Moscou e Washington: possível aproximação no Oriente Médio, por Virgílio Arraes

image_pdfimage_print

Nas últimas semanas, os olhares do mundo voltaram-se para a definição dos dois candidatos à eleição presidencial nos Estados Unidos. Chama a atenção do desanimado eleitorado a pequena diferença entre ambos no tocante ao grau de conservadorismo adotado, a despeito da retórica disseminada durante a campanha por Hillary Clinton em face do surpreendente posicionamento de seu adversário interno, Bernie Sanders, ao inclinar-se sem restrições à esquerda.

Desta maneira, entre os democratas, surpresa não o nome, o de Clinton, mas o número de votos destinado ao postulante alternativo Sanders, haja vista seu discurso incomumente crítico ao quadro político-econômico do país e sua recomendação para solucioná-lo: uma conversão aos valores da socialdemocracia europeia.

No interior dos republicanos, a contragosto para os menos conservadores, consolida-se a inesperada indicação de Donald Trump, polêmico empresário sem experiência administrativa no poder Executivo.

De início, sua presença nas prévias assemelhava-se à dos corredores mais entusiasmados de corridas de meio fundo. Na metade da prova, não conseguiam manter o ritmo e não era invulgar a desistência de um lugar no pódio ou às vezes da própria disputa.

À proporção que o tempo passou, a expectativa inverteu-se aos filiados do Partido Republicano, de sorte que o controvertido homem de negócios superou todos os seus concorrentes sem dificuldades de monta. Todavia, seu tipo não é tão desconhecido na política norte-americana ou ainda na republicana, onde pulularam com êxito após pequenos intervalos três personagens.

Nos anos sessenta, Richard Nixon foi sem sombra de dúvida o precursor do estilo heterodoxo de Donald Trump em termos de postura política, ainda que desprovido da habilidade de comunicação ou mesmo do carisma, mas retrógrado quanto à visão de mundo.

Nos oitenta, Ronald Reagan era observado como bastante conservador bem como George Bush Jr na viragem do milênio, sem que fossem, no entanto, estimados do ponto de vista intelectual como Nixon. Isso tudo não impediria a reeleição de nenhum deles.

Paralelo à peleja eleitoral estadunidense, desenrola-se sem muita atenção no momento o conflito civil sírio, onde se destaca a atuação russa, fundamental para a manutenção da ditadura de Bashar Al-Assad em decorrência da movimentação local de outras forças, várias das quais de extração fundamentalista e de dependência financeira de outros países da região, em especial de monarquias.

 De modo bastante meticuloso, Moscou fatiga as milícias extremistas ao conjugar ataques aéreos maciços com o avanço seguro de suas tropas de elite em apoio ao exército de Damasco. Algumas supostamente negociam trégua com o governo e destarte buscar-se-iam distanciar do arco enfeixado pelo autodenominado Estado Islâmico. Fragmentada assim a oposição, o regime autoritário de forma lenta se recupera.

Preocupa as agremiações adversárias da ditadura a possível união tática entre Estados Unidos e Rússia com o propósito de intensificar o recuo territorial dos integristas e de baratear suas operações – o treinamento propiciado pela Casa Branca, apesar do custo de centenas de milhões de dólares, não proporcionou o resultado aguardado: a substituição do governo baathista.

Ademais, o dispêndio estadunidense com o adestramento não assegura a fidelidade ideológica dos integrantes antigovernistas ou filo-ocidentais. Muitos migram para o lado extremista, atraídos pelo romantismo ou sincero desejo de morigeração de suas sociedades, ou simplesmente desertam diante da adversidade da cotidiana vida castrense.

De maneira aparente, o êxito maior localiza-se entre os grupos curdos, em decorrência da preservação de seu próprio território e da aspiração de chegar, por conseguinte, à constituição de uma nação.

Inquieta a oposição síria a principal prioridade norte-americana a ser firmada em breve se houver uma composição, mesmo breve, com os russos: a de defenestrar o governo de Al-Assad ou a de eliminar o Estado Islâmico e seus coligados.

Estes, na concepção de Washington, originar-se-iam em boa medida do expurgo das forças armadas iraquianas executado de modo indevido pelo Pentágono ao tempo da invasão de 2003. A proximidade política entre os militantes contemporâneos da Síria e do Iraque derivaria das redes estruturadas durante o período da Guerra Fria: o baathismo.

No presente século, somar-se-ia a isto a questão religiosa: o sunismo. Com a vinda dos efetivos estadunidenses, os xiitas prevaleceram após o encerramento do governo de Saddam Hussein e finalmente assumiram o poder sem considerações de concórdia ou de apaziguamento. Com o afastamento, a atração por movimentos antiamericanos ou de renovação religiosa. Nos dois casos, estrangeiros sentiram-se motivados a aliar-se.

Parte dos expurgados do regime ditatorial tinha real experiência militar, adquirida ainda no século passado, fosse na Guerra Irã-Iraque, fosse na I Guerra do Golfo.  Nos dias atuais, a vivência passada diferencia-os de forma positiva nos combates contra os contingentes oficiais, agregados por jovens inexperientes e desestimulados.

Na prática, é possível a existência de um alinhamento entre as superpotências no Oriente Médio, não de uma coligação, mesmo tática, porque o governo de Barack Obama fustiga o de Vladimir Pútin na Europa, ao valer-se da estrutura da Organização do Tratado do Atlântico Norte, e até no Cáucaso.

Talvez, o receio do momentâneo crescimento do extremismo tenha-os juntado ad hoc sem que isto significasse não espezinhar um ao outro nas demais áreas do globo. Assim, mantém-se a tradição da rivalidade, mitigada pela importância geopolítica da região médio-oriental.

Virgílio Arraes, professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

 

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Moscou e Washington: possível aproximação no Oriente Médio, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 07/06/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/06/07/moscou-e-washington-possivel-aproximacao-no-oriente-medio-por-virgilio-arraes/>.

Seja o primeiro a comentar