Guerra na Síria: a intricada participação da Turquia, por Virgílio Arraes

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Por alguns dias, o mundo acompanhou de maneira entusiasmada os quadrienais jogos olímpicos, realizados a um alto custo no Rio de Janeiro, momento em que quizílias de menor porte entre países expressaram-se apenas nas contendas em estádios e ginásios por medalhas de ouro e, quiçá, por recordes mundiais.

Contudo, nem mesmo a presença de delegações de quase todo o globo pôde interromper a marcha de determinados conflitos como, por exemplo, aconteceu no breve período do Natal ao Ano Novo durante a primeira fase da Primeira Guerra Mundial, onde britânicos e alemães disputaram um jogo de futebol.

O confronto civil sírio ultrapassa meia década de existência e não há sinais de que se possa chegar ao desfecho pacífico no curto prazo com a questão por causa da porfiada divergência entre as diversas agremiações, com séria consequência para a sofrida população, deslocada aos milhões de suas casas ou de suas cidades e sem perspectiva de acolhimento regular por outros países, mesmo no Oriente Médio.

Se os meios de comunicação mais populares criticam de modo veemente a interferência do Kremlin nos assuntos siríacos nos últimos meses, suposto fator de manutenção do conflito, ao cabo de 2008, omitiram-se eles de certa maneira no tocante à atuação da Casa Branca lá por meio de investidas singulares.

A justificativa para os ataques aéreos naquela altura havia decorrido do fato de que a ditadura de Bashar Al-Assad teria permitido ou no mínimo ignorado o ingresso de combatentes estrangeiros no Iraque a partir de suas fronteiras. Por isso, o governo estadunidense decidiu de modo expedicionário punir o sírio.

A atual preocupação de Washington com a circulação desenvolta de Moscou não se limita a Damasco, mas ao próprio leste europeu, onde a gestão de Vladimir Pútin não se acerta com o de Volodymyr Groysman sobre o destino final da Criméia, nem com os de seus antigos membros ao tempo da União Soviética em face da perspectiva de integração otaniana, como é o caso da Letônia, Lituânia e Estônia;

E agora a Istambul, em que Recep Erdogan, após debelar com mão de ferro um inaudito golpe militar de Estado, parece distanciar-se de Bruxelas, a cujo organismo pertence a Turquia há quase seis décadas e meia.

No entendimento do Pentágono, através da dócil Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), haveria a necessidade de deslocar mais tropas para solo báltico e polonês, a despeito do custo financeiro e do fator político de não ter sido ameaçada nem a Casa Branca, nem seus aliados naquela vasta região.

Do ponto de vista diplomático, o último exercício militar seria o reconhecimento à contribuição da Polônia na Guerra do Afeganistão, mesmo modesta, mais simbolizada pela perda de dezenas de combatentes.

De toda maneira, mais de trinta mil efetivos – dos quais quase a metade de enviados norte-americanos – acompanhados de centenas de veículos e dezenas de helicópteros, adestraram-se com o propósito de encarar até ameaças cibernéticas proporcionadas em tese pelo único adversário potencial: a Rússia.

Não seria possível julgar se a medida dos Estados Unidos, ao exercitar-se de maneira castrense com mais de duas dezenas de parceiros, é diversificação momentânea da movimentação, uma vez que Rússia e China comportam-se de forma mais altaneira nas suas imediações nos dias de hoje, ou alteração de fato da política externa, visto que a contenção ao terrorismo tem sido executada satisfatoriamente, malgrado o cerceamento das liberdades civis.

A recente adestração no leste europeu, a despeito da robustez dos membros, não deve atenazar Moscou em seus limites territoriais, mas pode influenciá-lo na condução das negociações com Washington na confrontação síria.

As duas superpotências têm o interesse em corroer o poderio de determinados grupos, considerados para ambos como terroristas – o ramo local da Al-Qaida, sob novel denominação, e o Estado Islâmico.

Eis o objetivo de concertar a atuação conjunta em intensidades distintas, dado que um possui contingentes em solo, ao passo que o outro, não, a menos que seja para o recrutamento e treinamento de voluntários contrários ao duradouro regime baathista.

Nos últimos dias, há o aspecto complicador a um possível desdobrar rumo à paz: a circulação turca na fronteira com aeronaves, tanques e tropas de elite. Seu recém-ingresso na peleja não é por solidariedade a Bashar Al-Assad ou a Barack Obama, nem a trouxe-mouxe, porém com a finalidade de retirar a atenção da população da crise política ainda palpitante, mesmo na eventualidade de que oficialmente sob escusa de resguardar seu perímetro.

Por um lado, Ancara substitui ou até representa, se observado de forma otimista, Washington na desgastante guerra ao rés do chão, haja vista o desestímulo de remeter contingentes depois do fracasso no Iraque e no Afeganistão;

Por outra face, diverge ela de forma substantiva dele ao não tolerar a desenvoltura das milícias curdas, mesmo se opostas de modo férreo aos integristas. Nesse sentido, combates constantes entre eles podem ocorrer sob justificativa de que sem minar o crescimento no lado sírio da etnia, afetar-se-á de maneira negativa o território turco.

Seria outra dimensão conflituosa para a área, de difícil encaminhamento e, por conseguinte, de solução para os trinca administrativa norte-americano relacionada com aquela região: Departamento de Estado e, em especial, Pentágono e CIA.

Nenhuma das opções do destino futuro da Síria postas à mesa para a apreciação da Turquia a satisfaz: Partido Baath, Califado ou Partido de União Democrática, vinculado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão, chancelado como organização terrorista pela burocracia estadunidense e turca.

No entanto, não há convergência sobre quem seria a oposição ‘legítima’ à ditadura ou por ela reconhecida – os chamados em termos gerais de rebeldes – com o fito de preservá-la das rigorosas investidas russas contra os extremistas.

A instituição do cessar-fogo contribuiria para novos delineios entre os três atores externos e os inúmeros internos envolvidos, a incluir a preservação permanente de locais humanitários, com o propósito de amenizar o sofrimento dos civis.

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Guerra na Síria: a intricada participação da Turquia, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 31/08/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/08/31/guerra-na-siria-a-intricada-participacao-da-turquia-por-virgilio-arraes/>.

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