Em busca da chave de Jano: cenários prospectivos e conflitos armados futuros, por Giovanni Okado

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Olhar para o passado e para o futuro simultaneamente é um impulso natural humano. Não importa a época, não importa a finalidade. O ser humano comporta-se como Jano, o deus romano dos portais, cujo olhar bifronte contempla tempos distintos e mudanças contínuas. Inícios e fins intercalam-se e se mimetizam em meio as transições temporais, sempre deixando sinais que indicam possibilidades de eventos futuros. Um dos eventos futuros que mais preocupou a humanidade, no decorrer da História, é a ocorrência de um conflito armado. A resolução de controvérsias pela sorte das armas determinou, em última instância, o destino das sociedades. Refletir sobre o porvir em função da belicosidade tornou-se, dessa forma, exercício indispensável a lideranças políticas de qualquer era, inclusive na contemporaneidade.

Diferentemente de épocas passadas, é possível racionalizar o impulso bifronte humano sob uma moldura científica, a Prospectiva Estratégica, a qual pode aplicar-se à análise de conflitos armados futuros. Se, por um lado, há um avanço no conhecimento científico, por outro, a realidade impõe desafios complexos. A natureza dos conflitos armados mudou. Trata-se de uma constatação comum, tanto em análises teóricas, como a de Mary Kaldor (2010), quanto em análises empíricas, como a do general Rupert Smith (2007). Desde o término da Guerra Fria, a redução dos conflitos armados – notadamente dos conflitos interestatais[1] – e as novas formas de organização da violência organizada convergem para o pressuposto do qual partem os dois autores: a concepção clausewtiziana de guerra está defasada. A violência é cada vez menos direcionada para um ato decisivo que encerre a guerra e concretize um propósito político. A violência constitui, na verdade, um propósito em si mesmo, intrínseco à sustentação da guerra – seja no terreno, seja nas ideias –, possibilitando lucros e disseminando ideologias e identidades. Diante dessa transição, uma questão interpõe-se: é possível prospectar, com relativa fidedignidade, conflitos armados futuros?

Para refletir sobre esta questão, é interessante retomar um estudo prospectivo passado. Há vinte anos, Andrew F. Krepinevich (1996) apresentou quatro situações de conflitos para 2016 baseadas em cenários prospectivos. Cenários representam uma das principais ferramentas da Prospectiva Estratégica, construídos com metodologias específicas e, em suma, são narrativas plausíveis – não necessariamente realizáveis – sobre o futuro, descrevendo a evolução da situação presente para a situação futura (Godet; Durance, 2011). Os quatro cenários de conflitos para este ano, todos eles afetando os Estados Unidos, identificados por Krepinevich são: 1) uma competição entre grandes potências, especificamente entre Estados Unidos e China, em torno da independência de Taiwan; 2) um grande conflito regional no Oriente Médio, em decorrência dos esforços iranianos de alterar a equação energética a favor do país; 3) uma competição entre grandes potências, especificamente entre Estados Unidos/Europa e Rússia, por causa de uma crise na Ucrânia; e 4) um conflito interno na Indonésia, com implicações para a segurança internacional, e uma possível intervenção internacional.

Os três primeiros cenários apresentam descrições muito próximas de eventos que ocorreram ao longo das últimas duas décadas. Na maioria das situações, as datas e as motivações para conflitos armados diferem da realidade, mas não os atores ou regiões, com exceção da Indonésia. Ressalta-se que um cenário prospectivo nunca é um fim em si mesmo, e sim um instrumento do planejamento estratégico para policymakers. O cenário também não é uma previsão do futuro; ele fornece percepções sobre o futuro para contribuir com as decisões. O terceiro cenário do estudo de Krepinevich (1996) impressiona pela alta fidedignidade à narração dos eventos e comprova o quanto o exercício de cenarização pode ser importante para tempos voláteis e incertos.

Krepinevich (1996) descreveu que a Ucrânia, embora rica em recursos naturais, atravessaria uma crise econômica, razão pela qual se aproximaria do Ocidente – também por motivos de segurança – e se afastaria da Rússia. Em meio a esse contexto, passariam a ocorrer disputas em torno da Frota do Mar Negro, do status da Crimeia e do número substancial de nacionais russos vivendo no leste da Ucrânia. Essas disputas reavivariam tensões étnicas, nacionalistas e sectárias entre a população ucraniana e a russa em território ucraniano, com intervenção do governo russo, e transbordariam para as relações entre grandes potências (Estados Unidos e Europa). A narrativa destoa da realidade, em termos substantivo, apenas no estopim para a crise: no lugar de protestos em Kiev contra a decisão do presidente ucraniano de não firmar um acordo com a União Europeia, um acidente com um reator nuclear russo espalharia uma nuvem radioativa sobre território ucraniano culminaria em protestos, sobretudo, no leste ucraniano.

A utilização da Prospectiva Estratégica para a reflexão sobre conflitos futuros demonstra, nesse sentido, uma área a ser explorada em análises internacionais. Um estudo prospectivo russo, elaborado por Alexander A. Dynkin (2010), já alertava que a disseminação de ideais nacionalistas radicais, conceitos de excecionalidade e identidade conflituosa em território russo constituiria tanto um risco quanto uma oportunidade à Rússia, no sentido de se tornar uma nação identificada com valores europeus. A lacuna dessa perspectiva é a ausência de manifestação dessa problemática além das fronteiras russas, muito embora a oportunidade poderia ter sido uma linha de ação adotada pelo governo russo, apoiando, por exemplo, a vontade ucraniana de intensificar relações com a União Europeia. Adicionalmente, nota-se em outro estudo prospectivo, agora do National Intelligence Council (NIC), a preocupação que um eventual isolamento da Rússia do mundo poderia exacerbar tensões interestatais. Em particular, um conflito entre o país e uma ex-república soviética, com possibilidade de intervenção dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) (US, 2012).

A despeito de estudos prospectivos, muitos governos, instituições e até mesmo a mídia elaboram publicações acerca de riscos e ameaças e futuras. A maior parte delas não emprega metodologia da Prospectiva Estratégica e apenas trabalha, quantitativa e qualitativamente, com dados de questionamentos previamente encaminhados. São exemplos de publicação o Global Risks, do World Economic Forum, o Preventive Priorities Survey, do Council on Foreign Relations/Center for Preventive Action, os 10 Conflicts to Watch, da Foreign Policy, entre outros. À diferença de estudos prospectivos, e independente de sua finalidade, essas publicações estão imbuídas de percepções imediatistas, abstraindo-se da evolução histórica dos acontecimentos que possibilitem, no mínimo, identificar tendências. Isso implica na dificuldade de constatar eventos que impactam significativamente no mundo. Um exemplo é a ausência de considerações sobre a consolidação e expansão de grupos radicais islâmicos, notadamente o Estados Islâmico (EI), nas edições de 2014 do Global Risks e do Preventive Priorities Survey.

No máximo, os estudos acima mencionados realizam comparações com a edição anterior e/ou elaboram séries históricas, apresentando os riscos e ameaças de cada ano. Uma suplementação a esses estudos poderia ser a utilização de ferramentas da Prospectiva Estratégica para organizar a reflexão sobre os riscos e ameaças identificados nas séries históricas. Em uma primeira etapa, esses riscos e ameaças poderiam ser categorizados em sementes de futuro (Marcial, 2011), isto é, em fatos ou sinais encontrados no passado e no presente que indicam possibilidades de futuro. Cada semente se diferenciaria em consonância com o grau de percepção de sua presença e atuação, a probabilidade de sua ocorrência no futuro e o grau de impacto de seus efeitos. Em uma segunda etapa, as sementes de futuro seriam reanalisadas, reagrupadas e selecionadas para a construção de cenários prospectivos sobre conflitos armados futuros, descrevendo o encaminhamento de uma ou mais situações atuais até o horizonte temporal estabelecido.

Novamente, reforça-se que os cenários não representam uma previsão afortunada do futuro. Eles permite compreendê-lo melhor e propiciar melhores escolhas e decisões no processo de planejamento estratégico. Krepinevich (1996) ponderava que, na ausência de uma visão sobre o futuro, especificamente de conflitos armados futuros, acabava-se por assumir que estes seriam uma extrapolação linear do presente. Além disso, para o autor, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos considerava que os desafios futuros seriam similares aos desafios da Guerra Fria e da Guerra do Golfo. Esse argumento pode ser reforçado pela assertiva do general Smith (2007) de que os Estados Unidos preparavam-se para a guerra errada, não para a guerra futura com base em lições do passado. Exemplo disso, segundo o general, é que as aquisições militares norte-americanas, ao longo nos anos 1990, estavam atreladas à concepção de um grande confronto no nordeste da Europa – prevalecendo a lógica da Guerra Fria – e, de repente, os atentados de 11/09 conduzem o país a uma guerra global contra o terror, eminentemente marcada por conflitos irregulares.

Não se pretende afirmar, neste artigo, que a Prospectiva Estratégica ou que o exercício de cenarização sejam infalíveis quando se trata de estudar o futuro. Na verdade, o propósito é demonstrar a importância – e até necessidade – de uma reflexão organizada sobre o futuro, com metodologias específicas. Os cenários prospectivos desafiam a sabedoria convencional, estimulando o “pensar fora da caixa”. Esse desafio é ainda maior quando se trata de analisar a probabilidade de ocorrência de conflitos armados futuros em tempos de transformações rápidas e intensas, em que a sustentação da guerra substitui – quando não se converte em – seu propósito político. Eis a importância de se procurar a chave de Jano no mundo contemporâneo: um instrumento para abrir portas do futuro e decidir por onde caminhar, sabendo lidar com eventuais conflitos.

Referências

KALDOR, Mary. Inconclusive wars: is Clausewitz still relevant in these global times?. In: Global policy, v. 1, n. 3, 2010.

SMITH, Rupert. The utility of force. The art of war in the modern world. Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 2007.

United States. National Intelligence Council. Global trends 2030: alternative worlds. Washington: NIC, 2012. Disponível em: <http://goo.gl/8gjl4U>. Acesso em 17 fev. 2012.

MARCIAL, Elaine. Análise estratégica: estudos de future no contexto da inteligência competitiva. Brasília: Thesaurus, 2011, v. 2.

DYNKIN, Alexander A. Strategic global outlook: 2030. Moscou: IMEMO RAN, 2011. Disponível em: <http://www.imemo.ru/files/File/en/publ/2011/11001.pdf>. Acesso em 23 ago. 2011.

CFR; CPA. Council on Foreign Relations; Center for Preventive Actions. Preventive priorities survey 2014. Washington: CFR, 2013. Disponível em: <http://www.cfr.org/peace-conflict-and-human-rights/preventive-priorities-survey-2014/p32072>. Acesso em 19 fev. 2014.

WEF. World Economic Forum. Global risks 2014. Genebra: WEF, 2014. Disponível em: <http://www3.weforum.org/docs/WEF_GlobalRisks_Report_2014.pdf>. Acesso em 8 mar. 2014.

PETTERSSON, Therése; WALLENSTEEN, Peter. Armed conflitcts, 1946-2014. In: Journal of Peace Research, v. 52, n. 4, 2015, pp. 536-550.

[1] Em 2014, havia apenas um conflito interestatal ativo, entre Índia e Paquistão, que provocou pouco mais de cinquenta fatalidades (Pettersson; Wallensteen, 2015).

Giovanni Hideki Chinaglia Okado, Professor Assistente de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) (giovanni.okado@gmail.com).

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "Em busca da chave de Jano: cenários prospectivos e conflitos armados futuros, por Giovanni Okado". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 23/02/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/02/23/em-busca-da-chave-de-jano/>.

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