“Elections as circus”: os EUA e as raízes domésticas e globais de uma era de radicalismos, por Bruno Hendler

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As eleições presidenciais nos Estados Unidos, com seus personagens, factoides e debates ao vivo, são um retrato instantâneo de processos conjunturais e estruturais de mais longo prazo, nos quais o país é, a um só tempo, protagonista e espectador. A alta popularidade dos dois candidatos mais extremos no espectro político do país, Bernie Sanders e Donald Trump (este, equiparado pelo ultra-conservador Ted Cruz), nos diz muito sobre a conjuntura político-econômica dos EUA e nos permite refletir sobre algumas tendências globais após a crise de 2008.

Enquanto a maior parte das análises sobre a corrida presidencial faz projeções para o futuro e calcula as chances de um ou outro candidato, a proposta deste breve ensaio é outra: buscar as raízes domésticas e globais da polarização do debate que já começa a tomar forma, mas que só será decidido ao final de 2016.

As pré-candidaturas do democrata Bernie Sanders e do republicano Donald Trump têm um denominador comum. Embora tenham trajetórias de vida muito distintas, a popularidade de ambos é produto direto da crise financeira de 2008 e, numa perspectiva mais ampla, de um declínio relativo da pujança econômica e do poder dos EUA. Ambos são apenas pré-candidatos e podem nem vir a disputar as eleições presidenciais, mas o respaldo que têm de diferentes camadas da sociedade norte-americana diz muito sobre fatos e conjunturas do país. E embora seus discursos sejam altamente inflamados porque, por enquanto, se dirigem apenas a seus colegas de partido, é possível identificar um padrão de polarização.

A popularidade de um candidato que se diz “socialista” nos EUA e de outro que promete deportar imigrantes ilegais e refere-se a minorias de forma grosseira e pejorativa decorre essencialmente da polarização do eleitorado norte-americano. Esse duplo movimento, de oscilação entre forças de proteção social versus forças de mercado, é uma recorrência histórica de acordo com Karl Polanyi (2000), mas a polarização que parecia atingir seu auge em 2008, acentuou-se ainda mais desde então. A pesquisa realizada pela PEW Research Center demonstra que a proporção de norte-americanos que se identificam “fortemente” como liberais ou conservadores saltou de 10% para 21%, enquanto a faixa dos eleitores “medianos” caiu consideravelmente.

 

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Fonte: PEW Research Center[1]

A polarização do discurso político ganhou força na época de George W. Bush e nas eleições de 2008, mas se acentuou nos anos seguintes em decorrência da crise financeira de 2007/2008, a qual gerou dois tipos de insatisfação muito bem explorados por Sanders e Trump.

O discurso de Trump é herdeiro do recente fenômeno do Tea Party, que surgiu em 2009, logo após a vitória de Barack Obama, e que ocupou uma quantidade considerável de cadeiras do Congresso nas eleições legislativas de 2010. A plataforma de Trump e o próprio Tea Party têm raízes no movimento neoconservador dos anos 1960 e 1970 e em sua cria institucional, o Project for the New American Century (PNAC) – responsável inclusive pela malfadada aventura dos EUA no Iraque em 2003.

Utilizando de sua própria biografia como empresário bem sucedido, Trump dirige o discurso para seus pares, que se sentem prejudicados pelo aumento de impostos no governo Obama, pela tentativa de regulação do mercado financeiro após a crise de 2008 e pelos gastos públicos com programas sociais que, em sua visão, seriam mais eficientes e mais baratos se estivessem nas mãos de empresas privadas.

Além dos empresários, Trump também busca apoio na classe média branca, de meia-idade e masculina, que se sente prejudicada pela ascensão de minorias e se vê ameaçada pela “destruição criativa” do capitalismo que “rouba” empregos dos EUA para “recriá-los” na Ásia e em outros países em desenvolvimento. Esse processo culmina no que Beverly Silver (2003) chama de “Polanyi-type labor unrest”[2], que ocorre quando classes trabalhadoras são desfeitas devido ao deslocamento de capital para regiões mais competitivas e, por isso, tendem a se revoltar contra o pacto social em que estão inseridas. Daí deriva, inclusive, a obsessão do pré-candidato com a China, vista como o próximo grande desafio para os EUA, tanto em termos econômicos quanto geopolíticos.

Do outro lado, Sanders busca apoio em grupos que ganharam voz e força para colocar em pauta suas prioridades, as quais giram em torno de discriminação (no caso dos negros), legalização (no caso dos latinos), igualdade de gênero (no caso das mulheres), dentre outras. Ademais, entre essas minorias, há também uma agenda comum relacionada a seguridade social, serviços públicos de saúde que deem um mínimo de garantia e conforto e a manutenção da tendência de crescimento relativo de renda obtida durante a Era Obama.

Além das minorias, a candidatura de Sanders também é produto do movimento “Occupy Wall Street” (outro produto da crise de 2008), encabeçado majoritariamente por jovens das grandes cidades, que temem pelo desemprego, mas que, ao contrário dos homens brancos de meia idade, responsabilizam o establishment financeiro, os bancos, as grandes corporações e a especulação pelos desatinos recentes da economia. E para esses jovens nascidos nos anos 1980 e 1990 e que não viveram a paranoia da Guerra Fria, o fato de o pré-candidato declarar-se “socialista” deixa de ser prejudicial e pode até ter um impacto positivo, desde que reduza as desigualdades e dê continuidade a uma política externa menos “missionária” como a de Bush e mais multilateral como a de Obama.

Entre ambos, está a candidatura de Hillary Clinton, também pelo partido Democrata, que representa mais continuidade do que mudança, mais moderação do que polarização. Diante dos resultados da Super Tuesday de 1º de março, ela tende a ser a favorita tanto nas primárias democratas quanto na futura disputa com o vencedor das primárias republicanas. Porém, este ensaio não pretende traçar um perfil dos candidatos, e sim compreender o fenômeno da polarização do eleitorado norte-americano. Assim, ainda que Clinton ganhe as duas etapas, sua vitória não esconderá o acirramento da polarização do discurso político nos EUA, também expresso pela matéria da revista Squire[3].

Portanto, a partir do exame da base de apoio aos dois candidatos mais extremos no espectro político, podemos chegar a algumas considerações de maior escopo e de mais longa duração sobre os EUA e sobre o mundo:

  • Trump representa uma direita conservadora que, na esteira da crise econômica, flerta com o fundamentalismo religioso e com a xenofobia, além de pregar os mitos da meritocracia e dos inimigos (internos e externos) que conspiram contra a identidade e a prosperidade do homem comum, o cidadão “de bem” norte-americano.
  • O fortalecimento da direita conservadora também ocorre nos países europeus, para onde a crise de 2008 se alastrou. Lá, assim como nos EUA, a classe média estabelecida sofre com a perda relativa de seu poder de compra e com a crise do Estado de bem-estar social, provocando uma polarização do espectro político e colocando em xeque o projeto de integração europeia. Tanto na Europa quanto nos EUA, as frustrações decorrentes desses processos tendem a ser atribuídas a grupos minoritários, especialmente pobres e imigrantes.
  • Após EUA e Europa, uma terceira onda da crise econômica se alastrou para o mundo em desenvolvimento e, como consequência, países como Turquia, Brasil, Egito e Rússia viveram (e alguns ainda vivem) tempos sombrios de sublevações populares, instabilidade política e idolatria a políticos da extrema direita. Mas nesses casos, as motivações são difusas e derivam tanto das elites e das classes-médias estabelecidas, que percebem seu estilo de vida ameaçado, quanto das chamadas “novas classes-médias”, que trazem outros questionamentos à ordem estabelecida. E no Brasil, assim como na Turquia e no Egito, o fundamentalismo religioso parece ser o pano de fundo desses recentes processos.
  • Grosso modo, dois movimentos aparecem como contraponto (e retroalimentação) ao avanço das forças conservadoras no Atlântico Norte e no Sul Global atingido pela crise. O primeiro é a própria mobilização da esquerda, não apenas em partidos políticos, mas em organizações de classe, gênero, raça e agendas específicas como meio ambiente e energias renováveis. Essa é a base de apoio a candidatos como Bernie Sanders, que também possui uma retórica agressiva e autoproclamada revolucionária porque diz-se crítica ao status quo das instituições estabelecidas e enaltece a contribuição das minorias à sociedade.
  • O segundo movimento é econômico e geopolítico: o rearranjo das cadeias produtivas globais centrado na Ásia Oriental. A lógica da “destruição criativa” fica evidente conforme um novo tipo de pacto social emerge nessa região desde meados do século XX, aliando uma expansão material capitalista sem precedentes com regimes políticos de partido único. Tendo a China como principal força motriz, esse processo promove uma nova hierarquização da divisão internacional do trabalho, na qual países africanos e latino-americanos são (re)enquadrados na função de exportadores de commodities e os países desenvolvidos veem seus mercados serem invadidos por produtos orientais e suas empresas enfrentarem uma competição feroz nos setores de tecnologia de ponta. Portanto, a ascensão econômica da China (mas também da Índia e dos tigres asiáticos) é, ao mesmo tempo, um foco de insatisfação das classes-médias no Ocidente desenvolvido, porque pressiona salários e empregos, e uma contestação à visão de mundo da direita conservadora, porque demonstra que o desenvolvimento não passa, necessariamente, pelo receituário do Consenso de Washington. Assim, a percepção de que “os EUA já não é a maior potência do planeta” empurra eleitores para o curral eleitoral de candidatos que bradam pela retomada da hegemonia norte-americana à força, como Donald Trump.

Muitos especialistas afirmaram que Obama só foi eleito em 2008 por causa da crise econômica e que, em “condições normais”, os norte-americanos não teriam escolhido um negro, filho de queniano que assina “Hussein” como nome do meio. Naquele contexto, o espectro político pendeu para padrões inesperados da esquerda em um país como os EUA. Na corrida presidencial de 2016, o espectro parece pender para o extremo oposto com Trump, embora Sanders ainda tenha chances. E, ainda que Hillary Clinton seja a favorita nas primárias e na disputa posterior contra o futuro candidato republicano, tanto Trump quanto Sanders nos lembram que a polarização do discurso político nos EUA e em boa parte do mundo tem dado as caras. Resta saber se será uma tendência passageira ou a regra para os próximos anos.

 

[1] Disponível em: http://www.people-press.org/2014/06/12/political-polarization-in-the-american-public/

[2] Silver (2003, p. 20) identifica dois tipos de revoltas trabalhistas: as Marx-type labor unrest e as Polanyi-type labor unrest. Em suas palavras: “By Polanyi-type labor unrest, we mean the backlash resistances

to the spread of a global self-regulating market, particularly by working classes that are being unmade by global economic transformations as well as by those workers who had benefited from established social compacts that are being abandoned from above. And by Marx-type labor unrest, we mean the struggles of newly emerging working classes that are successively made and strengthened as an unintended outcome of the development of historical capitalism, even as old working classes are being unmade”.

[3] Link para a matéria: http://www.esquire.com/news-politics/a40693/american-rage-nbc-survey/

 

Referências

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro, Compus, 2000.

SILVER, Beverly. Forces of labor: workers’ movements and globalization since 1870. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

 

Bruno Hendler é doutorando em Economia Política Internacional pela UFRJ e bolsista Capes

 

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "“Elections as circus”: os EUA e as raízes domésticas e globais de uma era de radicalismos, por Bruno Hendler". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 05/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/05/elections-as-circus-os-estados-unidos-e-as-raizes-domesticas-e-globais-de-uma-era-de-extremos-por-bruno-hendler/>.

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