Rússia: a cautelosa retirada da Síria, por Virgílio Caixeta Arraes

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Há menos de duas semanas, a Rússia surpreendeu o mundo ao anunciar a interrupção de suas operações castrenses na Síria, após seis meses de intensa atuação, em especial por meio de ataques aéreos maciços.

O aviso do recolhimento bélico não significa retirar-se do país, onde usufrui de uma base desde o período da Guerra Fria, Tartus, por meio da qual se lhe faculta a realização, se necessárias, de ações aeronáuticas e navais de extensa envergadura naquela região.

Em decorrência do ingresso de Moscou no conflito, Damasco, então agonizante, recuperou-se a ponto de celebrar há poucos dias a retomada quase integral da cidade de Palmira, patrimônio da Humanidade da UNESCO, do controle do denominado Estado Islâmico a quem coube acusações de devastação de setores edificados ao tempo da Roma Antiga como um arco do triunfo e do emprego de sítios arqueológicos para execuções públicas dos inimigos. Reapossar-se dela tem sem dúvida efeito simbólico importante.

Com meia década de conflito percorrido, o país desestruturou-se de forma inédita, com centenas de milhares de refugiados, com o desmantelamento da infraestrutura e com o aguardamento até da fragmentação territorial, haja vista a questão da nação curda. Nem sequer um cessar-fogo mais extenso se obteve entre as partes digladiadoras.

Com o revigoramento recente, a ditadura de Bashar al-Assad pôde posicionar-se de maneira diferente nas tratativas de paz em Genebra. De início, o auxílio militar moscovita parecia contribuir pouco para a retomada de posições, porém a partir do começo do presente ano as tropas – e mesmo as milícias como as curdas – puderam avançar de modo inexorável nos rincões sob a administração dos adversários.

Mais intimorato, o governo sírio precisou da ponderação política da parte russa para se postar diante dos outros integrantes nas negociações de forma circunspecta. Sem a utilização da força, sobe ao proscênio a diplomacia. Destaque-se que o Estado Islâmico não participa das transações diplomáticas na Suíça, elemento de acirramento dos combates.

Destarte, com a composição de outro contexto político-militar, aguarda-se finalmente a suspensão prolongada da disputa, iniciada de maneira pacífica, através de protestos da sociedade civil nas ruas, mas conduzida à violência em face da reação desproporcional do regime autoritário às justificadas aspirações populares.

Aos olhos do Ocidente, a intervenção do presidente Vladimir Putin caracterizou-o como um deus ex-machina perante os sírios, uma vez que a comunidade global considerava iminente a defenestração dos baathistas do poder, depois de quase meio século a sua frente, e, por conseguinte, o cancelamento da aliança entre Moscou e Damasco.

Com a investida inesperada no final do ano passado, a gestão de Putin proporcionou em poucas semanas a sobrevida política necessária a Assad em detrimento da esperada ascensão dos extremistas ou dos ‘terroristas’ na expressão cotidiana do Kremlin, embora se relate nos meios de comunicação mais lidos o prejuízo ocasionado também a grupos apoiados por governantes ocidentais, como seria o caso dos Estados Unidos.

A presença russa constante na confrontação pode ainda reverberar nos territórios fronteiriços de forma positiva sob o ponto de vista da coligação norte-atlântica, ao desestimular a postura de determinados agrupamentos mais conservadores, em decorrência da desarticulação parcial dos fundamentalistas em solo sírio.

A expulsão dos atuais detentores do poder não implicaria situação alvissareira para o Oriente Médio, dado que a possibilidade de o país ser administrado por integristas não entusiasmava até pouco tempo os possíveis novos aliados ou os defensores de sistema alternativo, de feitio mais ocidentalizado. Como consequência, tolera-se no momento a permanência do regime ditatorial.

Ademais, a expectativa de que uma transformação política radical bem sucedida influenciasse países instáveis, como o Iraque, por exemplo, era bastante fundamentada. Com o crescente êxito alcançado pelos contingentes do governo Assad, especula-se que a próxima cidade de porte a capitular poderia ser Raqqa, considerada a capital ou o quartel-general do Estado Islâmico.

Mesmo Washington reconhece o recuo significativo da ocupação territorial dos fundamentalistas nas últimas semanas. Isso teria ocorrido não somente na Síria, mas no Iraque por extensão.

De toda sorte, a saída, mesmo provisória, da Rússia da guerra civil pode ter sido desencadeada por fatores internos, visto que a queda dos preços do petróleo desaguou na redução da arrecadação nacional, mas também da renda da população. Suspender a campanha bélica em prol do governo ditatorial de Assad no momento em que ele se recompõe não desgasta a gestão de Putin, por reforçar o moral do país diante das demais potências.

Afinal, como costumam enfatizar estudos de relações internacionais, a sociedade civil dedica atenção a tópicos de política exterior caso seu dia a dia seja afetado de forma negativa – a guerra em si mesma,  a constituição de impostos para as despesas das forças armadas, a acolhida a um largo número de refugiados, o estabelecimento de um bloqueio ou de um boicote ou a tensão diária por conta do terrorismo.

Diante disso, a opinião pública, ou seja, determinados segmentos organizados, poderia agregar-se a favor de pressionar de modo aberto e quiçá apartidário os governantes a modificar o rumo da administração ou de certos setores da burocracia. Se no passado os meios de comunicação tradicionais, como os jornais e as revistas, eram mais valorizados pelos políticos, hoje as manifestações, notadamente as virtuais, não podem ser postas em um segundo plano.

Nesse sentido, Putin acautela-se diante do temor da população, isto é, o de não existir a perspectiva de melhora da situação econômica no curto prazo e, destarte, culpar-se a política externa expedicionária de seu mandato como a responsável principal pela crise – há os custos com a Criméia. Se houver isto, o efeito para a campanha presidencial de 2018 já se fará registrar no pleito parlamentar do final deste ano.

Virgílio Caixeta Arraes, professor do Departamento de História da Universidade de Brasília.

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Rússia: a cautelosa retirada da Síria, por Virgílio Caixeta Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 31/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/31/russia-a-cautelosa-retirada-da-siria-por-virgilio-caixeta-arraes/>.

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