Bernie Sanders: um “socialista democrático” nas eleições dos EUA, por Herbert Caçador

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No dia 8 de novembro de 2016, os eleitores dos Estados Unidos da América vão às urnas votar na eleição presidencial do país. A eleição norte-americana difere um pouco da brasileira: lá o voto é opcional e indireto, ou seja, ninguém é obrigado a votar e o voto do eleitor não vai diretamente para o seu candidato, mas sim para eleger os delegados de cada Estado que irão compor o Colégio Eleitoral. Serão os delegados eleitos que votarão diretamente nos candidatos a presidente. Normalmente, a preferencia do eleitor é repetida no voto dos delegados. O contrário também pode ocorrer, como nas eleições do ano 2000, quando o candidato democrata Al Gore foi o mais votado pela população, mas perdeu a eleição no Colégio Eleitoral para o republicano George W. Bush.

Esqueçamos todo o confuso e pouco democrático ritual das eleições presidenciais nos EUA para falar de um personagem que vem “roubando a cena” no início do processo eleitoral norte-americano: Bernie Sanders, de 74 anos, atual senador pelo estado de Vermont e candidato a presidente pelo Partido Democrata, que se autodenomina “socialista democrático”.

Bernie não está atraindo a atenção por ofender imigrantes, mulheres e até um senador considerado herói de guerra como faz o seu rival republicano Donald Trump, que transformou sua candidatura num festival de ofensas gratuitas. A candidatura de Bernie, até o momento, atrai os holofotes pelas propostas até então inimagináveis para um candidato a presidente dos EUA e, principalmente, pela alta adesão a sua candidatura como mostraram os primeiros resultados para a escolha do candidato democrata a presidente.

Em resultado histórico, a ex-primeira dama, ex-senadora e ex-secretária de estado Hillary Clinton, candidata preferida da cúpula do Partido Democrata venceu as primeiras primárias no Estado de Iowa por uma pequena margem: 49,8% contra 49,6% de Bernie Sanders, um candidato quase independente, sem a máquina partidária e sem o apoio de grupos econômicos. Este foi o primeiro passo para a escolha interna do candidato democrata que disputará a presidência em novembro.

Após o resultado, Bernie Sanders fez um pronunciamento que impressionou até os mais apaixonados progressistas e socialistas (assista o discurso legendado no link: https://www.youtube.com/watch?v=Sn98cubmoqQ&app=desktop). No discurso, Bernie tocou em assuntos importantes como saúde e educação pública, desigualdade social, meio ambiente, além de parabenizar a adversária do Partido Democrata e mandar um recado provocador aos adversários do Partido Republicano.

Alguns pontos do seu discurso merecem maior destaque. De início, firmou posição: “Nós não representamos os interesses dos bilionários, de Wall Street ou das corporações. Não queremos o dinheiro deles”. Bernie defendeu a saúde pública como um direito de todos e não um privilégio. Criticou ainda a extorsão das indústrias farmacêuticas à população do país. Atacou a crescente concentração de renda nos EUA com uma frase contundente: “Não é justo quando as 20 pessoas mais ricas desse país têm mais riqueza que a metade mais pobre”. Defendeu salários iguais para homens e mulheres, prometeu criar uma economia voltada aos interesses das famílias trabalhadoras e não apenas dos bilionários e criticou veementemente o sistema corrupto de financiamento de campanhas.

Ao defender educação superior gratuita, outra frase de efeito: “Ninguém deveria ser punido financeiramente por querer uma educação decente”. Prometeu mais educação para as crianças e não mais prisões e cadeias. Criticou outras mazelas norte-americanas, como o fato dos EUA possuir a maior população carcerária do mundo, sendo a maioria negra e latina.

Outro ponto defendido foi a mudança para uma matriz energética eficiente e sustentável, no lugar dos combustíveis fósseis. Como fazer tudo isso? Bernie responde que tudo será pago com a criação de um imposto sobre a especulação financeira de Wall Street.

O ataque aos rivais republicanos foi forte, principalmente na questão das mudanças climáticas: “Parem de se preocupar com as suas doações de campanha das petroleiras, ou dos irmãos Koch, ou da indústria do carvão, preocupe-se com o planeta que você vai deixar para seus filhos e netos”.

Ao final do discurso disse que nenhum presidente será capaz de fazer todas as mudanças necessárias por causa do poderio econômico de Wall Street, das grandes corporações e dos grandes doadores de campanha. Segundo Bernie, tudo isso impede que o presidente sozinho faça tudo, e indo ainda mais longe em seu discurso conclamou: “Quando a juventude, a população trabalhadora, e os idosos começarem a se impor e disserem que o nosso governo, que o governo do nosso país pertence a todos nós e não a um punhado de bilionários, quando isso acontecer, nós vamos transformar esse país”.

As próximas primárias ocorrem ainda no mês de fevereiro nos Estados de New Hampshire, Carolina do Sul e Nevada. Até junho, todos os Estados norte-americanos passarão pelo mesmo processo e, por fim, serão realizadas as convenções nacionais dos Partidos Democrata e Republicano, que escolhem os dois candidatos finais para disputar o cargo mais poderoso do planeta.

Por fim, vale citar o pertinente comentário do jornalista Fernando Morais acerca da candidatura de Bernie Sanders: “mesmo descontada a minha proverbial boa fé, ver esse velhinho discursar de punho fechado, prometendo uma revolução política nos EUA, é de encher o coração de esperança”.

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