BRICS: prioridades, interesses e performance, por Thaís M. Fernandes

image_pdfimage_print

Desde o seu surgimento, em 2001, quando Jim O’Neil publicou o relatório “Building Better Global Economic BRICs” (O’NEIL, 2001), o termo BRIC tem passado por significativas transformações. De um acrônimo de quatro países (Brasil, Rússia, Índia e China), com significado essencialmente econômico, BRIC passou a ser um grupo político, em 2006, quando houve a primeira reunião de ministros, e se fixou como coalização a partir de 2009, quando, desde então, os chefes de Estado passaram a se reunir anualmente (BRASIL, 2015).

Com o objetivo central de pressionar por reformas nas instituições econômicas mundiais e por mais representatividade para os países em desenvolvimento (BRASIL, 2015), os BRICs (com s minúsculo), que se tornaram BRICS (com S maiúsculo) em 2010, com a adesão da África do Sul, ocuparam espaço nos mais variados noticiários internacionais e meio acadêmico. Mais do que retórica, e muito além de um mero acrônimo econômico, os países dos BRICS se posicionaram como peça importante na nova arquitetura econômica global, sobretudo em 2014, quando, em Fortaleza, no Brasil, anunciaram o lançamento do New Development Bank (NDB) e do Contingency Reserve Arrangment (CRA).

As duas instituições, em teoria concebidas para complementar, e não rivalizar, as de Washington, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, foram avaliadas como importantes por intelectuais renomados, do porte de Joseph Stiglitz, o qual já afirmou, por exemplo, que o Banco Mundial, sozinho, não tem os recursos que o mundo precisa para continuar o seu processo de desenvolvimento (STIGLITZ, 2015).

Outros analistas, contudo, a exemplo de Joseph Nye e Daniel Drezner, vêm os BRICS com desconfiança e ceticismo. Para o primeiro, o BRICS é um grupo frágil de países díspares, com pouco interesse comum (NYE, 2010). Para o segundo, “os BRICS já morreram” (DREZNER, 2014). Com a desaceleração econômica e com o fim do fundo de investimentos BRIC, do Goldman Sachs (XIE, 2015), falar em BRICS, na atual conjuntura, teria perdido totalmente o sentido.

Em certa medida, malgrado o lançamento do banco e da reserva, o grupo, de fato, não tem passado por um bom momento, nem produzido outros resultados. Economicamente, todos os cinco países estão desacelerando. A China, que crescia cerca de 10% ao ano quando o termo foi criado, está prevista para crescer taxas inferiores a 7%, no que tem sido chamado de “novo normal”. O Brasil e a Rússia, com crescimento negativo, ainda sofrem de uma economia pouco diversificada e suas limitadas performances econômicas destacam os problemas sociais desses países que ainda lutam para reduzir desigualdades sociais e a pobreza, assim como a Índia e a África do Sul.

No Brasil, um outro elemento, a crise política, aumenta a possibilidade de o Partido dos Trabalhadores (PT) deixar o comando do governo nas próximas eleições. Caso a oposição vença, é provável que ocorra uma guinada na política externa brasileira, voltando a valorizar eixos tradicionais da diplomacia, como os Estados Unidos e a União Europeia, em detrimento das parcerias Sul-Sul, priorizadas nos governos Lula e Dilma.

Para complicar, na China, com o lançamento do projeto One Belt One Road e do Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento, tudo indica que ela está voltando os olhos para novas instituições regionais e globais nas quais ela possa ditar as regras do jogo sozinha. Segundo Gabuev (2015), a China teria se cansado das inúmeras frustrações em instituições multilaterais, cujas negociações são demoradas, cheias de rivalidade e nem sempre alcançam suas expectativas.

De fato, em 2015, a China conseguiu, sozinha, incluir sua moeda na cesta que compõe os Direitos Especiais de Saque, do FMI. Na sequência, este também anunciou a tão esperada reforma nas quotas e voto do Fundo, aumentando a participação dos países em desenvolvimento, porém de forma irrisória. Conforme análise do Bloomberg View (2015), a reforma veio tarde, e foi pouca. “A China não pode pôr mais todos os seus ovos em uma mesma cesta (BLOOMBERG VIEW, 2015).” Ademais, se quiser, pode, sozinha, lutar para abocanhar maior espaço e representatividade, sem necessitar da parceria com os outros BRICS.

O Presidente Xi Jinping, em inúmeras ocasiões, afirmou que os BRICS são cinco dedos de uma mesma mão. Ou seja, para ser bem-sucedido, o grupo precisaria do comprometimento dos cinco países e atuação coordenada e conjunta. Como se viu, porém, ao longo deste artigo, esse comprometimento, contudo, tem sido duvidoso. A euforia inicial e a elevada autoestima deram lugar às preocupações econômicas e as agendas individuais domésticas parecem ofuscar qualquer atuação em bloco.

Nesse contexto, o futuro dos BRICS, como grupo, parece estar mesmo passando por um momento nebuloso, de modo que as narrativas pessimistas, como as de Nye e Drezner, tendem a ganhar força. Para os BRICS, caso ainda haja interesse em fazer o grupo reluzir, é necessário, portanto, produzir mais resultados e provar, por exemplo, que o Banco, recém instaurado em Shanghai, é uma importante instituição, produzida pelos BRICS, capaz de financiar grandes projetos estratégicos.

Conforme analisam Krishnan e Martin (2006), há uma relação direta entre confiança e performance. Ou seja, se os BRICS, como qualquer outro agrupamento, desejam ser reconhecidos como uma instituição eficiente e de credibilidade, é essencial que produzam mais resultados. Assim, se quiserem escrever uma narrativa duradoura, de mais otimismo e respeito, e manter o bloco como uma instituição influente na governança global, é necessário mais comprometimento. Este ano, portanto, em Délhi, quando ocorrerá a próxima reunião de líderes, os BRICS têm a chance de reforçar sua aliança ou confirmar o declínio de sua parceria.

Referências:

BLOOMBERG. Company Overview of Goldman Sachs Trust – Goldman Sachs BRIC Fund (Brazil, Russia, India, China). Bloomberg, 2015. Available at: http://www.bloomberg.com/research/stocks/private/snapshot.asp?privcapId=48943491

BRASIL. Information about BRICS. Ministry of Foreign Affairs. MRE, 2015. Available at: http://brics.itamaraty.gov.br/about-brics/information-about-brics

DREZNER, Daniel. The rise and fall of the BRICS. The Washington Post, 2014. Available at: https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2015/11/10/the-rise-and-fall-of-thebrics/

KRISHNAN, Rekha e XAVIER, Martin. When does trust matter to alliance performance? Academy of management journal 2006, vol. 49, no. 5, 894–917.

NYE, Joseph. What is in a BRIC? Project Syndicate, 2010. Available at: http://www.projectsyndicate.org/commentary/what-s-in-a-bric

ONEIL, Jim. Building Better Global Economic BRICs. Volume 66 of Global economics paper: Goldman, Sachs & Co. Publisher, Goldman Sachs, 2001.

STIGLITZ, Joseph. America in the Way. Project Syndicate, 2015. Available at: http://cgt.columbia.edu/news/stiglitz-america-in-the-way/

XIE, Ye. Goldman’s BRIC Era Ends as Fund Folds After Years of Losses. Bloomberg, 2015. Available at: http://www.bloomberg.com/news/articles/2015-11-08/goldman-s-bric-era-endsas-fund-closes-after-years-of-losses

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "BRICS: prioridades, interesses e performance, por Thaís M. Fernandes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 20/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/20/brics-prioridades-interesses-e-performance-por-thais-moretz-sohn-fernandes/>.

Seja o primeiro a comentar