A transdisciplinaridade nos Estudos de Paz, por Marcos Alan S. V. Ferreira

image_pdfimage_print

Na página que inicia a introdução de uma de suas principais obras, Peace by Peaceful Means, o norueguês Johan Galtung afirma que “o investigador para a paz deve buscar por causas, condições e contextos em vários espaços”. Ainda, complementa que “este espectro transdisciplinar faz dos Estudos de Paz ao mesmo tempo desafiador, difícil intelectualmente e problemático na práxis. Por outro lado, um foco mais estreito é condenado por antecipação” (GALTUNG, 1996).

Lidar com este desafio levantado por Galtung passa por entender, antes de tudo, o que é um espectro transdisciplinar. Conforme consolidado na literatura de ciências humanas, o prefixo ‘trans’ se difere do ‘multi’ e ‘inter’ disciplinar.

Primeiramente, o conceito de multidisciplinar nos leva para além de nossa disciplina em busca de respostas para a mesma em outras áreas do conhecimento. Por exemplo, é o economista que vê a necessidade de adentrar em um aspecto da ciência política para explicar, digamos, os subsídios que um país dá a um dado setor da economia dentro de determinadas condições. Na prática, ele adentra em outra disciplina, adequadamente busca explicações em outras áreas do conhecimento, mas mantém sua investigação dentro dos pressupostos da economia.

Segundo, o conceito de interdisciplinar preconiza a interação entre duas disciplinas ou mais. É o debate que fica entre duas áreas do conhecimento. A ideia de interdisciplinaridade não só busca explicações causais em outras áreas para uma temática em específico, mas vai além para unir duas heurísticas distintas para explicar problemas que aquela heurística, por si só, não consegue compreender. Por exemplo, pensando ainda na política, podemos imaginar a análise de política externa. Sozinho, nem o arcabouço teórico das Relações Internacionais, nem o da Ciência Política, conseguiriam explicar a tomada de decisões domésticas voltadas ao plano externo. Logo, de maneira interdisciplinar, surge essa nova área do conhecimento que se consolida desde meados do século XX.

Por fim, temos a transdisciplinaridade – onde reside os Estudos de Paz do ponto de vista galtungiano. O transdisciplinar pensa através, entre e além das disciplinas. Indo de lado a lado desde as ciências naturais, humanas e exatas, pensar determinado problema sob um viés transdisciplinar exige sobrepassar uma simples conexão entre duas ou mais áreas. Exige conectar distintas áreas do conhecimento para explicar um fenômeno complexo, multidimensional e de diálogo com distintas áreas do conhecimento. Como citado por McGregor, “o objetivo da transdisciplinaridade é compreender o mundo presente, em todas as suas complexidades, em vez de focar em uma parte dele” (McGREGOR, 2004).

Ao compreender a paz sob um viés transdisciplinar, pode-se conceber que tal abordagem não é meramente um preciosismo epistemológico. Ao contrário, seria uma necessidade epistemológica. E explicaria essa asserção remetendo novamente a Galtung. Na mesma obra Peace by Peaceful Means, ele afirma que “Estudos de Paz é o estudo das condições do trabalho pela paz”, sendo paz, por sua vez, “a ausência/redução da violência de todos os tipos”.

Ora, o próprio fenômeno das condições do trabalho para a paz não encontram explicação em um único campo do conhecimento. Pesquisar sobre a conflitividade de determinado país em guerra civil ou da violência urbana em outro, exige adentrar nos meandros de questões que envolvem economia, sociedade, religião, dentre outros. Exige conectar essas áreas, buscar explicações alternativas e ir além do que suas disciplinas sozinhas apresentam.

Este é um desafio hercúleo nada simples, pois fugir dele ou negligenciá-lo é relegar o objeto da pesquisa em si: o problema da paz e da violência – que por si sós são transdisciplinares. Explicar condições de violência, ou mesmo exemplos de sucesso em redução daquela rumo a uma paz positiva, não é possível com explicações monocausais e nem com o arcabouço teórico de uma única área.

O fato de ser difícil intelectualmente pensar de maneira transdisciplinar não deveria gerar no pesquisador um impasse que o faça pensar em explicações monocausais. Pelo contrário, exige uma postura diferenciada daqueles interessados em estabelecer análises críticas e normativas. Enumeraria três posturas necessárias no sentido de estimular essa reflexão.

Primeiro, exige do investigador para a paz uma humildade intelectual. Humildade em saber que sua área de formação não é capaz de explicar todos os fenômenos sociais que envolvem paz e violência. Humildade em saber que sua área foi criada dentro de um contexto de fragmentação científica que se remete ao Iluminismo, quando antes estava dentro de um arcabouço único chamado ciência.

Segundo, e ligado a essa última afirmação, entender que a ciência não é um evento, mas um processo. Explicar cientificamente o fenômeno da paz e violência é compreender também o que dissera o eminente filósofo persa Abdu’l-Bahá em sua obra “Promulgação da Paz Universal” ao afirmar que “nada é permanente, nada é final; tudo está em contínua mudança porque a razão humana avança em novos rumos de pesquisa e a cada dia chega a novas conclusões. No futuro, muito daquilo que hoje é aclamado e aceito como verdadeiro, será rejeitado e desaprovado. E assim continuará ad infinitum” (‘ABDU’L-BAHÁ, 2010). Isso não torna a ciência relativa. Assim como a mecânica não invalida a física quântica, as compreensões atuais da violência servirão de base para a construção de caminhos à paz positiva no futuro.

Por fim, uma última postura seria a busca em aprender com distintas áreas do conhecimento. Postura de aprendizagem envolve essa humildade acima referida, assim como a compreensão da ciência como processo. É ter em mente que mais do que reconhecer a limitação de minha área, eu preciso adentrar em conceitos, prerrogativas e teorias de outras áreas que podem ajudar a explicar o assunto que quero abordar. É deixar de lado concepções binárias de quantitativo/qualitativo, moderno/pós-moderno, clássico/contemporâneo para se abrir a novos diálogos, insights e perspectivas em busca do objetivo último de compreender a paz como ausência/redução da violência de todos os tipos.

Certamente, essa reflexão não se limita a esse breve texto. Deixo aqui o convite para que pensemos como podemos adensar – quiçá até aumentar – essa lista de posturas em prol da transdisciplinaridade. Mover nesse caminho para pensar a paz não só é importante, como necessário.

Referências:

ABDU’L-BAHÁ. Promulgação da Paz Universal. Mogi Mirim: Ed. Bahá’í do Brasil, 2010.

GALTUNG, Johan. Peace by Peaceful Means. SAGE: Londres, 1996.

McGREGOR, Sue. ‘The Nature of Transdisciplinary Research and Practice’, Working Paper HS-KON, 2004. Disponível em: http://www.kappaomicronnu.com/hswp/archive/transdiscipl.pdf. Acesso em: 27 Nov. 2015.

*Texto originalmente publicado no Blog da Rede de Pesquisa em Paz, Conflitos e Estudos Críticos de Segurança (PCECS) –  http://pcecs.blogspot.com.br/

Marcos Alan S. V. Ferreira, Professor no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. (marcosalan@gmail.com / marcosferreira@ccsa.ufpb.br)

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A transdisciplinaridade nos Estudos de Paz, por Marcos Alan S. V. Ferreira". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 30/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/30/a-transdisciplinaridade-nos-estudos-de-paz-por-marcos-alan-s-v-ferreira/>.

Seja o primeiro a comentar