Belarus-Brasil: Sveta em Paraty, por Paulo Antônio Pereira Pinto

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No idioma russo, nomes de pessoas costumam ser citados por apelidos. Assim, Alexandre ou Aleksandra atendem por Sasha, no masculino e feminino. Catarinas são chamadas de Kátias e Tatianas de Tatis. Svetlana Alexievich, a escritora nacional da Belarus, vencedora do Nobel de Literatura em 2015, que veio a Paraty, no início de julho, responde por Sveta – o que muito facilitaria a nós, da torcida do Flamengo, pela dificuldade que temos de pronunciar grafias estrangeiras.

No Brasil, sua presença foi mencionada com toda a complexidade de sua pronúncia, por extenso. A meu ver, contudo, o conteúdo de sua obra foi simplificado, nos noticiários a que tive acesso, ou não houve interesse em analisá-lo melhor.

Na condição de Embaixador do Brasil em Minsk, convidei Sveta para almoço,  antes de sua viagem à FLIP, buscando oferecer-lhe préstimos, para eventuais providências adicionais à organização de sua viagem – já então cuidada pela editora alemã responsável – bem como informá-la sobre particularidades brasileiras, distintas do universo político-social, que ela tão bem conhece e critica com disposição e facilidade.

Cabe mencionar, inicialmente, que Sveta não é “russa”. Nasceu na Ucrânia, na cidade de Stanislaviv, que pertencera à Polônia e foi incorporada à URSS, em 1939. Seus habitantes foram vítimas, sucessivamente, de atrocidades de tropas nazistas e do exército vermelho. Seu pai bielorrusso combatera nacionalistas ucranianos e sua mãe ucraniana lhe ensinara sobre as fomes devastadoras na Ucrânia, como resultado da coletivização forçada da agricultura, imposta por Stalin, naquele país, cujo “sucesso” havia sido alardeado como “vitória do sistema socialista em vias de ser implantado na União Soviética”.

A catástrofe da fome resultante da coletivização forçada da agricultura e os massacres da Segunda Guerra seriam determinantes na formação da geração da escritora bielorrussa agora premiada com o Nobel. Isto é, as duas calamidades foram, em suas respectivas épocas, cercadas por mitos sobre o “sucesso do processo soviético”, enquanto a população sofria terríveis sacrifícios.

A escritora, portanto, tem o firme propósito de contribuir para que não se prossiga na retórica de que sacrifícios de gerações se justificariam, em função de sucessos de “um futuro que não chegaria nunca”.

É possível, portanto, afirmar que Sveta é uma “escritora e cidadã soviética”, na medida em que seus cinco livros, em estilo peculiar, são compostos por crônicas de catástrofes  ocorridas na URSS. Cada um contém conjunto de entrevistas com centenas de vítimas de fracassos soviéticos: mulheres combatentes durante a Grande Guerra Patriótica e esquecidas ou perseguidas por Stalin, ao fim do conflito; o sofrimento dos soldados da URSS durante a guerra no Afeganistão; o desastre de Chernobyl – que a propósito fica mais próxima de Minsk, Belarus, do que de Kiev, Ucrânia; e o colapso da União Soviética.

Sveta reiterou, durante nosso almoço, que acredita na “não ficção” como gênero mais adequado em nossos tempos. Na medida em que “temos experimentado fatos que não apenas transcendem nosso conhecimento, como excedem nossa habilidade de imaginar”. Costuma citar como episódios “além da imaginação” o acontecido “com as Torres Gêmeas”, em Nova York, e o acidente nuclear de Chernobyl.

Logo no início de nossa conversa, foi possível verificar, no entanto, que, mesmo tendo vivido, como exilada política, doze anos na Europa Ocidental – Suécia, Alemanha e Itália – só é capaz de se expressar em russo – pouco no idioma bielorrusso – e que seu acompanhamento do que se passa no resto do mundo resume-se a episódios gritantes como o de 11 de setembro, em NY, e o recente ataque terrorista em Paris.

Assim, Sveta formulou-me, inicialmente, a pergunta sobre como são os “vilarejos” no Brasil. Respondi, colocando em perspectiva a natureza de nossa colonização por Portugal, o apego histórico a núcleos litorâneos em função de atividades de extração mineral e vegetal, levando a conversa à grande conquista que foi a construção de Brasília. Procurei desviar seu foco da forma como a ocupação territorial foi feita, através dos séculos, na Europa Oriental, onde a autora concentra a atenção de suas obras. Desnecessário registrar que ela ignorava o idioma que falamos, nos associando ao castelhano.

Ao me referir a sua convicção de que “we live among shadows, among the impossible and the unrealized” efetuei a costumeira dissertação sobre o “otimismo de nossa gente, a paixão por celebrações carnavalescas e por esportes”, enquanto somos capazes de grandes feitos na indústria aeronáutica e agropecuária, por exemplo. A visitante limitou-se a mencionar que “também os soviéticos se julgavam o povo do futuro”.

Sempre em tom de perfeita cordialidade e descontração que  permeou nossa conversa, citei trecho de entrevista que ela concedera, logo após a notícia da concessão do Nobel de Literatura, na qual afirma ” I belong to a culture that has a degree of painful temperature. Something that is incomprehensible and unberable in other culture is a normal condition for us. We live in it, this is our environment. All the time we live among victims and executioners. Every family can tell you this novel of pain. And it’s not that I have this point of view or that I like how people think in such situations. No, it is our life. I myself have been wondering who we are, why our suffering cannot be converted into freedom. It is an important question for me. Why do we change our freedom into material benefits or to fear as we did earlier”.

Mencionei, então, a visão favorável que tenho tido da Belarus, em virtude da hospitalidade como as pessoas nos recebem. Agreguei a simpatia como a cooperação cultural com o Brasil vem sido acolhida em Minsk. Lembrei as duas versões já realizadas do projeto de intercâmbio em arte urbana (“street art”) – o Vulica Brasil (Rua Brasil) – que voltará a ser realizado em setembro próximo. A propósito, Sveta mencionou que, perto de onde mora, um prédio havia sido pintado por artista brasileiro, com cores vivas, quebrando a monotonia do cinzento da área. Congratulou-me pelo projeto.

Na sequência, citei o apreço local pela capoeira, como em outros países da Europa Oriental. Voluntariei minha opinião de que, sendo artes marciais valorizadas, naquela parte do mundo, nossa manifestação cultural, lá também praticada como dança por grupos exclusivamente de jovens bielorrussos, sob a orientação de mestres brasileiros que regularmente visitam a Belarus, tem sido bem aceita por permitir improvisações e diálogo, na execução de seus movimentos, entre os participantes. Tal manifestação de liberdade seria, a meu ver, a justificativa da adoção desta “soft power” brasileira, por povos oprimidos por várias décadas de autoritarismo soviético.

No que diz respeito aos períodos e fatos objetos de seus livros, cabe reiterar que aconteceram durante a vigência da União Soviética. Vale lembrar que a autora afirma serem suas críticas destinadas a “evitar que erros e malfeitos daquela Era viessem a ser utilizados como matéria prima para justificar o renascimento de um futuro glorioso de novos regimes autoritários”.

Conforme já mencionado acima, foi a coletivização da agricultura, determinando a expulsão de grande parte da população do campo, que criou o processo de urbanização da URSS, vivenciado pela geração de Sveta – daí, inclusive, a primeira pergunta que a visitante me fez, durante o almoço que lhe ofereci, ter sido a relativa a “como são os vilarejos no Brasil”. Deixava claro, a partir de então, que sua visão de mundo era fortemente condicionada por experiências de sua geração, forçada a mudar-se do campo para centros urbanos que, apesar de pequenos, representavam grandes alterações em seus ambientes familiares e relações sociais mais abrangentes.

Nessa perspectiva, cabe notar que, na região ocidental da União Soviética, que Sveta melhor conheceu, a vida urbana não era novidade apenas para alguns, mas para todos – reitera-se, pela migração forçada e maciça provocada pela coletivização da agricultura, bem como pelos massacres sucessivos das populações das cidades, pela guerra, Holocausto e posteriores deportações pelo regime estalinista. Cidades vazias foram, então, ocupadas por pessoas vindas forçadamente do campo, não apenas de áreas vizinhas, mas de diferentes regiões da União Soviética.

Minsk, capital da Belarus Soviética, tornou-se talvez o maior exemplo de “cidade pós-guerra”, em consequência do genocídio de seus cidadãos judeus, pelos nazistas, e posterior massacre dos que falavam o idioma bielorrusso, pelos agentes de Stalin. Esta cidade continua a ser denominada a “capital da nostalgia soviética” – injustamente, a meu ver, visto sua moderna infraestrutura, vida cultural e bons serviços de abastecimento e assistência médica, entre outros. O epíteto justificar-se-ia, no entanto, no que diz respeito às restrições de liberdade política.

Incluída nesse fluxo migratório, Sveta chega a Minsk e começa a trabalhar como jornalista, em idioma russo. Sua produção literária, iniciada na década de 1980, trata de temas relativos à realidade soviética, conforme já mencionado. Segundo consta, duas de suas obras, “Vozes de Chernobyl” e”A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, estão sendo publicadas no Brasil.

“Vozes de Chernobyl” tem sido considerado o livro melhor conhecido de Sveta. Trata de desastre em usina nuclear na Ucrânia, próxima à Belarus, em 1986. A autora acusa as autoridades soviéticas de omissão, deixando de esclarecer devidamente a população sobre o enorme perigo do acidente, levando muitas pessoas, da mesma forma que agiram durante a Segunda Guerra Mundial, a esconderem-se nas florestas, “esperando que o perigo passasse”, enquanto se contaminavam com a radiação.

Em declaração à imprensa brasileira, a propósito, Sveta declarou que “histórias de guerras, desastres ambientais e outras tragédias se aproximam de mim, de você, de todos nós”. “A diferença de Tchernóbil é que aquela tragédia foi causada pelo desejo do homem em criar uma nova ciência e um novo sentimento. Por querer criar um mundo novo, caminham para a destruição. Se os heróis que contiveram o fogo após a explosão não tivessem sido bem-sucedidos, toda Europa seria tomada pela catástrofe”. Este livro trata, em grande parte, do relato de heróis e vítimas relacionados com a tragédia.

Registro que, assim como centenas de milhares de crianças bielorrussas, funcionários locais de nossa Embaixada em Minsk – logo após o acidente – tiveram que ser evacuados, por dois anos, para países vizinhos, como Espanha e Itália, entre outros, para tratamento contra efeitos da radiação de Chernobyl.

No que diz respeito a seu livro “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, completado e censurado em 1983, e publicado apenas em 1985, com a abertura proporcionada na URSS, pela “perestroika”, a autora descreve que “mais de um milhão de mulheres soviéticas combateram na Grande Guerra Patriótica” (Segunda Grande Guerra, para os ocidentais). Elas tinham idade entre 15 e 30 anos. Participaram de diferentes ações de combate, como pilotos, motoristas de tanques, operadoras de metralhadoras, atiradoras de elite, e outras. “Ao contrário de guerras anteriores, não foram apenas médicas e enfermeiras”.

Ao término do conflito, contudo, “os homens esqueceram-se do papel decisivo dessas mulheres, roubando-lhes a vitória”. Sveta, portanto, recupera a importância das combatentes femininas, utilizando seu método de entrevistas com milhares de veteranas. Evidencia, assim, fatos cuja narrativa vinha sendo omitida ou ignorada. Segundo a escritora, “homens exaltavam seu próprio heroísmo, enquanto mulheres falavam sobre outros temas. Por exemplo, a respeito do horror que era caminhar através de um campo de batalha coberto por corpos de soldados mortos, como se fossem sacos de batatas, todos muito jovens. Havia um sentimento de tristeza, quanto a russos e alemães”. Após o término da guerra, “mulheres escondiam suas identidades, medalhas e certificados de ferimento, porque seu passado poderia atrapalhar futuros casamentos”.

Em conclusão, seria cabível mencionar histórica crítica narrada sobre o período soviético, quando “olimpíadas do jogo de xadrez” eram disputadas por correspondência. Tendo em vista a demora típica dos serviços de correio daquela época, o movimento de um competidor, transmitido ao outro, por carta, demorava anos, prolongando cada partida, a ponto de que – segundo a narrativa – alguns dos jogadores virem a morrer, antes da conclusão da disputa. Países, como a URSS e a RDA, teriam deixado de existir durante o andamento de alguns torneios.

Há quem diga, nessa perspectiva, que os selecionadores do Prêmio Nobel de Literatura, no ano passado, teriam atuado com a mesma lentidão do serviço postal vigente durante a Guerra Fria, a ponto de só terem – finalmente, após 25 anos de extinção da URSS – agraciado uma escritora soviética: Svetlana Alexievich – que podemos chamar de Sveta.

 

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata, Embaixador do Brasil em Minsk, Belarus, a partir de 2015. Foi  Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul (ERESUL), entre 2012 e 2014,  Embaixador do Brasil em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012, e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009. Serviu, a partir de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África,  nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul.  As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores.

 

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Belarus-Brasil: Sveta em Paraty, por Paulo Antônio Pereira Pinto". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 09/07/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/07/09/belarus-brasil-sveta-em-paraty-por-paulo-antonio-pereira-pinto/>.

 

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