Rússia no Oriente Médio – a paz cada vez mais difícil, por Virgílio Arraes

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A entrada da Rússia na guerra civil da Síria em setembro do ano passado alterou sem sombra de dúvida o rumo do conflito. Malgrado a resistência inesperada da ditadura de Al Assad, o tempo era mais e mais desfavorável a ela, por causa da ausência de recursos financeiros e do avolumamento das hostes do denominado Estado Islâmico, auxiliado de maneira paradoxal por países próximos do Ocidente no dia a dia – o comércio de petróleo contrabandeado, hoje não tão frutífero em face da queda ab-rupta do preço do produto, é um exemplo do alinhamento oficioso.

A ajuda do Irã por meio da autorização do envio de efetivos da Guarda Revolucionária e de militantes do Hesbolá não havia sido suficiente para sustentar o regime autoritário sírio por si. De toda forma, o exército local ainda tem sido secundado por militantes iraquianos e libaneses, reunidos em torno de uma extensa aliança xiita.

Até o momento, o maior sinal de virada no confronto é a retomada, mesmo parcial em fevereiro, de Aleppo, cidade próxima da fronteira com a Turquia. Se houver a reconquista, ela seria o ponto simbólico mais importante da campanha sírio-russa.

A investida aumenta o sofrimento na população, ao ocasionar dezenas de milhares de deslocados e preocupar a União Europeia com a perspectiva de assistir a novos refugiados, muitos dos quais transportados para o velho continente, em especial Grécia, por mercenários navais de modo degradante e ilegal.

Diante da real possibilidade de prolongamento da confrontação, as principais potências interessadas naquele país reuniram-se há poucos dias na Alemanha, com o propósito de se estabelecer ao menos um cessar-fogo temporário. Com o recente revigoramento militar da ditadura, o dirigente sírio dispõe-se a efetuar menos concessões aos seus opositores.

Nem mesmo o segmento amparado pelos Estados Unidos, dito moderado, tem esperança de chegar ao poder no curto prazo, ainda que fosse por uma aliança extensa. Apoiadores ocasionais podem até deslocar-se para o campo integrista, se considerá-lo como o último bastião de resistência viável ao semicentenário regime baatista.

O dilema norte-americano perante o fracasso de sua atuação no desenrolar da peleja é recuar na cooptação de grupos de oposição depois de meia década de aproximação e depois ter de compor com os russos na definição do quadro político sírio.

Por situação similar passam sauditas e turcos. Estes cogitam de quando em quando a opção de invadir o território sírio, em decorrência da preocupação com o fortalecimento dos curdos, agregados em torno das Unidades de Proteção do Povo (UPP), aliados, a depender do momento, de estadunidenses ou de russos.

Ancara ressente-se da postura da gestão Obama com a desenvoltura curda no conflito, uma vez que, em terras turcas, a principal representação política da etnia, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, é considerada terrorista, adjetivo subscrito pelo Departamento de Estado desde 1997. Em sendo a agremiação próxima das UPPs, o mesmo conceito poderia ser aplicado a estas, na visão do governo Erdogan.

Aqueles pensam também em enviar tropas, sob a justificativa de opor-se aos extremistas, desde que os norte-americanos as liderassem em uma coligação, à moda da união da década de 90 em desfavor da administração de Saddan Hussein, quando ocupou o Coveite como forma de indenização pelo desgaste de anos de guerra contra o Irã (1980-88).

Na prática, é improvável que os Estados Unidos, em ano de eleição presidencial, aventurem-se de modo militar naquela região e mais ainda a Arábia Saudita, com a corrosão da presença no Iêmen, vá sozinha em outra incursão – embora não muita alardeada a situação do país nos meios de comunicação, ele atravessa fase financeira bastante adversa por conta da baixa da cotação do petróleo.

Não obstante os vários problemas internos, Moscou fortaleceu-se aos olhos da comunidade internacional, ao desnortear Washington com seu ingresso castrense em solo médio-oriental. O objetivo imediato do governo Pútin é chegar à interrupção da guerra até março.

Com centenas de bombardeios por semana, é possível que haja a intensificação da utilização da força aérea nos próximos dias, com o fito de enfraquecer mais o poderio dos revoltosos, ao se sentarem à mesa de negociações.

A reação da Casa Branca é típica do período da Guerra Fria: a de compensação por uma perda, ainda que provisória. Assim, ela irá reforçar nas proximidades das fronteiras europeias do Kremlin, através da Organização do Tratado do Atlântico Norte, seu poderio bélico.

Este é o maior avanço ocidental desde a época da Segunda Guerra, dado que já não existe uma vasta zona tampão, guarnecida na bipolaridade pelo Pacto de Varsóvia.  Isto não influenciará apenas o destino dos debates sobre a Síria, mas os da Ucrânia também.

Deste modo, a trégua na disputa síria é prudente, a fim de que possa ocorrer a execução de medidas humanitárias. Mesmo paliativas, são necessárias ações contra a carestia. Outrossim, o acesso ao auxílio médico à população se impõe de forma imediata. Com o avançar do conflito, organizações não governamentais de direitos humanos denunciam bombardeios russos em áreas civis, algo negado por Moscou.

Em algumas cidades, o povo é sitiado por contingentes oficiais cujo marchar é lento, por depender do apoio aéreo para a reconquista. Não há no cotidiano das batalhas como diferenciar muitas vezes aglomerações civis das dos combatentes, imiscuídos entre a população local.

Dificulta-se o consenso entre Estados Unidos e a Rússia em virtude da preferência de cada um sobre quem poderia assumir o poder na Síria no tempo vindouro. Seria manter os alauítas, como desejam os russos, ou instituir os sunitas, como almejam os norte-americanos.

A fragmentação do território não se resume às duas vertentes tão-somente, haja vista o estabelecimento de inúmeras zonas onde há o controle dos curdos e de extremistas religiosos, sob a bandeira do Estado Islâmico.

A Casa Branca insiste em repartir os adversários do regime baatista em moderados – segmentos mais simpáticos ao Ocidente com os quais negociações poderiam ser entabuladas na composição de um governo de transição – e terroristas – setores de maneira básica observados como fundamentalistas e avessos à participação nos debates de potências do arco norte-atlântico. Em Munique, se isso ocorresse, boa parte dos quase vinte países não teria enviado representantes.

Por último, o longo conflito não desencadeará uma nova guerra fria, como havia dito de forma alarmada o primeiro-ministro russo no recente encontro na Alemanha, mas, por outro lado, em sendo ano de eleição presidencial nos Estados Unidos servirá de insumo da retórica dos grupos mais conservadores no tocante à política externa.

Virgílio Caixeta Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB (arraes@unb.br).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Rússia no Oriente Médio – a paz cada vez mais difícil, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 24/02/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/02/24/russia-no-oriente-medio-a-paz-cada-vez-mais-dificil-por-virgilio-arraes/>.

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