A governança global no século XXI: O caso do G20 financeiro, por Gabriel S. de Castro e Márcio Oliveira Jr.

Os estudos de economia política internacional possuem diversas abordagens para o entendimento das relações econômicas internacionais que consequentemente apontam para diversas temáticas distintas. Neste artigo, faremos uma análise a respeito da importância do G20 para a economia mundial contemporânea. Destarte, em primeiro lugar, é preciso compreender a natureza dos arranjos de constrangimentos econômicos que se estabelecem no sistema internacional.

Os contornos da arquitetura financeira global, mais especificamente com a criação do Sistema de Bretton Woods, são desenhados a partir da vontade coletiva dos atores sociais. A crise de 1929 e a consequência das duas guerras mundiais mostraram para a sociedade internacional a necessidade da institucionalização e a regulação das regras econômicas. Recordando Onuf (2002), a elaboração desses instrumentos que limam a aparente incerteza dos atores internacionais é naturalmente compreendida, uma vez que as instituições são fruto da própria necessidade destes atores. Com efeito, uma revisão mais elaborada do comportamento da sociedade internacional mostrou-se imprescindível em comparação aos efeitos do Tratado de Versalhes.

 A vontade coletiva emerge, também, da busca pela segurança do mundo capitalista em contraponto a ascensão soviética. Assim, percebem-se nos Estados ocidentais aliados ao poder norte-americano aquilo que Wendt (1992) chama de identidade dos atores internacionais. Em outras palavras, os atores que visaram à construção do sistema de Bretton Woods, possuem uma identidade em comum: são capitalistas. O desenvolvimento do capitalismo passa, a partir daí, por um duplo movimento. De um lado, países europeus destruídos pela guerra que são reconstruídos através da participação efetiva do Estado, atrelado ao financiamento estadunidense via Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD). Por outro lado, as instituições financeiras internacionais almejam a diminuição de conflitos e prevenção de crises financeiras globais. Ficou clara, nesta época, a importância das instituições financeiras para as relações internacionais no sistema capitalista.

Os EUA conseguiram imprimir sua identidade no cenário internacional de modo a influenciar as construções sociais no mesmo. Dessa forma, o fim do padrão ouro-dólar converge na retirada do lastro do ouro na moeda estadunidense. Isto propiciou o redirecionamento da economia note- americana, que caminhava para o declínio. Consequentemente, o fim do “Consenso Keynesiano” desmantelou os Estados de Bem Estar No entanto, isso não significou o abandono de quaisquer revisões a respeito à economia mundial. Posteriormente, foram elaborados os Acordos de Basiléia além de outros instrumentos para a supervisão do sistema financeiro mundial. Com a emergência da crise financeira global, surge um peso as discussões sobre o G20 financeiro e o seu papel na arquitetura financeira internacional.

Apesar do G20 financeiro ter se originado do G7 – este criado no final da Segunda Guerra Mundial – trataremos aqui do período no qual ele ganhou maior importância e peso nas discussões internacionais. O G20 financeiro, por sua vez, pode ser entendido, em uma perspectiva construtivista, como produto da construção social dos atores internacionais como instrumento de reação a crise financeira mundial.

Com a crise econômica internacional, os países capitalistas mais influentes do sistema mundial concluíram que era necessário um esforço conjunto dos demais Estados para impedir o agravamento econômico e buscar, o mais rápido possível, a retomada do desenvolvimento. Organismos financeiros globais – como, por exemplo, o FMI – não mais tinha a legitimidade perante a sociedade internacional, ou seja, era preciso uma nova forma de contenção que atingisse os objetivos esperados. É neste contexto que o G20 financeiro ganha peso no cenário mundial. É verdade que o próprio já existe desde a década de 1990. Entretanto, o G20 não era um fórum multilateral relevante, ou seja, tanto o monopólio das discussões quanto das decisões ainda se concentrava naqueles detentores das principais economias mundiais.

O fortalecimento do G20 no ano de 2008 se refere à inclusão das vinte maiores economias do planeta. Neste sentido, os países emergentes passaram a ter maior destaque nos debates internacionais. Em 08 de outubro de 2008 ocorreu em Washington à primeira reunião extraordinária do fórum, pouco tempo depois do decreto de falência do banco estadunidense Lehman Brothers. “O que estava em jogo, no primeiro momento, era restaurar a confiança dos mercados e das populações na capacidade de resposta das autoridades. Não havia a menor hipótese de apostar em mecanismos de ajustes automáticos pelos próprios mercados.” (SHUTTE,2014, p.143). Nos encontros posteriores, a proposta geral dos principais Estados capitalistas era a maior participação do Estado na economia no sentido de diminuir a instabilidade do sistema financeiro, combatendo os desequilíbrios macroeconômicos juntamente com o aprofundamento da cooperação internacional. O fortalecimento do G20 não apenas elevou a participação das economias emergentes, mas trouxe também novas discussões sobre governança global. A elaboração de políticas públicas exequíveis em âmbito internacional, por exemplo, tornou-se “tarefa posta para os governos, e seu financiamento de forma equilibrada e equânime deixa de ser uma preocupação retórica e meramente acadêmica para ser colocada na ordem do dia” (VIANNA e CINTRA, 2010, p.19). Do ponto de vista da análise de Haas (2010), Shutte aponta:

O G20 se encaixa em duas das quatro tipologias identificadas pelo Haas: o multilateralismo elitista – arranjos exclusivos – e o multilateralismo informal, que dispensa procedimentos formais dos tratados internacionais e por meio do qual os Estados e a OI se colocam de acordo, consensualmente, a respeito da implementação de determinadas medidas e normas. Essa informalidade pode contribuir com o fortalecimento institucional das estruturas formais do multilateralismo clássico ou resultar em um ulterior esvaziamento destas. (SHUTTE, 2014, p.148-149)

Passado os primeiros anos após a eclosão da crise de 2008, o G20 não manteve a mesma importância nas discussões internacionais. Um olhar construtivista, especialmente nos estudos de Wendt, apontaria este enfraquecimento como um desinteresse coletivo dos principais atores internacionais em continuar fortalecendo-o. Vale lembrar que o interesse geral não significa um objetivo homogêneo da comunidade internacional. Na verdade, entendemos este viés coletivo como o conjunto de interesses individuais que se encontram em determinado momento. Esta fase, portanto, se estabelece a partir do período que as incertezas são diminuídas, ou seja, quando os efeitos da crise econômica mundial se tornam menores.

Em resumo, tendo em vista as contribuições de Wendt, Onuf e não menos importante, Haas, a arquitetura financeira internacional pode ser interpretada como resultado da dinâmica de interesses entre os atores internacionais. Esta interação, por sua vez, se estabelece nas relações econômicas globais cuja identidade destes atores é denominada por “capitalista”. Destarte, a criação e o declínio de Bretton Woods ao lado de esforços conjuntos para o aprofundamento da cooperação internacional, ocorrem a partir daquilo que os principais atores capitalistas entendem ser conveniente. É ingênuo compreender a multiplicidade no sistema internacional sem levar em conta a desigualdade de forças, seja ele no âmbito militar, político, econômico e cultural. O fortalecimento do G20, com a transformação da conjuntura global eclosão da crise financeira de 2008, destaca-se como exemplo de uma construção social nas relações internacionais.

No entendimento desta crise econômica como um problema de ordem global, é compreensível interpretar o fortalecimento do G20 financeiro como uma ação coletiva e organizada dos atores internacionais para dissolver os efeitos da crise juntamente com políticas para a superação da mesma. Nas primeiras reuniões do grupo, notam-se estes esforços conjuntos como, por exemplo, maior supervisão do Estado na economia e o aprofundamento em cooperação internacional e incentivo ao setor privado. Portanto, ao observar brevemente a história do sistema financeiro mundial e a conjuntura do fortalecimento do G20, fica evidente, sob a luz do construtivismo, a identificação dos interesses e identidades dos atores internacionais. Assim, essas interações são os objetos a serem estudados ao analisar as dinâmicas e construções sociais destes países. O que, de fato, fica visível, é a análise da arquitetura financeira internacional a partir das interações dos agentes econômicos, ou seja, dos Estados capitalistas. Portanto, as instituições financeiras internacionais e as demais formas de organização, vide fóruns multilaterais, funcionam como facilitadores de um comportamento socialmente apresentado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

CARVALHO, Fernando Cardim de. O retorno de Keynes. Novos estudos. – CEBRAP,  São Paulo,  n. 83, p. 91-101, Mar.  2009·.

HAAS, Richard. The case for messy multilateralism. Financial Times, 05 de janeiro de 2010.

ONUF, Nicholas. Institutions, intentions and international relations. Review of International Studies, v. 28, n. 02, p. 211-228, 2002

SCHUTTE, Giorgio. Romano. Trajetória do G20 e a regulação do poder mundial. Revista Crítica Histórica Ano V, nº 9, julho/2014.

VIANA, André .Rego.CINTRA, Marco, Antônio.G20: os desafios da coordenação global e regulação da regulação financeira. 2010. Disponível em: < .http://ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/boletim_internacional/100621_boletim_internacional01_cap3.pdf  > Acesso em 07 de out.2015

WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International organization, v. 46, n. 02, p. 391-425, 1992.

Gabriel Sandino de Castro é Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia. Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Grande Dourados.

 

Márcio José de Oliveira Júnior é Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia. Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de São Paulo.

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A governança global no século XXI: O caso do G20 financeiro, por Gabriel S. de Castro e Márcio Oliveira Jr.". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 02/09/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/09/02/a-governanca-global-no-seculo-xxi-o-caso-do-g20-financeiro-por-gabriel-sandino-de-castro-e-marcio-jose-de-oliveira-junior/>.

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