Estado Islâmico: Reorientação Estratégica, Expansão ou Táticas Diversionistas?, por Marcos Degaut

As recentes e seguidas derrotas militares do grupo terrorista Estado Islâmico (EI ou Daesh) nos conflitos civis na Síria e no Iraque, resultando em importantes perdas territoriais, têm levado aquela organização a deflagrar um conjunto de iniciativas que emitem sinais em três possíveis direções, as quais, longe de serem contraditórias, possuem natureza complementar: um redirecionamento estratégico de suas atividades para o norte da África e para a região do Sahel,  a inclusão de Líbano e Israel na esfera de abrangência geográfica do pretendido califado do Daesh, e a adoção de manobras diversionárias, com o objetivo de atrair novos membros e impulsionar o moral do grupo.

Recentemente, o EI desencadeou ampla campanha midiática de suporte às atividades de uma de suas entidades afiliadas no Egito, o Província do Sinai, atualmente o grupo insurgente mais ativo – e perigoso – naquele país. Previamente conhecido como Ansar Beit al-Maqdis (Apoiadores de Jerusalém), o movimento islamita alterou seu nome após jurar fidelidade ao EI em novembro de 2014.

Desde então, o Província, que conta com cerca de 1500 militantes, tem empreendido série sistemática de ataques contra o governo egípcio, com o objetivo de tomar o controle da Península do Sinai e torná-la parte do califado do Daesh. Suas crescentes ações incluem a derrubada, em outubro de 2015, do jato da empresa russa Metrojet sobre o deserto do Sinai, causando a morte de todos os 224 passageiros, e ataques quase diários contra turistas estrangeiros, tropas militares, forças de segurança e prédios do governo em Cairo. Em apenas duas semanas, em março deste ano, essa organização conduziu mais de 31 ataques com o apoio do EI.

As atividades conjuntas do EI-Província do Sinai levaram o governo egípcio a declarar estado de emergência na região, a qual é considerada estratégica pelos terroristas, por representar uma via de acesso à Palestina, a partir do qual ataques poderão ser desferidos contra Israel. Ademais, informes de inteligência e vídeos divulgados pelo próprio EI alertam para a possibilidade de que o território israelense possa sofrer ataques terroristas a partir do Sinai, com o uso de artilharia e tanques, hipóteses seriamente consideradas pelas Forças de Defesa de Israel.

Na perspectiva desses dois grupos, a derrocada do movimento islamita Irmandade Muçulmana no Egito, com a destituição do Presidente Mohamed Morsi em julho de 2013 e sua substituição por um governo militar de natureza secular e pouco apelo popular, liderado pelo General Abdel Fatah el-Sisi, geraram um vácuo de poder e uma instabilidade social e institucional bastante adequada a seus intentos insurgentes.

Essa situação, aliada à grave crise econômica atravessada pelo país e à forte repressão política comandada por Sisi, formam uma mistura explosiva propícia para a cooptação de novos quadros radicalizados, para o fomento ao conflito assimétrico e, eventualmente para o desencadeamento de manobras bélicas de larga escala contra o governo egípcio, chamado de “apóstata” e de “colaborador” de Estados Unidos e Israel.

As bem-sucedidas operações do EI-Província já alcançaram a região do Deserto Ocidental do Egito, que se tornou importante área de treinamento e recrutamento, devido à sua proximidade com a Líbia, onde o Daesh tem gradativamente consolidado sua presença e poder. Nesse sentido, suas movimentações parecem indicar uma reorientação estratégica para o Norte da África e para a região do Sahel, na medida em as forças de coalizão lideradas pelos EUA – além dos ataques lançados pela Rússia – conquistam territórios na Síria e no Iraque.

Assim, a partir da Líbia, que pode se tornar seu novo “quartel-general”, o Estado Islâmico aparentemente planeja ofensivas contra estados considerados “ocidentalizados” e já fragilizados pela luta contra o terrorismo, como Argélia, Marrocos e Tunísia – sendo este último o maior “fornecedor” de combatentes, os mujahideen, para o EI no conflito sírio –, e contra os estados muçulmanos falidos do Sahel, a imensa zona de transição biogeográfica e ecoclimática entre o deserto do Sahara e a fértil região subsaariana, e que se estende do Mar Vermelho ao Oceano Atlântico, englobando Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Chad, Sudão, Sudão do Sul e Senegal. Trata-se de uma das áreas mais diversas culturalmente, linguisticamente e etnicamente da África, unida apenas, em algum grau, pelo islamismo e marcada pela pobreza extrema, por guerras civis e pelo terrorismo.

Já um ataque ao Estado libanês não se apresenta factível no momento, visto que isso implicaria a abertura de uma nova frente de combate contra o Hizballah, atualmente a principal força de defesa do regime do ditador Bashar al-Assad em território sírio. De inspiração xiita, o libanês Hizballah, também considerado um grupo terrorista pelos Estados Unidos e a maioria dos países europeus, embora se denomine “movimento de resistência”, é ativamente suportado com recursos logísticos, financeiros, humanos e materiais pelo Irã.

Nesse sentido, são reduzidas as possibilidades de que venham a ser perpetrados ataques contra o Líbano e Israel no curto prazo, em um contexto de escalada bélica. As ameaças do EI parecem se configurar mais como um exercício de retórica, para desviar a atenção de seus sucessivos fracassos militares na Síria e no Iraque, com o benefício adicional de inspirar seus quadros e atrair novos recrutas.

Maior a credibilidade, porém, das ameaças de se realizarem atentados no Reino Unido, Alemanha, Itália e, mesmo, Brasil divulgadas pelo Daesh, em virtude da absoluta imprevisibilidade e elevada carga simbólica de tais ações em locais com grande apelo midiático e, com exceção do caso britânico, precária capacidade de prevenção.

De toda sorte, as recentes iniciativas do EI não apenas ressaltam a importância do Sinai e do Norte da África em sua campanha para estabelecer um califado em toda aquela região, como também enfatizam o elemento propagandístico como variável central em sua estratégia. Resta saber como os países envolvidos mais diretamente no combate a essa ameaça irão interpretar e reagir a esses acontecimentos.

Marcos Degaut, Doutor em Segurança Internacional, Professor Adjunto na University of Central Florida e Co-Presidente do Instituto Kalout-Degaut de Política e Estratégia (mdegaut@hotmail.com).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Estado Islâmico: Reorientação Estratégica, Expansão ou Táticas Diversionistas?, por Marcos Degaut". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 10/06/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/06/10/estado-islamico-reorientacao-estrategica-expansao-ou-taticas-diversionistas-por-marcos-degaut/>.

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