Os desafios do Reino Unido no contexto de saída da União Europeia, por Bruno Theodoro

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Os resultados do referendo realizado em junho passado no Reino Unido transformaram o cenário político nacional e regional do país. Com a expressiva participação de 72% dos eleitores britânicos, 52% dos votantes decidiram que o país deve deixar a União Europeia (UE), terminando um relacionado iniciado em 1973. Esta não foi a primeira vez que os britânicos se debruçaram sobre essa questão. Em 1975, um referendo sobre o mesmo tema foi realizado no Reino Unido, todavia o número eleitores que apoiaram a saída foi menos expressivo, 32%.

Os resultados das urnas apresentaram um país dividido não somente por regiões, mas também por níveis etários e educacionais. Enquanto o interior da Inglaterra e o País de Gales votaram pela saída, Escócia, Irlanda do Norte e Londres votaram pela permanência. Ao passo que jovens e pessoas com maior nível educacional tenderam a optar por continuar na UE, os mais velhos e pessoas com menor qualificação profissional tenderam a escolher a saída.

A vitória do voto por deixar a UE imediatamente levou à renúncia do premiê britânico David Cameron e à sua rápida substituição pela sua Secretária de Assuntos Internos, Theresa May. Embora tenha se posicionado ao longo do referendo favorável à manutenção do país na União Europeia, May mostrava-se favorável à redução do número de imigrantes recebidos pelo Reino Unido nos últimos anos. A segunda mulher a exercer o cargo outrora ocupado pela “dama de ferro” Margaret Thatcher inaugurou seu mandato com um discurso de que “Brexit quer dizer Brexit”, reduzindo as chances dos insatisfeitos com o resultado das urnas de realização de um novo referendo ou mesmo de desconsideração dos resultados das urnas pelo parlamento, tendo em vista sua natureza consultiva. A nomeação de um secretário exclusivo para as negociações com a UE e a escolha do polêmico ex-prefeito de Londres Boris Johnson para Secretário de Assuntos Exteriores indicam que os setores políticos que apoiaram a saída da UE ocuparão um lugar destacado neste novo governo.

Os primeiros passos da gestão de Theresa May mostram os grandes desafios que seu mandato terá. Antes de negociar uma saída da UE, May deverá garantir a unidade do país frente aos resultados do referendo, trazendo para a negociação representantes da Escócia e da Irlanda do Norte, os quais preferiam se manter na UE. Uma saída mal negociada da UE pode fazer com que a Escócia realize uma nova versão do referendo de independência realizado em 2014. Muitos eleitores escoceses naquele momento preferiram continuar parte do Reino Unido justamente por este ser um Estado-membro da UE. Além disso, uma negociação que não leve em consideração a questão da Irlanda pode fazer com que barreiras novamente separem a Irlanda do Norte (parte do Reino Unido) da República da Irlanda, gerando o renascimento do conflito irlandês, estabilizado no final dos anos 1990.

As primeiras viagens internacionais da nova primeira-ministra para a Alemanha e França buscam dar o tom de prioridade às negociações do ‘Brexit’. Theresa May informou aos líderes europeus que somente acionará o artigo 50 do Tratado da União Europeia – referente à saída de Estados-membros do bloco – no final deste ano ou início de 2017, quando o país consolidará uma posição para negociar os termos da saída. Até lá, temas como restrição aos imigrantes europeus, direito dos britânicos residentes nos países europeus, acesso comercial ao mercado europeu e manutenção dos benefícios do centro financeiro de Londres deverão estar em pauta nas discussões políticas britânicas.

As negociações não serão fáceis para ambos os lados e devem levar cerca de dois anos para serem concluídas. Enquanto o governo britânico vai buscar a melhor negociação possível, reduzindo a entrada de imigrantes no país e garantindo livre acesso comercial à UE, os líderes europeus buscarão uma saída rápida e com o mínimo de concessões possíveis, procurando abafar as chances de um efeito dominó para outros países insatisfeitos com a integração europeia.

Resta saber qual será o lugar do Reino Unido no mundo assim que concretizada sua saída da UE. Embora os partidários do ‘Brexit’ tenham defendido que o país teria mais liberdade em negociar com grandes potências internacionais ao sair da UE, o fato do país deliberadamente se afastar do maior bloco comercial e político do mundo na realidade dá um sinal contraditório sobre o futuro papel do Reino Unido como um ator global de maior relevância. No plano dos valores, a saída britânica sem dúvidas representa o maior golpe sofrido na história da integração europeia, caracterizada por sucessivas adesões dos países do sul e do leste da Europa. Pela primeira vez, um Estado-membro decide, ao contrário, sair do bloco e retomar sua “carreira solo”.

Bruno Theodoro Luciano é doutorando em Ciência Política e Estudos Internacionais, Universidade de Birmingham, Reino Unido. Foi pesquisador Konrad Adenauer em Estudos Europeus na FGV.

 

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