Entre a dança do elefante e a força do Dragão: a instabilidade nas relações India e China, por André S. Campos

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Países conduzidos por regimes políticos distintos, acusam diferenças na construção da política exterior, no modelo de desenvolvimento e nas suas relações internacionais. A República Popular da China possui um regime Comunista que vem apresentando, nas últimas décadas, características de abertura política e econômica; a República da Índia é uma democracia parlamentar centrada no federalismo.

A civilização indiana nascida às margens do Rio Indo e Ganges, e a chinesa às margens do Rio Amarelo e Yangtze, constituem os maiores países da Ásia em termos territoriais e demográficos. Suas relações se remontam à época da Rota da Seda, considerada a principal e mais antiga rota terrestre da região e às rotas da Seda do Sul, Tibete-Nepal e do Mar, utilizadas para o deslocamento de comerciantes e missionários de ambos os países. Em “Registros do Historiador”, Sima Qian relata à época da Dinastia Han (206 a.C. até 220 d.C.), passagens em que as pessoas da província chinesa de Sichuan vestiam roupas trazidas da Índia. Enquanto a China transportava seda para a Índia, os indianos transportavam itens como coral, pérolas, vidro e fragrâncias para a China. Estas trocas comerciais marcaram o início das relações sino-indianas.

As relações comerciais se desenvolveram durante as Dinastias de Tang, Song e Yuan quando as navegações se intensificaram e a China recebia navios de comerciantes persas, indianos e cingaleses. As navegações proporcionaram trocas interculturais e religiosas, refletido na prática do budismo na Índia e China, estimulando a peregrinação mútua e a expansão de novos centros comerciais. As lutas contra a ordem colonial instaurada nos países – Primeira Guerra da Independência Indiana (1857 – 1859) e a Rebelião de Taiping (1850-1871) – revelaram a sinergia vivenciada por nacionalistas e revolucionários que se transformou em uma amizade prestes a utilizar o território um do outro para a realização de encontros e reuniões capazes de dar alcance e voz às manifestações anti-imperialistas da época.

O Movimento de Libertação da Índia, liderado a partir da ascensão de Gandhi ao poder na política indiana, marcou a iniciativa do princípio da não-violência, ação pela qual a civilização chinesa apoiou a Índia e acompanhou os acontecimentos ocorridos em função do movimento. Durante a Guerra de Resistência e a Segunda Guerra Mundial, Índia e China demonstraram relações amistosas. Os reflexos do conflito entre China e Japão se reverberavam na Índia, que enviou uma missão médica para a China em 1938 como sinal de amizade. Em 1939, o Primeiro-Ministro indiano, Nehru visitou a China no intuito de estabelecer uma cooperação entre os dois países, visualizando a construção de uma nova ordem mundial que viria a se instaurar no período pós-guerra, procurando configurar uma região de estabilidade e rápido desenvolvimento econômico na Ásia.

As relações amistosas entre Índia e China mantiveram-se após as guerras de libertação de ambos. A Índia conquistou sua independência em 15 de Agosto de 1947, após um movimento nacionalista não-violento e foi o primeiro país não comunista a reconhecer e manter relações diplomáticas com a China, que logrou sua independência em outubro de 1949. Na época, o Primeiro-Ministro indiano Nehru não compartilhava da percepção americana de que o Comunismo era uma ameaça para a paz mundial e estabilidade.

Em 1950, a China estabeleceu seu poder militar na região do Tibete o que gerou sérias críticas dos líderes da oposição no parlamento indiano à política conduzida por Nehru, que mesmo diante da ocupação militar chinesa, não registrou um protesto mais sério contra Pequim. Em 1954, o acordo conhecido como “Os Cinco Princípios de Coexistência Pacífica” ou conhecido na Índia por Panchsheel Treaty, formalizou os princípios que regem as relações sino-indianas, em que fixam: 1º) O Respeito ao território e soberania dos países; 2º) A        Não-Interferência nos assuntos internos; 3º) A Não-Agressão; 4º) A Igualdade e Cooperação para benefício mútuo; 5º) A Coexistência Pacífica.

A linha McMahon que demarca a fronteira entre Índia e China causou sérias diferenças entre os dois países e culminou em uma guerra sino-indiana, em 1962. A derrota indiana afetou a política e a imagem do Primeiro-Ministro Nehru, na Índia e no exterior. Diante disso, as relações diplomáticas entre os dois países mantiveram-se congeladas entre 1962 e 1967. Neste período, a China iniciou uma série de propagandas contra a Índia, aprofundando a crise diplomática entre os dois países e a desconfiança da Índia com relação à China, que agravou a situação ao estabelecer um trabalho de cooperação militar e político com o Paquistão. Como resposta, a Índia se aproximou da União Soviética, levando a China a interpretar o movimento indiano como uma ameaça.

Em meados de 1966, a Índia passava por um período em que Indira Ghandi encontrava dificuldades políticas e problemas sociais. A China encontrava-se no período chamado Revolução Cultural. As diferenças entre os dois países continuavam a ponto de a China apoiar insurgentes indianos, encorajando-os a dar início a uma revolução. Em 1967, houve choque de tropas chinesas e indianas na região de Siquim, além de dois diplomatas indianos expulsos de Pequim sob a acusação de espionagem, contribuindo para deteriorar relações entre Índia e China.

Em 1971, na busca pela normalização das relações com Pequim, Ghandi reiterou seu desejo de articular um diálogo por meio de seu embaixador em Moscou com a contraparte chinesa, enfatizando a união dos países asiáticos na luta contra a pobreza e o atraso que atingia os países da região. Porém, as relações diplomáticas apenas se reestabeleceram em 1976 e foram continuadas após a mudança de governo na Índia. Em 1979, o líder chinês sugeriu a resolução da questão da fronteira por meio de uma consulta pacífica, instrumentalizada como Joint Working Group (JWG), um grupo de trabalho que não deveria interferir na cooperação em outras áreas. Este fato resultou em uma nova fase nas relações entre os dois países.

Em 1988, Rajiv Gandhi visitou a China em uma reunião que resultou na apresentação de uma nova orientação das relações bilaterais ao compartilhar interesses comuns, considerados assuntos “macrodiplomáticos” como a busca pela configuração de uma nova ordem econômica internacional, pelo desarmamento global e pela redução da poluição, que levou à construção de uma atmosfera favorável nas relações bilaterais ao desenvolver relações no campo econômico, comercial e de ciência e tecnologia.

Em 1991, o Primeiro-Ministro Li Peng pronunciou durante sua visita à Índia que a questão da fronteira não deverá afetar as relações bilaterais. Registraram-se progressos para reduzir a tensão na fronteira como a redução progressiva de militares, reuniões periódicas e notificação prévia de exercício militar. Dessa maneira, o comércio fronteiriço foi retomado em 1992, após um intervalo de 30 anos, assim como a reabertura dos consulados em Bombaim e Shanghai. Em 1994, os países marcaram suas relações com base nos cinco princípios da Coexistência Pacífica e aprofundaram suas relações ao simplificar os procedimentos de visto, ao evitar a dupla tributação de produtos e ao presenciar o anúncio chinês em que se opõe a independência da região da Caxemira.

Quando o partido da Aliança Democrática Nacional chegou ao poder, realizou uma série de cinco testes nucleares, pronunciou que a Índia era detentora de uma arma nuclear e que a China era a principal ameaça ao país. Tal pronunciamento estremeceu desnecessariamente as relações entre os países, dando lugar a um clima de desconfiança em substituição à atmosfera amistosa que vinha sendo empregada nos últimos anos. Contudo, em 1999, o então Ministro de Relações Exteriores, Jaswant Singh, realizou uma série de visitas à China que resultou no reestabelecimento das relações diplomáticas entre os grandes países asiáticos, no qual assegurou que nenhum país seria visto como uma ameaça ao outro e reforçou a coordenação de assuntos internacionais de interesse comum.

Em 2003, em função da visita realizada em Junho pelo então Primeiro-Ministro indiano, Atal Bihari Vajpayee à China, buscou-se reforçar a cooperação mútua com a assinatura de nove acordos, como a simplificação de processos que visam promover o comércio entre os dois países, um Memorando de Entendimento sobre questões jurídicas, a abertura de um Centro de Estudos Indianos na Universidade de Pequim, um acordo de cooperação na área de ciência e tecnologia marítima, o reconhecimento da região autônoma do Tibete como parte do território da China, questão que se prolongou por mais de quatro décadas, reafirmaram seus compromissos com a busca pela configuração de uma ordem internacional emergente, marcando uma nova era na relação Índia e China. A globalização foi motivadora para que Índia e China pudessem libertar-se do peso histórico e se engajassem em uma relação bilateral diante deste fenômeno.

Em 2005, houve uma visita do Primeiro Ministro da China, Wen Jiabao à Índia e, em 2006, a visita do Presidente Hu Jinato ao país. A visita gerou uma “Parceria Estratégia e Cooperativa para a Paz e Prosperidade”, com o objetivo de facilitar as negociações econômicas, além de outros onze acordos em relevantes áreas estratégicas. A China também declarou que atribui importância ao status da Índia nos assuntos internacionais. A história demonstra que a resolução da questão da fronteira com a China foi peça fundamental para o desenvolvimento de suas relações.

Em 2008, o Primeiro-Ministro indiano, Manmohan Singh, visitou a China para participar de uma reunião com o Primeiro Ministro chinês, Wen Jiabao. O bom relacionamento dos dois líderes levou ao processo de intensificação da “Parceria Estratégica Cooperativa” firmada anos atrás. A partir disso, houve intercâmbios na área de segurança e defesa que levaram a um treinamento conjunto de exercício militar em combate ao terrorismo. Ambos trabalharam para estabelecer uma coordenação diplomática nas questões climáticas, de segurança energética e alimentar, para as conversações na Rodada Doha, no âmbito dos BRICS, no G-20 Financeiro e sobre a crise financeira internacional.

A Índia vem emergindo como um pivô importante no cenário geopolítico da Ásia. Projeções da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) apontam que a taxa de crescimento do país irá ultrapassar a da China até o final desta década e que seu PIB per capita irá aumentar em oito vezes, próximo ao meio do século, o que poderá levar a Índia a ser vista como a nova potência econômica mundial.

Em um movimento de reorientação da Política Externa Indiana, o Primeiro Ministro Narendra Modi instituiu em 2014, o programa denominado “Neighborhood First”, visando contribuir para o progresso das relações diplomáticas e comerciais na região imediata da Índia, assim como na região estendida, o que inclui particularmente suas relações com a China, a fim de superar os conflitos históricos e promover o desenvolvimento da região. O futuro da Ásia como motor da economia mundial depende de uma cooperação estreita entre Índia e China e da superação de suas desconfianças mútuas. O Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang, afirmou que as relações sino-indianas estavam destinadas a se tornar a relação bilateral mais importante do século.

REFERÊNCIAS

STUENKEL, Oliver. A Índia na Ordem Global. Coleção Entenda o Mundo. Ed. FGV, 2013.

COSTA LIMA, Marcos, Índia: Avanços, Problema e Perspectivas. Textos Acadêmicos. Índia. Brasília, Fundação Alexandre Gusmão, 2008.

COSTAS, Ruth. Índia já cresce mais que a China e ultrapassará Brasil em ranking de economias. BBC Entrevista, Setembro de 2015. Acesso em 18 de novembro de 2015. Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150904_india_china_ru

KUMAR, Arvind. Future of India-China Relations: Challenges and Prospects. UNISCI Discussion Papers, n.24, October 2010.

MITCHELL, Derek J; BAJPAEE, Chietigj. China and India. Chapter 8. The China Balance Sheet: In 2007 and Beyond. In: BERGSTEN, Fred; GILL, Bates; LARDY, Nicholas R.; MITCHEL, Derek J. (Eds.). Washinton, D.C, Center for Strategic and International Studies, 2007.

André Sanches Siqueira Campos, Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia (PPGRI IE UFU). Bolsista FAPEMIG.

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Entre a dança do elefante e a força do Dragão: a instabilidade nas relações India e China, por André S. Campos". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 24/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/24/entre-a-danca-do-elefante-e-a-forca-do-dragao-a-instabilidade-nas-relacoes-india-e-china-por-andre-sanches-siqueira-campos/>.

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