As Eleições Primárias nos EUA: Rumo a Novembro, por Cristina Pecequilo

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Em 2015, os Estados Unidos começaram a viver um clima de eleição presidencial, preparando a sucessão do atual ocupante da Casa Branca Barack Obama. Enquanto Obama procura fazer história neste final de segundo mandato, contrariando previsões de que seria, como outros antes dele, apenas uma figura decorativa no cargo, os potenciais adversários democratas e republicanos se confrontavam de forma antecipada. A luz de medidas marcantes como a retomada das relações diplomáticas com Cuba, a assinatura da Parceria do Pacífico (TPP), as negociações com para a Parceria Transatlântica (TTIP) com a União Europeia, as disputas com os emergentes e a gestão, sem sucesso, da crise do Estado Islâmico, os norte-americanos deparam-se com um mundo paralelo.

Neste outro universo, os pré-candidatos, tanto democratas quanto republicanos, majoritariamente apontam a existência de um país em profunda crise, à exceção de Hillary Clinton, que defende a continuidade, e um projeto de Estado mais coerente. Ninguém pode negar que os Estados Unidos possuem problemas sociais, econômicos, políticos e estratégicos, são afetados quase que diariamente pela violência endêmica e pelas desigualdades sociais, tanto que estes temas são foco das campanhas. Porém, o país se encontra em um processo de recuperação econômica, que deixou para trás a recessão de 2007/2008. Mais ainda, existe uma ofensiva que coloca em xeque as previsões de declínio, com medidas de contenção de nações como China, Brasil, Rússia e Índia, que pressionam suas economias e coalizões. Polarizadas, estas tendências de choque entre o discurso e a realidade permitem traçar as principais dinâmicas do atual estágio das primárias.

No campo democrata, os meses de Fevereiro-Março representaram um período desafiador para a até então favorita à indicação, a ex-Senadora e ex-Secretária de Estado Hillary Clinton. A rápida ascensão de Bernie Sanders como o candidato da “nova política” no segundo semestre de 2015 impôs algumas derrotas a Clinton nas primárias de Fevereiro. Estas vitórias de Sanders e o que os analistas norte-americanos chamam de “momento” permitiram-lhe ocupar amplo espaço na mídia, a despeito da fragilidade de suas propostas autodefinidas como revolucionárias e socialistas, entendendo-se “socialismo” como a expressão dos liberais estadunidenses e não um movimento de esquerda.

Sanders foi construído como um candidato “anti-Washington e anti-Wall Street” para promover uma revolução contra os ricos e os grandes grupos de interesse. A utopia dos financiamentos de campanhas populares, o apelo aos jovens e ao politicamente correto contribuíram para que o candidato ocupasse, desproporcionalmente, espaço na mídia. Em alguns momentos, o fantasma das primárias de 2008 quando a candidatura Hillary foi solapada por Obama pairou nas previsões. Porém, Sanders nunca foi Obama, apenas soube instrumentalizar com simpatia um discurso populista anti-sistema. Com isso, superestimou-se sua capacidade de avançar além de redutos eleitorais brancos, de classe média e elites.

Esta realidade ficou bastante clara com os resultados da Super Terça quando sua candidatura foi rejeitada pelas minorias negra e latina, e os brancos pobres. Na noite de 1º de Março, Clinton derrotou maciçamente Sanders nos estados do Sul e obteve vantagem em outros conquistando Alabama, Georgia, Tennessee, Virginia, Arkansas, Texas, Massachusetts e Samoa (Sanders venceu em Vermont, Oklahoma, Minnesota e Colorado). Mesmo faltando várias etapas até a Convenção Nacional, a candidatura Hillary parece ter ultrapassado os piores momentos.

Mas se o teor folclórico parece esgotar-se do lado democrata o mesmo parece não se aplicar às primárias republicanas, com a ascensão de Donald Trump. Personalista, televisivo, populista, agressivo, polêmico, Trump vive a eleição presidencial desde que decidiu se tornar pré-candidato como um reality show. Assim como Sanders, Trump sintetiza, e até de forma mais sólida, a imagem do outsider, que colocará “ordem” em Washington, gerindo o país como uma empresa. Trump externaliza os problemas do país, não culpando só os políticos, mas também os imigrantes, os terroristas, os mexicanos, os chineses, as drogas, e assim por diante. Embora desagrade a bancada mais religiosa do partido por seu estilo de vida, Trump conseguiu o apoio do movimento do Partido do Chá, representado por figuras como Sarah Palin.

Trump é produto da fragmentação partidária republicana que George W. Bush gerou no século XXI, ao reduzir o debate político a posições religiosas, sociais, conservadoras, unilateralistas e militaristas. Ao desconstruir o então governo Clinton em 2000 nestas bases, W. Bush desorganizou parcialmente o campo democrata, que se recuperou com Obama, e profundamente o republicano: unir apenas pelo discurso do contra aquilo que é diferente é pouco para um país como os Estados Unidos, mas foi funcional naquele momento. Agora, pressiona a agenda moderada conservadora, que desaparece cada vez mais e não encontra espaço no partido.

Paradoxalmente, foi esta realidade que colocou um fim antecipado, mesmo antes da Super Terça, à candidatura de Jeb Bush, irmão do ex-presidente. A soma dos fracassos político-econômicos da Era W. Bush a estas polarizações pode ter encerrado uma das mais importantes trajetórias políticas de uma família no país. Jeb sempre foi definido como mais próximo aos moderados do que aos neoconservadores, mas esta previsão, assim como a expectativa do enfrentamento Clinton X Bush não mais ocorrerá.

Dentre os que permanecem enfrentando Trump, os principais são Ted Cruz, Marco Rubio e Kasich (este último quase descartado). Tanto Cruz quanto Rubio alternam-se no segundo e terceiro lugares nas primárias, empatados tecnicamente, com ligeira vantagem a Cruz sustentado pela direita religiosa e os neoconservadores. Cruz conseguiu boas vitórias em Iowa, Alaska, Oklahoma e Texas, enquanto Rubio apenas venceu em Minnesota até agora. De Rubio pouco se sabe, além de representar a minoria latina, e buscar um espaço que parece não ocupado, o dos moderados. Os demais estados deram vitórias amplas a Trump: New Hampshire, Carolina do Sul, Nevada, Alabama, Arkansas, Georgia, Massachussets, Tennessee, Vermont e Virginia

Independente do fato de restarem muitos delegados em jogo entre os republicanos e da distância nestes números entre Trump e seus adversários ser passível de superação, cresce no partido um sentimento de inevitabilidade de sua candidatura. A ideia de que Trump só não será candidato à presidência se não quiser é algo que ele mesmo procura disseminar, em contraste com as reticências e limitações de Rubio e Cruz.

Os democratas não podem incorrer no erro tático de acreditar nesta inevitabilidade antecipando o pleito de Novembro. Esta é uma estratégia perigosa, que exporia as vulnerabilidades de Clinton antes do tempo, desde acusações de corrupção, improbidade administrativa até problemas de saúde. Para Hillary, este é um momento de mobilização das bases democratas e de preparação para a corrida presidencial, enfrentando suas rejeições em grupos como o das mulheres.

Por enquanto, a tarefa de desconstruir Trump é dos republicanos, se, na prática, estiverem realmente focados (e interessados) nesta tarefa. Neste contexto, fazer previsões nacionais sobre o futuro embate republicano e democrata é precipitado. Cabe observar, com distanciamento crítico, e procurar entender o país que legou ao mundo tanto Barack Obama, quanto Donald Trump.

Cristina Soreanu Pecequilo, Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Pesquisadora NERINT/UFRGS

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "As Eleições Primárias nos EUA: Rumo a Novembro, por Cristina Pecequilo". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 04/03/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/03/04/as-eleicoes-primarias-por-cristina-soreanu-pecequilo/>.

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