Dois anos de Narendra Modi: Rupturas e Continuidades na Política Externa Indiana, por Luciane Noronha

Em maio de 2014, a Índia elegia Narendra Modi como seu novo primeiro ministro, após a mais longa eleição da história do país com número recorde de votantes. Embora o tema da política externa não tenha recebido grande destaque em seus discursos de campanha, Modi logo demonstrou que as relações internacionais seriam aspecto imprescindível de sua agenda, fazendo com que alguns acadêmicos identifiquem uma nova fase da Índia no cenário global.

A política externa indiana pode ser dividida, didaticamente, em algumas fases pré-definidas, de acordo com o primeiro ministro em exercício e os contextos regional e global em questão.

O primeiro momento, referente ao imediato cenário pós-Independência (1947) até meados da década de 1950, é marcado pelo idealismo e o discurso pacifista de Jawaharlal Nehru (1947-1964), grande nome da independência da Índia. Entre as bases da política externa indiana desse período, destacam-se o comprometimento com o não-alinhamento, a promoção da descolonização em outras partes do mundo, a não-proliferação de armas atômicas e a busca pelas boas relações com a China e o Paquistão. Com exceção do apoio dado às emancipações políticas na África e em partes da Ásia que ainda permaneciam sob domínio europeu, as outras premissas foram colocadas à prova. O não-alinhamento tornou-se um discurso longe da prática com a aproximação indiana aos soviéticos; fomentou-se um programa nuclear de intenção ambígua, que manteve a opção militar em aberto; e as relações com o Paquistão e a China tenderam à deterioração – em parte, por ações intransigentes do próprio Nehru. Com os conflitos na Caxemira e, principalmente, a Guerra Sino-India de 1962, a visão de mundo nehruviana caía por terra, dando lugar a uma Realpolitik aos moldes indianos (Dixit, 1999), que seria iniciada pelos governos provisórios que sucederam Nehru após sua morte (1964), chegando ao auge com o governo de sua filha, Indira Gandhi.

Quando Indira Gandhi assumiu o posto de primeira ministra (1966-1977; 1980-1984), a Índia passava por contexto regional delicado. As tensões com o Paquistão e com a China mostravam-se exacerbadas, e a aproximação à antiga União Soviética (URSS) levou à desconfiança norte-americana. Considerada a “dama de ferro” da Índia, Indira afastou a Índia do Ocidente com o alinhamento ao bloco soviético e com a insegurança das relações cada vez mais amistosas entre EUA e Paquistão. O guarda-chuva da URSS passou a ser um referencial na condução da política externa indiana, tanto em termos de capital político em mesas de negociação da ONU e no Conselho de Segurança, quanto em questões estratégico-militares. A URSS apoiou, por exemplo, o programa nuclear indiano, quando Indira optou pela construção de armas atômicas, e absteve-se de opinar de forma incisiva sobre o assunto quando, em 1974, realizou-se o primeiro teste nuclear. Fora do aspecto da disputa bipolar entre as duas potências da Guerra Fria (1947-1991), é importante ressaltar, também, que o conflito com o Paquistão fez com a relação entre a Índia e o Oriente Médio, de forma geral, fosse prejudicada. Uma exceção era a Palestina, a quem a Índia oferecia apoio, publicamente, no litígio com Israel.

Essa postura permaneceu até o fim da Guerra Fria (1991), quando, com a extinção da URSS, a Índia precisou reestruturar suas bases políticas e convicções ideológicas (Ganguly, 2011). Entre 1991 e 1999, o foco das relações exteriores indianas era a abertura ao diálogo com os países do Ocidente e a China, e a tentativa de resolução do conflito da Caxemira. Surge, nesse período, o termo Look East, durante o governo de P.V Narasimha Rao, que denotava a política de aproximação com os países do continente asiático, especialmente os da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, em inglês). Embora a diplomacia indiana tenha se mostrado mais aberta em relação ao período da Guerra Fria e tenha feito progresso no estreitamento de laços com o Sudeste Asiático, os litígios territoriais com os vizinhos paquistanês e chinês permaneceram e os progressos feitos no sentido de melhorar a inserção internacional da Índia em escala global foram tímidos. Isso se deve, em parte, primeiramente à grave crise econômica e financeira que atingiu o país logo no início da década de 1990, que fizera com que o país focasse em questões internas (.  Em segundo lugar, o aceleramento do programa nuclear indiano e o segundo teste, realizado em 1998, ainda gerava desconforto internacional.

O início do novo século marcou, também, novos horizontes para a política externa indiana. Com a volta do crescimento econômico e as medidas liberalizantes do governo Vajpayee e, posteriormente, de Manmohan Singh, a Índia passou a ser considerada emergente econômico e a adotar posicionamentos mais incisivos por meio de política externa mais ativa. Alguns desdobramentos desse momento podem ser exemplificados pela participação indiana em arranjos como o BRICS, o IBAS e o Acordo Nuclear de 2005, assinado com os EUA. Também foram feitos esforços significativos para mitigar os litígios com o Paquistão e a China.

Um aspecto importante a ser mencionado é o papel da mudança de postura da Índia em relação a Israel nesse período e a importância desse fato para o atual estágio da inserção internacional indiana. Como mencionado anteriormente, durante a Guerra Fria, o posicionamento do país sul-asiático era favorável à causa palestina, dentro da lógica vigente, até então, de solidariedade com o terceiro mundo (Ganguly, 2011). A partir da década de 1990 e a maior abertura diplomática para o Ocidente, enfraqueceu-se este apoio em prol de uma melhor relação com Israel. Uma clara motivação era o cálculo de que isso abriria as portas para o diálogo com os norte-americanos, após um longo período de desconfiança mútua. Em segundo lugar, buscava-se melhorar a imagem da Índia no mundo árabe, de uma forma mais geral. Com o governo de Vajpayee, os laços indo-israelenses foram aprofundados, passando a englobar, além da área econômica, a dimensão de defesa e segurança.

O governo de Narendra Modi, que em maio deste ano completa dois anos, pode ser entendido como o período em que a Índia finalmente conseguiu alinhar suas prioridades estabelecidas a partir do fim da Guerra Fria. A conjuntura econômica favorável, sem dúvidas, é um fator de peso para tal. Com programas como o Make in India, o Smart Cities, o Digital India, entre outros, a mídia passou a descrever Modi como o “empresário da Índia”. Combinando a liberalização econômica com o pragmatismo político, a diplomacia do país fez com que a Índia colocasse em prática, com sucesso, a política do Look East – que foi substituído pelo atual primeiro ministro para Act East, como forma de demonstrar o aspecto prático da aproximação com a Ásia. Criou-se um novo conceito: o Link West. A ligação da Índia com o Ocidente, através de acordos bilaterais importantes com países da União Europeia e com os EUA e o maior diálogo no nível militar-estratégico com ambos. A política para o Golfo ganhou maior destaque: sendo a região de onde a Índia importa cerca de 90% de seu petróleo (Kaplan, 2010), passou ao status de região de interesse estratégico primário em sua estratégia marítima. A larga comunidade indiana expatriada de outros países mostrou ter importância enquanto ferramenta de soft power, para além de Bollywood – algo inédito para a política indiana. O dia internacional da Ioga institucionalizou, por outro lado, outro aspecto de projeção subestimado em governos anteriores.

A política externa Modi, em dois anos, pode ser entendida como uma ruptura com antigos padrões de bloqueios na diplomacia com países em regiões estrategicamente importantes para o país – como o Golfo e os EUA. E a diáspora indiana, atualmente, configura elemento abordado em todas as viagens internacionais do primeiro-ministro, sendo aspecto novo de projeção no exterior. Essa ruptura é possível graças ao pragmatismo e o apreço pelas relações bilaterais, já tradicionais na trajetória do país. A Índia atual mostra estar cada vez mais comprometida a ser a próxima grande potência.

Referências Bibliográficas:

GANGULY, Sumit; MUKHERJI, Rahul. India Since 1980. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2011.

DIXIT, J.N. Across Borders: Fifty Years of India’s Foreign Policy. Nova Délhi: Picus Books, 1998.

KAPLAN, Robert. The Revenge of Geography: What the map shows us about coming conflicts and the battle against fate. Nova Iorque: Random House, 2012.

MOHAN, Raja C. PM Modi’s foreign policy: Making India a leading Power. Disponível em: http://www.hindustantimes.com/analysis/pm-modi-s-foreign-policy-making-india-a-leading-power/story-SMXx2543j1uPgcHCb0QmJJ.html. Acesso em 05/05/2016.

Luciane Noronha Moreira de Oliveira , Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval, Brasil.

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Dois anos de Narendra Modi: Rupturas e Continuidades na Política Externa Indiana, por Luciane Noronha". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 21/05/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/05/21/dois-anos-de-narendra-modi-rupturas-e-continuidades-na-politica-externa-indiana-por-luciane-noronha/>.

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