Reflexões sobre a geoeconomia da montanha russa dos preços das commodities, por Cristovam H. R. Da Silva

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O início do século XXI o mercado internacional das commodities recebeu um novo impulso representado sobretudo pela demanda chinesa. O dragão do Oriente, se tornou o motor industrial do mundo e promoveu uma intensa reestruturação produtiva global. Estabelecendo um novo padrão de relações internacionais entre os países de industrialização tardia como intitulou Alice Amsden em seu livro “A Ascenção do resto” de 2001.

Mas para compreendermos esse painel transicional das estruturas produtivas globais o cabedal teórico também solicita uma atualização, portanto, a velha e boa geopolítica arquitetada sobretudo durante a Guerra Fria pode ser associada a geoeconomia para compreender a montanha russa montada com sobe desce dos preços das commodities no mercado internacional. No campo das reflexões sobre geoeconomia, pode-se salientar um importante aspecto teórico-metodológico: a geoeconomia não pode ser confundida com geopolítica, pois uma não substitui a outra.

O cenário de reestruturação produtiva global, por exemplo, pode ser interpretado do ponto de vista geoeconômico, ao passo que as estratégias de mercados orquestradas pelas corporações se enquadram no domínio tático das redes de logística, como rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, capacidade produtiva, market share, pesquisa e desenvolvimento (P&D).

Por outro lado, a geopolítica pode ser exemplificada utilizando as evidentes políticas de atuação dos Estados-nações, precisamente na consolidação de pactos de poder regionais, acesso a mercados estratégicos de fornecimento de insumos tecnológicos ou de matérias-primas, poder bélico, acordos bilaterais e soberania nacional. Logo, deve-se inferir sobre a existência dessas duas abordagens correlatas e indissociáveis na análise tanto das relações internacionais quanto da atuação das corporações transnacionais.

Com essa ressalva em mente, voltemos a questão inicial evocada no início deste artigo, principal aspecto que marcou a primeira década do século XXI, foi a demanda chinesa que intensificou o processo de valorização dos preços das commodities que os economistas intitularam de superciclo “[…] a rare period of higher costs underpinned on the demand side by the industrialization and urbanization of emerging countries, notably China, and on the supply side by years of under investment during the 1980s and 1990s […] (BLAS, 2012, p.1)

Diante desse contexto geoeconômico, os mercados internacionais, continuaram a impulsionar suas global commodities chains (cadeias globais de commodities) em direção ao Sudeste asiático, já que se esperava um “transbordamento regional do superciclo de desenvolvimento” no qual Índia e Indonésia seguiriam a mesma trajetória de desenvolvimento industrial chinês. Essa conjuntura do superciclo promoveu, na virada do século, com uma valorização das commodities jamais vista durante o século passado.

Para exemplificarmos melhor, durante cem anos (1900-2000) o índice de preços de commodities, desenvolvido pelo Instituto Global Mckinsey que inclui 4 subgrupos: Energia, Alimentos, Commodities Agrícolas e Minerais, declinou 50% em termos reais em decorrência do aprimoramento técnico da indústria e menor demanda dos países desenvolvidos por produtos básicos (LAZZARINI; JANK; INOUE, 2013).

No início dos anos 2000, a combinação do progresso tecnológico, aprimoramento dos meios de transporte, a rápida urbanização e industrialização dos países de industrialização tardia impulsionaram o índice de preços das commodities em 177%. Nessa conta, coloquemos o crescimento econômico dos países do BRICS, isso permitiu que o índice de preços das commodities que detinha cem anos de depreciação marcados principalmente pela crise de 1929, duas guerras mundiais e a crise do petróleo em 1970, se recuperasse em ritmos acelerados.

Para sermos exatos, essa fase do superciclo, ficou caracterizada, sobretudo, entre os anos de 2002 e 2012, período em que os índices de crescimento da China eram de sobremaneira altos. Porém, adicionado os efeitos da crise financeira global de 2008, o superciclo de commodities começa em 2011 dar sinais que estava entrando em declínio atingindo 150% dos preços do século passado (FMI, 2013; BLAS, 2012). Embora, com a retração dos preços das commodities eles continuavam, em 2014, a 160% acima do que estava na deflagração da crise.

O minério de ferro é um exemplo que podemos utilizar, segundo os índices de preços de Mckinsey, a tonelada era cotada por volta de 84,14 dólares em 2013, durante o superciclo (2002-2012) era vendido por US$ 200/Tonelada. Valor muito maior do que era comercializado no período pré-supercycle que girava em torno de 15 a 20 dólares americanos (BLAS, 2012). Ou seja, o superciclo não se findou como muitos economistas deram a sentença, ao contrário, ele continua a ritmos mais lentos inclusive, os estudos de Dobbs et. al. (2013) e Alston; Babcok e Padey (2010) atribui-se a essa questão dos preços das commodities que continuarão altos e voláteis por mais 20 anos.

Essa volatilidade é classificada em duas situações uma de curto prazo: orientada pelas questões de desastres naturais como chuvas torrenciais causadoras de inundações e tornados, secas intermitentes como aconteceu no Sudeste do Brasil em 2015 que elevou os custos do Etanol em 20%, greves trabalhistas, e ainda restrições de exportações, como por exemplo a barreira tarifária US$ 0,54 por galão (3,78 litros) para entrada de Etanol brasileiro nos EUA e até conflitos militares em zonas petrolíferas.

Numa outra vertente, a volatilidade de longo prazo, relacionada ao abastecimento de novos mercados internacionais na qual há dificuldade de atender a demanda por dificuldades de acesso a novas técnicas exploração de petróleo em águas profundas; a exploração jazidas de minério de ferro em regiões de comunidades tradicionais e/ou expansão de monocultivos frente a pressão de movimentos sociais nos servem de exemplo dessa questão de volatilidade de longo prazo.

Os EUA e sua exploração de petróleo de xisto deu uma nova roupagem geoeconômica e geopolítica para os preços do barril de petróleo, somasse ainda, o enfraquecimento do poder econômico chinês fez com o que a descida da montanha russa de preços das commodities (agrícolas, minerais e de energia) fosse bem mais rápida do que se esperava.

No campo geoeconômico, isto é, na alçada que envolve o controle tático dos recursos e das redes presentes no território de cada Estado-Nação, resta saber se para a próxima subida de preços dos tradables, estimada para 2022, os países de industrialização tardia estarão organizados para os velhos/novos desafios colocados para o crescimento econômico no mundo como energias renováveis, crise climática, superpopulação nas metrópoles globais. É uma agenda que é não só geopolítica, mas também geoeconômica.

REFERENCIAS

ALSTON; J. M.; BABCOK, B. A. E PADEY, P. Shifting Patterns of Global Agricultural Productivity: Synthesis and Conclusion In: The Shifting Patterns of Agricultural Production and Productivity Worldwide. The Midwest Agribusiness Trade Research and Information Center, MATRIC: Iowa State University, Ames, Iowa. 2010. p. 449-512.

AMSDEN, A. A ascensão do “resto”: os desafios ao ocidente de economias com industrialização tardia. São Paulo: Unesp, 2009.

BLAS, J. Supercycle runs out of steam—for now. In: Financial Times. 2012. 3p.

DOBBS, R.; OPPENHEIM, J.; THOMPSON, F.; MARRELS, S.; NYQUIST S. SANGHVI, S. Resource Revolution: Tracking global commodity markets. MGI: Washington: DC, September 2013.

LAZZARINI, S. C.; JANK, M. S.; INOUE, C. F. K. Commodities no Brasil: maldição ou benção In: Bacha, E.; Bolle, M. B., O futuro da indústria no Brasil: desindustrialização em debate. (Org.) Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

 

Cristovam Henrique Ribeiro da Silva, Professor do Curso de Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (cristovamhenrique7@gmail.com).

 

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Reflexões sobre a geoeconomia da montanha russa dos preços das commodities, por Cristovam H. R. Da Silva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 08/05/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/05/08/reflexoes-sobre-a-geoeconomia-da-montanha-russa-dos-precos-das-commodities-por-cristovao-henrique-ribeiro-da-silva/>.

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