A Igreja Católica, o meio-ambiente e a governança global, por Estevan Coca

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No dia 28 de fevereiro de 2013, o alemão Joseph Ratizinger (Papa Bento XVI) causou grande surpresa ao anunciar a sua renúncia do cargo máximo da Igreja Católica. Poucos dias depois, em 13 de março de 2013 foi anunciado seu sucessor, o cardeal argentino Mário Jorge Begoglio, pertencente à ordem dos jesuítas. Com isso, pela primeira vez, um bispo de origem latino-americana ocupava o papado. Uma indicação do que seria seu programa de governo foi dada quando ele decidiu adotar o nome de Francisco, numa referência a São Francisco de Assis, o qual viveu durante o período medieval, se caracterizando pela opção pela pobreza, o trabalho junto aos pobres e a relação muito próxima com a natureza (Boff 1999).

Durante seu mandato, Bento XVI se dedicou à Hermenêutica da Continuidade, que visava ler o Concílio Vaticano II sem romper com à tradição da Igreja Católica (Dias 2009). Sua inserção diplomática foi de pequena significância. Já Francisco, tem focado temas como uma maior abertura para casais de segunda união, a inserção de homossexuais na vida das comunidades, a crítica ao caráter predador do capitalismo e uma maior aproximação com os movimentos sociais. Isso se dá porque o papa latino-americano tem dado abertura para a aplicação de alguns dos pressupostos da Teologia da Libertação, uma leitura do Evangelho fortemente influenciada pelo marxismo e que tem por lema a “opção preferencial pelos pobres” (Mitidiero Júnior 2008; Gutierrez 1975; Felício 2005).

Os primeiros anos de Francisco no papado têm se caracterizado por uma reafirmação da diplomacia da Igreja Católica como um importante ator global. Tem sido cada vez mais frequente o posicionamento dessa instituição frente a problemas políticos, sociais, ambientais e econômicos atuais. Como exemplos disso podem ser citados: i) a reaproximação entre os governos dos Estados Unidos e de Cuba, através da mediação de Francisco; ii) os claros posicionamentos em favor da acolhida de refugiados (muitos dos quais de origem islâmica) pelos países europeus, sendo a visita de Francisco, à ilha italiana de Lampedusa – um dos principais pontos de entrada desses no continente europeu – o maior ato simbólico dessa proposição e; iii) um claro posicionamento favorável aos países que são considerados como que a “periferia do mundo”, superando a visão de que as principais decisões devem partir dos governos europeus e dos Estados Unidos.

A primeira Encíclica assinada por Francisco (2013) foi a Lumen Fidei (Luz da Fé), com conteúdo quase que exclusivamente de cunho espiritual, sem trazer maiores preocupações com problemas materiais do mundo contemporâneo. Todavia, essa já vinha sendo elaborada por seu antecessor, por isso, trouxe apenas parcialmente sua visão de mundo.

O caráter inovador da abordagem de Francisco (2015) seria explícito em junho de 2015 com o lançamento da Encíclica Laudato Si (Louvado Seja), que trouxe uma leitura sobre os principais problemas ambientais contemporâneos. O título da Encíclica é uma referência ao Cântico das Criaturas, um poema de São Francisco de Assis. Nesse documento papal, o mundo é tradado como “a casa comum” e os problemas ambientais são abordados através de uma forte crítica ao modo capitalista de produção e o consumismo incentivado por ele. Fala-se na necessidade de uma “conversão ecológica global”, que consistiria numa mudança de comportamento frente ao meio ambiente, tendo por motivação um impulso de fé (p.165).

A importância desse documento é que ele denota uma atuação propositiva da Igreja Católica na discussão sobre os problemas ambientais que caracterizam o mundo atual. Essa instituição tem deixado de exercer um papel exclusivamente espiritual para se tornar uma importante voz no questionamento aos efeitos éticos da expansão do capitalismo. Ou seja, ela tem defendido que o desenvolvimento econômico não pode ser colocado como principal referência para os diversos níveis de governo, pois também devem ser levados em consideração os aspectos sócio-ambientais.

Assim, a contribuição que a Igreja Católica pretende oferecer na discussão sobre os problemas ambientais atuais refere-se, principalmente, à dimensão política a eles relacionada. Ao abordar a corrente crise climática foca-se a necessidade de que as propostas de mudança na relação entre a sociedade e o meio-ambiente não sejam apenas pontuais, mas envolvam, cada vez mais, as diferentes escalas do globo. De tal modo argui-se que

Um mundo interdependente não significa unicamente compreender que as consequências danosas dos estilos de vida, produção e consumo afectam a todos, mas principalmente procurar que as soluções sejam propostas a partir duma perspectiva global e não apenas para defesa dos interesses de alguns países (Papa Francisco 2015, p.127).

Assim, fica clara a proposição de que sejam criadas políticas globais para tratar dos principais problemas que afetam grande parte da população global. Ou seja, é dada ênfase à necessidade de se pensar em escalas de governança que vão além das do Estado-Nação. Deve-se pensar numa concepção societária de desenvolvimento.

Num contexto em que o maior problema para a ocorrência de acordo climáticos esbarra na não aceitação das grandes potências, como os Estados Unidos, em reduzir seus indíces de emissão de gases poluentes (Viola e Fraga 2015; Martine e Alves 2015), esse posicionamento da Igreja Católica por meio de Francisco, destaca que sérios problemas como o aquecimento global só poderão ser enfrentados se houver a contribuição de todos. Nesse caso, apela-se para a necessidade de uma tomada de decisão conjunta, que agregue os esforços de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento.

Assim, a proposição de um mecanismo de governança ambiental global denota a nova postura diplomática que tem sido adotada pela Igreja Católica no papado de Francisco. Sumarizando, são elementos característicos desse processo: i) a adoção de uma postura crítica ao modelo de desenvolvimento capitalista; ii) a discussão sobre os aspectos éticos da opção pelo crescimento econômico como objetivo principal dos governos e; iii) a comunicação dos valores do Evangelho não apenas na escala do indivíduo, mas, principalmente, considerando o corpo social.

Destacar essa tomada de posição se faz de grande relevância para o estudo das relações entre os governos, haja vista que a Igreja Católica se constitui não apenas como um Estado independente, que possui como sede o Vaticano, mas, principalmente, porque ela exerce uma grande influência na tomada de posição de indivíduos em diversas partes do globo.

Referências

Boff, Leonardo. 1999. Sao Francisco de Assis – Ternura E Vigor. Petrópolis: Vozes.

Dias, Juliano Alves. 2009. “Bento XVI E a Hermenêutica Da Continuidade.” In Anais Do II Encontro Nacional Do GT HIstória Das Religiões E Das Religiosidades, 1–19. Maringá: Revista Brasileira de História das Religiões – ANPUH.

Felício, Munir Jorge. 2005. “Ação Pastoral E Questão Agrária No Pontal Do Paranapanema.” Revista NERA, no. 7: 112–24.

Gutierrez, Gustavo. 1975. Teologia Da Libertação. Petrópolis: Vozes.

Martine, George, and José Eustáquio Diniz Alves. 2015. “Economy, Society and Environment in the 21 St Century: Three Pillars or Trilemma of Sustainability ?” Revista Brasileira de Estudos Da População 32 (3): 433–59.

Mitidiero Júnior, Marco Antonio. 2008. “A Ação Territorial de Uma Igreja Radical: Teologia Da Libertação , Luta Pela Terra E Atuação Da Comissão Pastoral Da Terra No Estado Da Paraíba.” Universidade de São Paulo.

Papa Francisco. 2013. “Lumen Fidei.” Roma: Vaticano.

———. 2015. “Laudato Si’.” Roma: Vaticano.

Viola, Eduardo, and Cristina Fraga. 2015. “Os Limites Estruturais Do Acordo de Paris E a Transição Para Uma Economia de Baixo Carbono.” Folha de São Paulo.

Estevan Leopoldo de Freitas Coca, Doutorando em Geografia – FCT/Unesp

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A Igreja Católica, o meio-ambiente e a governança global, por Estevan Coca". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 16/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/16/a-igreja-catolica-o-meio-ambiente-e-a-governanca-global-por-estevan-coca/>.

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