Diálogos Indiretos: Argentina e Brasil redefinem uma relação em crise, por Carlos Frederico Gama

As ações externas do novo presidente da Argentina causaram frisson na política mundial. Em 50 dias de governo, Maurício Macri (da coalizão Cambiemos) condenou prisões políticas e invocou a cláusula democrática do MERCOSUL durante eleições legislativas na Venezuela, reabriu negociações com investidores internacionais, buscou canais de negociação com o Reino Unido na disputa pelas Malvinas/Falklands, foi protagonista no Fórum Econômico Mundial (Davos, Suíça) e anunciou uma “reaproximação” com Europa, Estados Unidos…e Brasil[i].

No cômputo geral, a investida diplomática em múltiplas frentes[ii] contrasta fortemente com a política externa insular da ex-presidenta justicialista Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015).

As novidades na Argentina provocaram ondas de euforia e pânico em doses desiguais nos vizinhos. Para o Brasil, o timing é dos piores. Confrontada com um processo de impeachment, Dilma Rousseff não foi a Davos. Em meio a denúncias de corrupção em diversos níveis de governo, a economia patina – além da queda do PIB, a inflação superou o teto da meta, aumentou o endividamento das famílias, o Real perdeu metade do seu valor e empresas como a Petrobrás viram seu valor de mercado desabar. Promessas de liderança regional permanecem apenas em discursos do passado recente. Rousseff acaba de anunciar uma redução do investimento em organismos internacionais[iii]. Subitamente, a carruagem altiva se tornou, a contragosto, abóbora.

Não surpreende que o flamante mandatário argentino busque ser visto como liderança emergente.  Mas é inusitada ver pânico quando a Argentina reconhece o Brasil como seu parceiro prioritário.

A ascensão relativa da Argentina e a queda relativa do Brasil se entrelaçam num impasse incômodo. O estágio de interligação das economias tornou realidade o velho sonho da integração regional. 25 anos após o Protocolo de Assunção, 30 anos após a reaproximação nuclear após o fim de suas ditaduras civis-militares, Brasil e Argentina são parceiros de primeira ordem.

Junto com a integração, veio interdependência assimétrica.  O Brasil absorve 46% das exportações industriais argentinas (80% das exportações automotivas). Mesmo sem seu PIB declinar, a Argentina exportou para o parceiro 27% a menos do que em 2014.  Com montadoras dando férias coletivas e fechando instalações no Brasil[iv], exportações de veículos e peças argentinas caíram 33% em 2015.

Ao invés de unir esforços para aumentar a competitividade conjunta, os dois países investem em próprias matrizes produtivas e disputam acesso a mercados externos. Sem consultas ao MERCOSUL, Rousseff assinou acordos de comércio e investimentos com China, Alemanha, Colômbia e Estados Unidos em 2015. Na Argentina, o órgão criado com capital público e privado para impulsionar as exportações sob CFK (ExportAr) cederá lugar para uma agência de atração de investimento externo direto (Agencia de Inversiones) criada a partir de um pool de ministérios[v]. Essa decisão de Macri faz parte do plano estruturado para quebrar o isolamento da gestão CFK – ao custo de dolorosas negociações com os “fundos abutres[vi]. Após a moratória técnica de 2014, investimentos externos minguaram na Argentina.  A nova Agencia despertou interesse no retorno a Davos, após 13 anos[vii].

O efeito combinado dos desequilíbrios interdependentes é massivo. Em 4 anos, o comércio Brasil-Argentina se reduziu 42%[viii] – retornando a patamares da crise mundial de 2008.

Transformações no perfil internacional dos dois países acentuaram as contradições de sua relação. O Brasil se tornou o segundo maior produtor global de alimentos e acaba de colher safra recorde (mais de 209 milhões de toneladas de grãos[ix]) mesmo numa baixa internacional das commodities. Macri se elegeu com a promessa de retomar o crescimento econômico (estagnado ao fim da gestão CFK). Suas primeiras medidas puseram fim ao câmbio artificial e desoneraram a exportação de produtos agrícolas[x]. Em 2016, a Argentina começou a exportar grãos para países emergentes como Vietnã e Coréia do Sul (mercados considerados estratégicos[xi] para o Brasil de Rousseff).

Impasses na agricultura, indústria e serviços motivaram o governo CFK a bloquear negociações do MERCOSUL com a União Europeia[xii]. Estas incluíam comercio e investimentos que poderiam vitalizar a combalida economia brasileira no governo Rousseff. O Brasil ofereceu à Argentina negociações de livre comércio para acelerar as negociações com a UE[xiii]. Macri reluta em aceitar esses termos[xiv].

O descompasso tem um alto preço. Apenas um décimo das exportações do MERCOSUL se originam de cadeias regionais de produção (peças, equipamentos, bens de capital)[xv]. A integração logística da América do Sul – pensada há 25 anos como tarefa do MERCOSUL – está nas mãos da China, na tentativa de implementar uma ferrovia transoceânica (que atravessará a Floresta Amazônica). Em negociações bilaterais complementadas pela CELAC, a China relegou ao ostracismo o MERCOSUL.

Brasil e Argentina lidarão com outra interdependência assimétrica muito em breve[xvi]. Na última década, a China passou a ser a maior parceira comercial e investidora dos membros do MERCOSUL. Em meio à desindustrialização no Brasil (declínio de 8.3% em 2015[xvii]), investimentos chineses assumiram obras de infraestrutura consideradas estratégicas no PAC II[xviii]. E empréstimos chineses compensaram a escassez de investimentos internacionais na Argentina pós-moratória[xix].

À medida que Argentina e Brasil foram se afastando, paradoxalmente, pelo incremento de sua interdependência, outros poderes regionais e mundiais ganharam oportunidades de ação. Além da China, Chile, Peru, Colômbia e México projetam sua Aliança do Pacífico rumo ao norte. E os EUA encontraram terreno fértil para propor sua Parceria Trans-Pacífica[xx] mais rápido que se imaginava.

A sintonia de palavras entre Cristina e Dilma velou muitos desequilíbrios na interdependência assimétrica. Após a cortina de fumaça, o abismo se fez visível. Hora de conversar em outros termos. O apoio pregresso de Dilma ao candidato derrotado Daniel Scioli[xxi] não ofusca as cartas na mesa.

A tentativa da Argentina de Macri se reaproximar do Brasil de Dilma é uma necessidade pragmática.

Diálogo indireto principiou durante as eleições na Venezuela. Após críticas de Macri[xxii], o Brasil se pronunciou. Via Itamaraty, defendeu inequivocamente o estado democrático de direito e a escolha soberana do eleitorado local[xxiii]. Não há mais espaço na América do Sul para golpismos e aventuras.

O momento de cada país é inquietante. Problemas complexos nos cercam. Começar a responder é um desafio que Argentina e Brasil podem encarar separados. Estatísticas e expectativas convergem para uma imagem pendular: em termos relativos, a Argentina sobe e o Brasil desce.

A densidade de nossos vínculos, entretanto, faz com que toda decisão seja sentida de lado a lado. O aumento da interdependência política e econômica nos trouxe dilemas e contradições comuns. E conversas sobre a proximidade incômoda. Assuntos não faltam: MERCOSUL, UE, Venezuela, China.

O passado tem utilidade limitada. No governo Carlos Menem (1989-2000) o Brasil era um parceiro comparativamente menor. O Brasil de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) pouco fez para ajudar uma Argentina comparativamente menor em meio ao abismo político-econômico de 2001.

Na cooperação, não há respostas prontas. Na crise, Argentina e Brasil podem redefinir sua relação.

[i] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1737861-macri-se-afasta-de-bolivarianos-e-busca-reaproximacao-com-brasil-e-eua.shtml

[ii] http://www.cfr.org/argentina/futureargentinaconversationsusanamabelmalcorra/p37519

[iii] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1738670-para-economizar-governo-vai-rever-participacao-em-orgaos-internacionais.shtml

[iv] http://oglobo.globo.com/economia/montadoras-operam-com-50-da-capacidade-menor-nivel-em-25-anos-18491592

[v] http://www.lanacion.com.ar/1869375lanzanlaagenciaquebuscarainversionesparaelpais

[vi]http://www.infomoney.com.br/bloomberg/mercados/noticia/4610032/governomacrinaoperdetempoentrajusticaparapagardivida

[vii] http://www.lanacion.com.ar/1864758mauriciomacrisobresuvisitaadavosargentinafuerecibidaconunenormeentusiasmo

[viii] http://www.ieco.clarin.com/economia/comercio-Brasil-Argentina-cayo-mitad_0_1501650092.html#cxrecs_s

[ix] http://exame.abril.com.br/economia/noticias/brasil-bate-recorde-de-colheita-de-graos-em-2015

[x] http://www.clarin.com/br/Receitaagricolaargentinomedidasgoverno_0_1502250126.html

[xi] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/01/1730186-dilma-quer-priorizar-acordo-comercial-com-ue-oriente-medio-e-asiaticos.shtml

[xii] http://www.pagina12.com.ar/diario/economia/229200020160208.html

[xiii] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-02/brasil-vai-propor-argentina-livre-comercio-no-setor-automotivo

[xiv] http://www.lanacion.com.ar/1870238-el-gobierno-rechazara-la-pretension-de-brasil-de-liberar-el-comercio

[xv] César, G.R.C.C. “Integração da América Latina”. Jornal dos Economistas, n.319 (2016), pp.3-6.

[xvi] Gama, C.F.P.S. (2015). “A Aliança Brasil-China num Sistema Internacional em Transformação”. SRZD. Disponível em: http://www.sidneyrezende.com/noticia/249738

[xvii] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/02/1736192-industria-cai-83-em-2015-e-tem-pior-resultado-desde-2003.shtml

[xviii] http://brazilmodal.com.br/2015/jornalmultimodal/semcaixagovernadoresnegociamprojetosdiretamentecomasiaticos/

[xix] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/27/internacional/1451250863_783895.html

[xx] Gama, C.F.P.S. (2015). “A parceria Trans-Pacífica e os Desafios da Economia Global em Recuperação”. SRZD. Disponível em: http://www.sidneyrezende.com/noticia/256015

[xxi] http://www.ebc.com.br/noticias/politica/2015/10/candidato-presidencia-da-argentina-confia-em-dilma-e-na-democracia

[xxii] http://www.lanacion.com.ar/1852137-tras-la-derrota-del-chavismo-macri-no-pedira-aplicar-la-clausula-democratica-contra-venezuela

[xxiii] Ministério das Relações Exteriores do Brasil, “Nota: Inauguração da Assembleia Nacional Venezuelana”. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12819:inauguracao-da-assembleia-nacional-venezuelana&catid=42&Itemid=280&lang=pt-BR

 

Carlos Frederico Pereira da Silva Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pesquisador do BRICS Policy Center

 

 

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Diálogos Indiretos: Argentina e Brasil redefinem uma relação em crise, por Carlos Frederico Gama". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 26/02/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/02/26/dialogos-indiretos-argentina-e-brasil-redefinem-uma-relacao-em-crise-por-carlos-frederico-pereira-da-silva-gama/>.

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