A economia chinesa no pós – crise de 2008: desaceleração econômica e desequilíbrios econômicos, por Rafael Manzi

Um dos fenômenos de maior impacto da economia mundial nas três últimas é ascensão econômica da China. Enquanto no período, entre 1990 e 2008, a economia mundial cresceu em uma média anual de 3,6%, o crescimento econômico da China no mesmo período foi em média de 10,3% ao ano. Mesmo quando comparado ao crescimento do grupo das economias emergentes e pobres, o desempenho da economia chinesa continua bem superior. O despertar econômico do gigante asiático a partir do início da década de 1980 tem causado profundas alterações nas dinâmicas da economia mundial. A participação da China no PIB mundial (medido por paridade de poder de compra), por exemplo, saltou de 2,3% em 1980 para 17,2% em 2015.   A magnitude da taxa de crescimento econômico da China nos últimos 25 anos pode ser observada na Figura 1.

grafico rafael

 

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Sobre a lista dos países que compõem os grupos ver FMI. Disponível em: https://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2016/01/weodata/weoselgr.aspx Acesso: 24 mai. 2016.

A aceleração das taxas de crescimento econômico na China nas três últimas décadas decorreu da combinação de fatores domésticos (reformas econômicas pró-mercado, bônus demográfico, elevação das taxas de urbanização e crescimento da produtividade) e de variáveis externas (expansão do comércio internacional, abundância de capitais internacionais e o surgimento de desequilíbrios nos Estados Unidos e Europa que aumentaram a demanda interna por bens importados). Entretanto, a partir de 2008 houve uma importante inflexão dentro do sistema internacional com o início da crise econômica nos Estados Unidos. A média de crescimento da economia mundial, entre 2001 e 2007, foi de 4.3% ao ano. Em contraposição, no período a partir do início da crise econômica, entre 2008 e 2015, houve uma retração média do crescimento econômico para patamares próximos de 3,2% ao ano, ou seja, uma redução de aproximadamente 25% do crescimento econômico entre os dois períodos analisados. Desde 2009, diversas hipóteses são discutidas entre os economistas sobre os fatores que explicam a redução das taxas de crescimento econômico global no contexto pós crise de 2008 (para um resumo dessas perspectivas ver Teulings (org.); Baldwin (or.g), 2014; Summers, 2016).

O desempenho da economia chinesa no contexto pós-crise de 2008 pode ser dividido em dois períodos distintos. Em uma primeira fase, apesar da recessão global de 2008 e 2009, o crescimento econômico da China se manteve próximo aos níveis registrados nos anos anteriores com o PIB chinês tendo um crescimento médio anual de 9.7% entre 2008 e 2011. Na segunda fase, se inicia uma desaceleração mais aguda da economia chinesa. O crescimento do PIB declinou para 7.7% em 2012 e 2013, 7.3% em 2014 e 6.9% em 2015, menor taxa de crescimento econômico desde 1990.

A redução do crescimento econômico na China no curto prazo não significa que a economia chinesa está entrando em colapso. Pelo contrário, como observou o relatório de consultas mútuas entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o governo chinês  “China is transitioning to a new normal, with slower  yet safer and more sustainable growth” (FMI, 2015). Esse é um processo natural em virtude de dinâmicas decorrentes da própria economia, crescimento da renda e demografia do país: (1) o período chamado de “bônus demográfico” está chegando ao fim em virtude da redução do crescimento e do envelhecimento da população chinesa. Assim, a queda do número de pessoas em idade produtiva reduz naturalmente a produtividade da economia do país (Babones, 2015), (2) a economia da China está em uma transição para uma maior participação do setor de serviços em detrimento do setor industrial. A redução da participação da indústria na economia chinesa contribui naturalmente para a desaceleração econômica em virtude dos índices de produtividade do setor de serviços ser menor em comparação ao setor industrial (Johansson, 2012), (3) ao ter elevadas taxas de crescimento econômico nas últimas décadas a China se tornou um país de “renda média”. Quando um país alcança o nível de renda média a produtividade da economia reduz naturalmente. De acordo com Eichengreen (2011), quando a renda per capita em paridade de poder de compra de um país atinge o montante de US$ 15.100 (a renda per capita em PPC da China atinge esse total no fim de 2016) o crescimento econômico se reduz em média de 5,6% para 2,1%.

Essas dinâmicas sugerem que uma redução da taxa de crescimento na China para patamares próximos de 6% (índice de crescimento que o governo busca alcançar no curto e médio prazo) é um fenômeno natural. Entretanto, como destacou Balbones (2015, 2016) diversos indicadores econômicos corroboram com a perspectiva de que a economia da China cresce abaixo das projeções oficiais divulgadas pelo governo desde 2015. Ou seja, o crescimento real da economia chinesa está perto de 4%, ou menos do que isso ainda. Essa desconfiança acerca dos reais índices de crescimento do PIB ocorre em virtude do consumo de diversos bens e insumos de capitais estarem diminuindo nos últimos anos o que indica uma desaceleração econômica mais acentuada (hard landing).

Além disso, O surgimento dos desequilíbrios macroeconômicos na China no contexto pós – 2008 decorreram principalmente das políticas econômicas adotadas pelas autoridades econômicas do país. Apesar dos elevados índices de interdependência da economia chinesa com o mundo, o país conseguiu minimizar os efeitos negativos da redução da demanda em nível global por meio da adoção de políticas domésticas que expandiram o crédito, investimento e consumo doméstico. Antes mesmo da primeira reunião de cúpula dos chefes de governo do G20 financeiro, em novembro de 2008, o governo chinês anunciou diversas medidas econômicas para reduzir os impactos da crise econômica na economia do país.

Essas medidas, anunciadas em setembro de 2008, incluíram um pacote de estímulo fiscal de 4 trilhões de renminbi (US$ 586 bilhões) para serem investidos na construção civil e setores de infraestrutura (rodovias, ferrovias e aeroportos), saúde, educação, meio ambiente e inovação tecnológica. Ademais, as autoridades monetárias induziram o setor financeiro a políticas de relaxamento para a concessão de empréstimos o que aumentou a capacidade do setor bancário em conceder empréstimos e financiamentos para empresas do setor público e privado. Como resultado dessas ações do governo chinês houve um crescimento adicional dos empréstimos bancários em 2009, de 7,4 trilhões de renminbi. Essa expansão dos empréstimos bancários foi aproximadamente três vezes superior ao crescimento dos empréstimos registrados em 2008 (Lardy 2012).

Os estímulos fiscais e monetários impetrados pelas autoridades chinesas surtiram efeito e reduziram consideravelmente os impactos da crise global de 2008 sobre a economia do país. Todavia, as políticas anti-cíclicas aprofundaram os  desequilíbrios entre consumo e investimento economia da China. A expansão do crédito e dos empréstimos foram canalizados maciçamente para a realização de investimentos em infraestrutura e no setor imobiliário. A taxa de investimento na China, por exemplo, saltou de uma média anual de 41,1% do PIB, entre 2003 e 2008, para 46,2%, entre 2009 e 2015. Esse quadro exacerbou o desequilíbrio entre consumo e investimento na China. (Mckay; Song, 2012).

Uma conseqüência direta do crescimento da taxa de investimento é que a expansão da capacidade de oferta do setor industrial ocorreu sem o crescimento da demanda interna e externa. Como resultado desse processo houve um declínio da taxa de utilização do setor industrial na China. Relatório da Câmara de Comércio da União Europeia na China comparou a taxa de utilização em 6 setores industriais da China entre 2008 e 2014. Os resultados apontaram que houve queda na taxa de utilização de todos os setores industriais analisados (aço, alumínio, cimento, refino, vidro plano e papel). No caso do setor imobiliário, a queda na vendas de novos imóveis e o crescimento dos investimentos imobiliários gerou um descasamento entre oferta e demanda na construção e vendas de novas casas (Yongding, 2016). Como pontuou Chen (2016, p. 16),

In 2014, new property sales fell by 7.6 percent in volume and by 6.3 percent in proceeds, down from increases of 17.3 percent and 26.3 percent, respectively, in 2013. To make matters worse, the real estate market is now suffering from an excess of supply. At the end of 2014, China had around 75 billion square feet of new property space either under construction or ready to be occupied; even if demand were to remain steady, it would likely take more than five years to sell all that space. In fact, demand will probably dip.

As políticas de expansão do crédito e de empréstimos tiveram impactos também sobre o crescimento das dívidas na China. O  Mckinsey Global Institute aponta que as dívidas dos setor público e privado da China cresceram de US$ 7.4 trilhões em 2007, para US$ 28.2 trilhões no segundo semestre de 2014. Quando esses valores são baseados no percentual do PIB houve um crescimento desses montantes de158% do PIB em 2007 e 282% em 2014.  O crescimento das dívidas decorreu principalmente em virtude do aumento dos débitos das instituições financeiras (24% do PIB em 2007 para 65% em 2014) e das empresas não financeiras (72% do PIB em 2007 para 125% em 2014).

A combinação entre crescimento de dívidas do setor público (principalmente empresas estatais) e privado, redução da utilização da capacidade instalada na indústria e excesso de oferta do setor imobiliário é uma redução natural das taxas de lucro das empresas do país e um crescimento da inadimplência. Assim, por exemplo, o crescimento das dívidas no setor privado da China traz riscos para a estabilidade do país à medida que o crescimento da inadimplência de empréstimos concedidos ao setor público e privado não são honrados.  Relatório da Pwc (2016) indica um crescimento da inadimplência nos últimos anos. Nos nove primeiros meses de 2015 a inadimplência atingiu 343 bilhões de renminbi, valor que é superior ao registrado durante os doze meses de 2014 (251 bilhões de renminbi).

O que parece ficar cada vez mais claro é que o modelo de crescimento econômico chinês tornou-se demasiadamente desequilibrado no contexto pós-crise de 2008 em virtude do excesso de investimentos em detrimento do consumo. A redução do crescimento econômico na China será um evento natural nas próximas décadas com a continuação de mudanças demográficas na sociedade chinesa. Entretanto, as chances de uma desaceleração mais acentuada (hard landing) na China no curto prazo persistem e são maiores com a continuidade desequilíbrios econômicos como:  excesso de capacidade do setor industrial e imobiliário, elevado endividamento do setor privado e empresas estatais e riscos de insolvência do setor financeiro em virtude do crescimento da inadimplência. Embora as dívidas contraídas pelas empresas e consumidores do país sejam predominantemente em moeda local, o que reduz o risco de descasamento cambial, o país poderá enfrentar uma forte desaceleração econômica nos próximos anos, já que, a redução abrupta da taxa de investimento irá afetar negativamente a própria demanda da economia chinesa. Nesse sentido, um dos principais desafios das autoridades chinesas até o fim da década de 2010 será promover uma reforma da economia do país com o crescimento do PIB sendo puxado principalmente pelo aumento do consumo doméstico.

Referências

BALBONES, Salvatore. China hits the wall. Foreign Affairs, August 16, 2015.

_______. How weak is China? Foreign Affairs, January 31, 2016.

BANCO MUNDIAL. World Integrated Solution. 2016. Disponível em: http://wits.worldbank.org/CountryProfile/en/Country/CHN/Year/2009/Summary Acesso: 28 mai. 2016.

CHEN, Zhiwu. China’s Dangerous Debt. Why the Economy Could Be Headed for Trouble. Foreign Affairs, Vol. 94, No. 3 (May/June), 2015.

EUROPEAN UNION CHAMBER OF COMMERCE IN CHINA. Overcapacity in China. An Impediment to the Party’s Reform Agenda. Disponível em: www.europeanchamber.com.cn. Acesso: 20 mai. 2016.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Staff Report for the 2015 Article IV Consultation. Washington: IMF, 2015 (IMF Country Report n. 15/234).

LARDY, Nicholas R. Sustaining China’s Economic Growth After the Global Financial Crisis. Washington: Peterson Institute for International Economics, 2012.

MACKAY, Huw; SONG, Ligang. Rebalacing the Chinese Economy to Sustain Long-Term Growth. In: MACKAY, Huw; SONG, Ligang. Rebalancing and Sustaining Growth in China. Camberrra: The Australian National University, 2012.

MCKINSEY GLOBAL INSTITUTE. Debt and (not much) deleveraging. London: Mckinsey & Company, 2015.

SUMMERS, Lawrence H. The Age of Secular Stagnation. Foreign Affairs, Vol. 95, No. 2. (march/april 2016).

TEULINGS, Coen; BALDWIN, Richard. Secular Stagnation: Facts, Causes and Cures. London:Centre for Economic Policy Research, 2014.

YONGDING, Yu. China’s Next Stimulus. Project Syndicate, March 24, 2016. Disponível em: https://www.project-syndicate.org/commentary/china-structural-reform-fiscal-stimulus-by-yu-yongding-2016-03 Acesso: 25 mai. 2016

Rafael Henrique Dias Manzi é doutorando em relações internacionais pela Universidade de Brasília – UnB. Bolsista da Capes. (rafaelmanzi@hotmail.com)

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A economia chinesa no pós – crise de 2008: desaceleração econômica e desequilíbrios econômicos, por Rafael Manzi". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 08/06/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/06/08/a-economia-chinesa-no-pos-crise-de-2008-desaceleracao-economica-e-desequilibrios-economicos-por-rafael-manzi/>.

 

 

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