Redução de barreiras à importação de grãos na Argentina: possíveis impactos no agronegócio da soja no Paraguai, por Lorena Pereira

A relação entre Argentina e Paraguai remonta meados de 1860, mais especificamente a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), em que Argentina, Brasil e Uruguai lutaram contra o Paraguai. Desde o fim da Guerra da Tríplice Aliança a Argentina possui uma importante influência econômica e política no Paraguai, isto devido à hegemonia que exercia na região da bacia do Rio Prata. Em 1954, assume a presidência do Paraguai o ditador Alfredo Stroessner (Partido Colorado), que em uma estratégia geopolítica estreitou relação com o Brasil, deixando a Argentina em segundo plano. Contudo, mesmo com este distanciamento, as decisões políticas e econômicas tomadas em território argentino têm consequências diretas na economia, nas relações políticas e sociais no Paraguai.

No ano de 2009, a então presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015), do Partido Justicialista, impôs barreiras burocráticas nas importações de países vizinhos produtores de soja, neste caso Brasil e Paraguai, países quais, junto com a Argentina e Uruguai, compõem a ‘Repúblicas Unidas de la Soja’ (Rulli, 2007). O governo de Kirchner foi caracterizado por Sader (2009) como pós-neoliberal, que consiste em uma recusa ao neoliberalismo, porém, ao mesmo tempo, contem muitos dos seus traços fundamentais. Tais medidas geraram diversos impactos nos países que compõem as ‘Repúblicas Unidas de la Soja’, sobretudo no Paraguai, que é um país no qual sua economia é extremamente dependente da produção e exportação de soja, a commodity é responsável por 46% de toda a exportação do Paraguai (Cámara Paraguaya de Procesadores de Oleaginosas y Cereales, 2015).

No dia 10 de dezembro de 2015 Mauricio Macri (Partido Proposta Republicana) assume a presidência da Argentina. Macri possui uma proposta de governo totalmente distinta daquela realizada nos mandatos de Kirchner, uma vez que as medidas tomadas até o momento evidenciam sua política neoliberal. Além de extinguir a Declaração Jurada de Autorização à Importação (DJAI), que consistia em um procedimento burocrático para dificultar a importação, o presidente liberou a importação de soja do Brasil e Paraguai.

Segundo os dados da Cámara Paraguaya de Exportadores y Comercializadores de Cereales y Oleaginosas (2016), o Paraguai atualmente ocupa a posição de sexto maior produtor de soja a nível global, com a estimativa de 8.800.000 toneladas na safra de 2015/2016 e quarto maior exportador mundial de soja, com 4.600.000 toneladas, nos quais os principais importadores da soja paraguaia são: União Europeia (27%), Rússia (20%), Brasil (12%) e Turquia (11%).

Em 2009, quando foi instaurada a medida o Paraguai sofreu muitas consequências, sobretudo nas exportações, que apresentaram uma queda 50% de 2008 para 2009, ou seja, de 4.438.085 toneladas exportadas em 2008 para 2.282.705 toneladas exportadas em 2009. Muitas empresas foram afetadas, sobretudo corporações transnacionais, que lideravam e ainda lideram a produção e exportação de soja no Paraguai. No momento em que foi promulgada a medida, o Paraguai exportava, basicamente, a soja sem o processamento, o que gerava uma crítica por parte de economistas, pois não havia um valor agregado ao produto, o que o desvalorizava.

Diante deste cenário, as empresas do agronegócio da soja territorializadas no Paraguai buscaram como alternativa o investimento em industrialização da soja, o que possibilitou uma maior diversidade de produtos para a exportação, preços mais competitivos e maior variedade no que se refere aos destinos da exportação. De fato, com a saída encontrada pelas corporações do agronegócio, a produção e exportação de soja foram potencializadas e o Paraguai alcançou o posto de país que mais cresce mesmo com a crise nos países limítrofes (Revista Exame, 2015).

Agora, em 2016, com a liberação importação de soja pelo governo argentino há diversas implicações tanto para o agronegócio argentino, quanto para o paraguaio, nas diversas escalas de produção. Expor sobre os impactos que tal medida resultará pode se tornar uma tarefa complicada, uma vez que são apenas projeções e que dependerão das políticas de cada governo e ações de cada empresa em relação ao contexto atual, que é dificultada por um momento de crise econômica e política em diversos países do Cone Sul.

Há um intenso debate em torno da medida tomada por Macri em relação à importação de soja, impactos nos quais se podem classificar em positivos e negativos. No que tange os impactos positivos para o agronegócio paraguaio é o possível aumento do preço da soja e menor dependência em relação as corporações transnacionais. O atual presidente da Cámara Paraguaya de Exportadores y Comercializadores de Cereales y Oleaginosas (CAPECO), José Berea, a flexibilização por parte do governo argentino é uma excelente oportunidade para o agronegócio paraguaio, uma vez que será mais um destino para a exportação da soja paraguaia, um destino classificado como ‘fácil’ por ser um país limítrofe ao Paraguai e apresentar infraestrutura que possibilite a exportação. Além disso, a estimativa é que o preço da soja chegue a US$ 4 por tonelada, o que corresponde a uma valorização da soja paraguaia (ABC Color, 2016).

Outro possível impacto em escala nacional paraguaia é a diminuição da dependência dos produtores de soja nacionais em relação às corporações do agronegócio da soja que atuam no país e que são responsáveis por todo o processo de beneficiamento da soja. Em 2009 o agronegócio da soja foi obrigado a se industrializar para beneficiar a soja para a exportação, o que exigiu um grau muito grande de investimentos de corporações transnacionais, pois estas detém a tecnologia necessária para tal beneficiamento, o que culminou em uma maior dependência do produtor nacional em relação ao agronegócio transnacional. Com a medida de Macri, produtores nacionais poderão comercializar diretamente com os compradores argentinos, sem a necessidade de processamento da commodity. Atualmente, as corporações mais expressivas atuantes no beneficiamento da soja no Paraguai são: Louis Dreyfus Commodities (França), Cargill (EUA), Bunge (EUA) e ADM (EUA). No que ser refere às possíveis consequências negativas para o Paraguai há o posicionamento da Cámara Paraguaya de Procesadores de Oleaginosas y Cereales (CAPPRO), que afirma que a medida poderá causar desabastecimento e paralização dos planos de expansão das empresas no Paraguai.

Ao mesmo tempo há possíveis efeitos negativos a economia argentina, pois os produtores argentinos eram os provedores exclusivos da soja nos últimos anos e a abertura para a importação poderá gerar um impacto econômico aos produtores nacionais argentinos, que terão que se tornarem mais competitivos no mercado.

Além destes impactos citados na escala do Paraguai e Argentina, poderão surgir outros, uma vez que tais consequências afetarão as corporações transnacionais do agronegócio que possivelmente terão que rever seus investimentos no Paraguai e Argentina, podendo ou não, paralisar planos de expansão nestes países e procurarem outros com melhores alternativas e investimentos mais seguros.

Referências

ABC Color. 2016. CAPECO cree que la medida argentina elevará pago por la soja en Paraguay. ABC Color. Disponível em: http://www.abc.com.py/edicion-impresa/economia/capeco-cree-que-la-medida-argentina-elevara-pago-por-la-soja-en-paraguay-1446396.html.

Cámara Paraguaya de Exportadores y Comercializadores de Cereales y Oleaginosas (CAPECO). Evolución de las exportaciones. Disponível em: http://www.tera.com.py/.

Cámara Paraguaya de Procesadores de Oleaginosas y Cereales (CAPPRO). Complejo soja: participación em las exportaciones. Disponível em: http://cappro.org.py/estadisticas.

Sader, Emir. 2009. A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana. São Paulo: Boitempo.

Revista Exame. Paraguai deve crescer 3,5% mesmo com crise no Brasil. Revista Exame. Disponível em: http://exame.abril.com.br/economia/noticias/paraguai-deve-crescer-3-5-mesmo-com-crise-no-brasil.

Rulli, Javiera. 2007. Repúblicas de Unidas de la Soja: realidades sobre la producción de soja em América del Sur. Asunción: Base IS.

 

Lorena Izá Pereira, Mestranda em Geografia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Redução de barreiras à importação de grãos na Argentina: possíveis impactos no agronegócio da soja no Paraguai, por Lorena Pereira". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 23/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/23/reducao-de-barreiras-a-importacao-de-graos-na-argentina-possiveis-impactos-no-agronegocio-da-soja-no-paraguai-por-lorena-iza-pereira/>.

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