Donald Trump: eleições nos EUA e a política pop, por David Nogueira da Silva

Em 07/07/2015 a fox news lançou um pequeno episódio (1m25s) de “Os Simpsons” chamado “trumpastic voyage”. No desenho, que na verdade era uma espécie de chamada para a nova temporada, Homer Simpson é interpelado por um sujeito que faz algumas perguntas, sendo uma delas “você se importa com quem vai ser o próximo presidente dos Estados Unidos?” Como a resposta de Homer foi negativa (não, ele não se importava), Homer foi um dos escolhidos para participar de um evento de  boas-vindas a um candidato à presidência: Donald Trump. O desenho ilustra uma realidade que poucos imaginavam e, visto hoje, nos remete a uma pergunta que muitos se fazem: como um candidato tão pouco consistente ideologicamente pode chegar tão longe e de forma tão robusta assim?  Bem, talvez Homer nos ajude a responder a pergunta.

Um dos equívocos que se comete ao tentar responder tal pergunta é o de procurar raízes ou razões no discurso de Trump. Aliás, mas do que um equívoco, é fornecer a tal discurso uma consistência que ele efetivamente não tem. Trump já foi contra e pró –armas, a favor de se receber imigrantes sírios e também a favor de se fechar as portas para eles. Trump é fluido, como as ondas de seu cabelo navegado por Homer em Trumpastic voyage, o pré-candidato republicano se contradiz e  inventa fatos ( de acordo com o site politifact.com 8% das afirmações de Trump são verdadeiras, 14% são meias verdades e o restante, 78% são variados graus de mentira). O discurso de Trump é efetivo exatamente porque não tem raízes. Se entendermos a sociedade atual pelas lentes de uma modernidade líquida, então aqui temos o discurso político líquido por excelência.

De acordo com 78% dos eleitores que votaram nas primárias de Carolina do Sul, a principal vantagem do candidato republicano Donald Trump é que ele “tells it like it is.”,  Ou seja, é franco, diz verdades. Já vimos que o que ele diz não são exatamente verdades, mas Donald parece falar o que pensa e para um eleitorado cansado dos “politicos profissionais” Trump surge  como uma “novidade”, o “não politico” alguém com uma imagem de sucesso em que muitos americanos desiludidos com a economia e com os rumos dados pelos democratas à política se projetam.

No desenho “trumpastic voyage” homer é “sugado” para dentro do famoso cabelo de Donald Trump. Ao ser engolido pelos fios milimetricamente arranjados do candidato, Homer é quase que automaticamente hipnotizado pelo que encontra: um mar de finos fios loiros, em que borboletas azuis se revezam com uma estátua da liberdade destruída, cartões da Macy’s, faixas de miss universo e macacos ao redor de um monolito, remetendo-nos à clássica cena de Kubrick. O interior da cabeça de Trump no desenho é incosistente e contraditório, ainda assim Homer está hipnotizado, encantado, Simpson pensa consigo mesmo “Tenho tanta inveja daquelas mulheres peitudas com as quais ele se casou…” e este é o último pensamento de Homer antes de ser trazido de volta à realidade em que homens do serviço secreto o seguram pelo braço enquanto ele ouve Trump declarar que está se candidatando oficialmente à presidência dos Estados Unidos da América.

Na cabeça de seus eleitores, Trump não é um político, ele é um ícone pop. E eles parecem se deixar hipnotizar, assim como Homer, pela imagem de  empresário bem sucedido que circula com mulheres voluptuosas (aquelas mesmas invejadas por Homer). Trump ainda é para muitos aquela imagem do protagonista de um programa de televisão que demitia jovens  em um reality show. Castells já demonstrou como as relações de poder são operadas, em grande medida, através dos processos de comunicação que acontecem na mente das pessoas (Castells,2013). Não é difícil entender assim que o showman, o comunicador por natureza, esteja levando a melhor até agora na pré-campanha republicana. Se comunicação é poder, Trump tem mais poder no momento.

A questão da comunicação na política não é absolutamente nova. Contudo, desde o final dos anos 50, a forma como essa comunicação acontece tem mudado de forma rápida e vertiginosa. Em julho de 1959 o famoso Kitchen Debate colocou o então vice-presidente Nixon e o premier russo Nikita Khrushchev debatendo capitalismo e socialismo na abertura da Exibição Americana, em Moscou. Um cenário com uma série de utensílios high-tech para a época, que eram usados pelos cidadãos comuns em suas casas, foi montado pelos americanos para o confronto ideológico protagonizado por Khrushchev e Nixon. Khrushchev nunca acreditou que um americano médio tivesse de fato todas aquelas parafernálias em sua cozinha. Aquilo só podia ser propaganda do american way of life. E era. Afinal, o debate foi  gravado e posteriormente televisionado nos dois países.

A televisão surgia ali como um importante meio de comunicação que começava a alterar de maneira singular a forma como a política era feita e, principalmente, vista. A torradeira elétrica mostraria a todos a superioridade do capitalismo sobre o socialismo. Não havia mais necessidade de atacar a ditadura do proletariado. A imagem da cozinha de sucesso falaria por si.  Um ano mais tarde o próprio Nixon sentiria os efeitos do poder televisivo ao  perder uma eleição para o jovem democrata Kennedy. A disputa, ganha por poucos votos de diferença, (112.803 votos em um universo de 68 milhões de eleitores), foi também responsável por marcar as primeiras eleições com debates televisionados, inaugurando a era em que a imagem era tão ou mais importante do que a mensagem veiculada. Ainda nos anos 60, nas primárias de 1968, a   ABC inovou com os debates comentados das primárias dos partidos republicano e democrata pelos “melhores inimigos” William Buckley e Gore Vidal.

Agora a cobertura política trazia dois comentadores intelectuais, oriundos da classe alta, com sotaques que não deixavam dúvidas de suas ascendências aristocráticas, tão parecidos e tão diferentes, matéria e antimatéria, o fundador da National  Review e o autor de Myra Breckinridge. Apesar da grande força intelectual de ambos, o que hipnotizava as pessoas era mesmo o imenso desprezo que um tinha pelo outro e que não faziam questão de esconder. Mais do que as opinões de Buckley e Vidal sobre política, importava a raiva de um pelo outro. Ambos  forneceram aos telespectadores o show que eles queriam, com muitas trocas de “gentilezas” que tiveram seu ápice no penúltimo debate com Vidal chamando Buckley de “Cripto-nazista” e com Buckley dizendo, ‘Now listen, you queer — stop calling me a crypto-Nazi or I’ll sock you in your goddamn face and you’ll stay plastered!” Vidal sentiu-se vencedor. Tinha conseguido irritar o adversário até o ponto sem retorno. Ao final do debate, Vidal sussurrou baixinho para um Buckley ainda fora de si: “parece que demos a eles o que eles queriam”. É o espetáculo das fraquezas expostas, dos ódios canalizados. Como um ótimo entertainer do século XXI, Trump sabe explorar isso no novo contexto da auto-comunicação de massa como poucos. Ele entende que nesse novo admirável mundo, conteúdo não é a questão, mas sim a forma, sempre bombástica, espetacular, bufônica.

O candidato Trump não consegue se aprofundar em um tema sequer, seja de política interna ou externa. Mas na comunicação de twitters, facebooks e instagrams, isso importa pouco. Nessa era, o candidato não precisa de plataformas ou programas, precisa de slogans. O que vale é o imediatismo midiático. É a política pop – pop-politics . A imagem é tudo. E Trump passa a imagem de um líder forte, bem sucedido. Na terra em que loser é um xingamento cruel, Trump é o anti-Charlie Brown, o anti-loser. Possui a imagem de um vencedor. Em 02 de Dezembro de 2015 o candidato declarou no programa Fox and Friends “When you get these terrorists, you have to take out their families, they care about their lives, don’t kid yourself.” Tal declaração vazia de sentido e de possibilidade prática (trata-se de um crime de guerra), encontra eco na cabeça dos telespectadores que se divertem com a verborragia fácil e as agressões gratuitas de um parlapatão. Quando confrontado no 11º debate do partido em Detroit com o fato de que as forças armadas poderiam não seguir tais ordens (afinal, como mencionamos, trata-se de um crime de guerra), Trump simplesmente retrucou: “eles vão obedecer. Eu sou um líder.” Aí está. Sem explicações, aprofundamentos, razões, sem complicações legais, basta o slogan ‘eu sou um líder’ e a massa de Homers se sente hipnotizada e confortada pela segurança dada pelo guru.

Os outros candidatos, ao invés de exporem a inconsistência político-ideológica de Trump, são arrastados para o debate midiático-circense, tendo como grande ápice até aqui a questão levantada por Marco Rubio sobre o tamanho das mãos de Donald Trump (que seriam muito pequenas) e as possíveis implicações disso em outras partes da anatomia do candidato. O telespectador, anestesiado, parece estar assistindo não a um debate político, mas a mais um  embróglio de seu reality show predileto.  Contudo trata-se de reality show bastante perigoso, porque o vencedor poderá vir a  ser presidente dos Estados Unidos. E se a presidência é um lugar de poder, a presidência dos Estados Unidos é o lugar de poder por excelência. Schlesinger anteriormente (Schlesinger, 1973) e Anderson mais recentemente ( Anderson, 2015) têm mostrado como a presidência dos Estados Unidos, ao tomar para si algumas atribuições que originalmente deveriam ser do legislativo, tornou-se um locus de poder extraordinário (Schlesinger chama de ” The Imperial Presidency”).

A Guerra ao terror, por exemplo, pode ser gerenciada por instruções presidenciais que dispensam autorizações do congresso, e Anderson nos lembra que a administração Obama, considerada por muitos como branda (e pelos republicanos como muito branda) ordenou um ataque de drone a cada quatro dias É verdade que tais acões  eliminaram  terroristas, mas também crianças, mulheres e médicos, como sabemos. Assim, é justificada a apreensão (ou diversão?)  com que todo o mundo acompanha hoje o que acontece no partido republicano. Roger Waters, que com Syd Barret liderou por muito tempo o Pink Floyd, escreveu uma canção de 1992  em que alienígenas chegam a uma terra destruída e tentam descobrir o que aconteceu com o ser humano que foi extinto. Ao encontrarem muitos fósseis reunidos ao redor de seus aparelhos de TV (estariam hoje colados aos seus smartphones?) os antropólogos alienígenas constatam: “This species has amused itself to death.” O eleitor precisa entender que esse não é um momento de diversão, mas de instrução, de debate de temas importantes, de aprender o que os candidatos pensam e querem para o país.

Um dos últimos candidatos de um dos dois grandes partidos a tentar fazer uma campanha em que se tenta debater ideias e planos para o país de maneira a ajudar na educação política do eleitor foi  Adlai Stevenson, nas suas campanhas de 1952 e 1956. Ele discursou dizendo “let’s talk sense to the American people. Let’s tell them the truth… Better we lose the election than mislead the people.” (Stevenson,1953).  Bom, o resultado disso foram duas derrotas consecutivas em 1952 e 1956. Os Simpsons, em um episódio que foi ao ar em 18 de fevereiro de 1996, intitulado “Lisa the iconoclast‘, mostram como Lisa Simpson, ao descobrir que o pretenso herói fundador da cidade era na verdade um escroque, tenta expor a verdade a toda a comunidade de Springfield. A prova definitiva de que Lisa estava certa havia sido enterrada com o falso herói, Jebediah Springfield, e por isso eles têm de exumar o corpo do fundador. Enquanto escavam o túmulo de Jebediah, com quem todos se preocupam, a terra é lançada em uma sepultura atrás, na qual ninguém está prestando atenção, e na qual os telespectadores podem ler “Adlai Stevenson”.  Ao fim, Lisa desiste de contar a verdade à comunidade, porque a boa imagem dele significa muito para a cidade. E sabemos que imagem conta muito. A política é pop, e campanhas como a de Stevenson em 1952 estão mortas. O eleitor não quer se educar politicamente. Quer se divertir.  Vamos nos divertir. “This species has amused itself to death.

Referências

David Fernando Nogueira da Silva, Doutorando em História Política pelo Departamento de História da Universidade de Brasília (nogueira.david7@gmail.com).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Donald Trump: eleições nos EUA e a política pop, por David Nogueira da Silva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 22/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/22/donald-trump-eleicoes-nos-eua-e-a-politica-pop-por-david-fernando-nogueira-da-silva/>.

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