabinete do Primeiro-Ministro. Ao todo, mais de 60.000 pessoas foram demitidas, afastadas ou mesmo presas, nem todas de fato ligadas ao grupo.

Gülen e seus seguidores no mundo todo, negam veementemente as acusações e as rebatem com a visão de que ocorreu na Turquia foi “false flag”, já que o resultado deste é por demais favorável ao governo, que vem expurgando seus opositores. Logo no início o grupo emitiu nota refutando alegações de seu envolvimento, condenando “consistentemente qualquer intervenção militar na administração pública” e reclamando de mais uma vez serem vítimas de “declarações irresponsáveis e difamatórias”.

No final de julho, a batalha de narrativas, porém, chegou ao New York Times. Em 22 de julho, o jornalista turco Mustafa Akyol escreveu o artigo de opinião “Quem estava por trás da tentativa de golpe na Turquia?”. Neste texto, Akyol, um escritor de origem conservadora, mas bastante crítico do governo nos últimos tempos, diz que o ocorrido na Turquia vai além das “teorias conspiratórias bizarras” apresentadas tradicionalmente por Erdoğan, e que faz sentido acreditar na culpa do Hizmet. Ele apresenta a imagem que muitos dos seguidores de Gülen tem dele como o Mahdi, uma versão islâmica do Messias; a forma como o movimento se organiza de maneira hierárquica; e relata suas atividades visíveis no mundo todo de abertura de escolas, oferta de serviços sociais e criação de projetos sobre diálogo inter-religioso. Akyol, porém, diz existir um lado negro do grupo conhecido por poucos de seus membros, e que envolve a infiltração nas instituições estatais turcas como judiciário, polícia e forças armadas. O projeto seria então de tomar o poder “por dentro”. O jornalista ressalta que por muitos anos Erdoğan se aliou ao Hizmet e que estes perseguiram conjuntamente seculares, afastando-os do poder em grande medida no ano de 2012. Em 2013, porém, alegações de corrupção contra o AKP, chegando ao então primeiro-ministro Erdoğan, acabaram com as relações de ambos. O chefe do Estado-Maior turco, que se opôs ao golpe, teria ainda identificado os oficiais revoltosos como membros do Hizmet. Akyol conclui dizendo que a seu ver todos os indícios se voltam para o líder do movimento e que este deveria ter um julgamento justo na Turquia, devendo ser, portanto, extraditado pelos EUA. Só isto, a seu ver, não só faria justiça, como melhoraria as relações entre Turquia e EUA, e mesmo ajudaria aos ativistas inocentes do grupo que conhecessem melhor a organização na qual se inserem.

No dia 25 de julho, foi a vez do NYT publicar em suas páginas um texto assinado pelo próprio Fetullah Gülen, declarando condenar todas as ameaças à democracia turca.  O clérigo declara que como os três principais partidos de oposição turcos, fez declarações abertas contra a tentativa de golpe, mas que diferentemente destes, não foi aceito. Diz que o presidente é crescentemente autoritário e que as acusações que lhe foram feitas são irresponsáveis e erradas. Gülen ressalta que uma rebelião armada vai de encontro com sua filosofia de um Islã plural e dedicado ao serviço dos seres humanos de todas as fés, e que isso pode ser comprovado pelas ações de seu grupo nos quarenta anos de sua existência. Suas ações na área de educação e serviço comunitário estão presentes em mais de 150 países. E se apresenta como um modelo de voz islâmica moderada, tendo clara atuação crítica do 11 de setembro ao EI. Lembra a sua própria vivência com golpes militares na Turquia e que apoiar a um destes seria trair seus ideais. A seu ver, a questão vem de Erdoğan ter ficado irritado com o fato do Hizmet ter criticado corrupção e ações antidemocráticas, e desde 2014 vem perseguindo o grupo, seus interesses e bens. Gülen conclui dizendo que na Turquia a tendência ditatorial do presidente polariza a população em termos sectários, políticos, religiosos e étnicos, alimentando o fanatismo, e clama para que os EUA não se acomodem com um “autocrata que está tornando um golpe fracassado em um autogolpe em slow-motion contra o governo constitucional”.

A batalha narrativa é levada adiante ainda nas redes sociais, nos periódicos do mundo todo e mesmo do Brasil. Na Turquia, porém, o que se verifica é um certo predomínio pela culpa do Hizmet, lembrando ainda que há um clima de perseguição que inibe demonstrações contrárias. Não é raro, porém, ler mensagens de amigos e colegas – acadêmicos em grande maioria – no país dizendo: “o envolvimento de Gülen é óbvio para nós, mas estrangeiros preferem não acreditar que foi um golpe gülenista”. Aliás, essa posição vem exasperando muitos turcos, que acreditam que houve, inclusive, uma torcida contra sua democracia, já problemática. Tanto no momento da tentativa do golpe, como no domingo dia 24/7, integrantes de todos os partidos de oposição declararam claramente sua repulsa a este. Muitos aproveitam o momento para deixar claro para o governo, porém, que esse caso não lhe dá carta branca para seguir com a centralização excessiva de poder e pouco apreço para a democracia, além de ressaltarem a importância de retomar o processo de paz com os curdos.

Enfim, das três hipóteses levantadas no primeiro momento, aquelas defendidas por Gülen e Erdoğan ainda persistem. As investigações ainda se desenvolvem e uma “caça às bruxas” ocorre em paralelo, sendo de fato difícil ter certezas a respeito da coisa toda.

A Turquia, além de fascinante, por seus passados bizantino, seljúcida e otomano, continua de suma importância geoestratégica nesse início de milênio. Por seus estreitos, os russos acessam o Mediterrâneo. Em seu território se abrigam cerca de três milhões de refugiados sírios e pode ser também através deles que muitos podem novamente chegar ao território europeu, como na crise do verão de 2015. É através da Anatólia que se projeta oleoduto levando energia do Azerbaijão para a Europa. E foi em grande medida através de suas fronteiras que milhares de recrutas do mundo todo chegaram às terras dominadas pelo EI.

A Turquia tem um Ministério da União Europeia e ainda busca oficialmente fazer parte da mesma. Foi alvo do Plano Marshall no pós-Segunda Guerra e desde 1952 integra a OTAN. Vale a pena acompanhar o desenrolar de todo essa guerra de narrativas porque certamente terão mais um impacto nas discussões sobre a União Europeia e da OTAN e também sobre as relações do país com os EUA.

E daqui do Brasil, de onde até recentemente partiam milhares de turistas ávidos por conhecer in loco as belezas intrigantes da Capadócia e os cheiros, sons e sabores de Istambul, vale nos questionarmos sobre como essa crise é apresentada pela mídia brasileira. O quanto ela reflete uma ignorância geral sobre o país e seu entorno? O quanto vê-se nela uma agenda dos grupos envolvidos nos conflitos da Turquia? A certeza que fica é a necessidade e a validade de continuar estudando-a.

Monique Sochaczewski é Doutora em História, Política e Bens Culturais pelo CPDPC/FGV. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A batalha das narrativas em torno da crise turca, por Monique Sochaczewski". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 04/09/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/09/04/a-batalha-das-narrativas-em-torno-da-crise-turca-por-monique-sochaczewski/>.

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