O Bicentenário de Varnhagen, por Sérgio Moreira Lima

Comemora-se este ano o bicentenário do nascimento do diplomata oitocentista Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878). É notória sua contribuição para a historiografia brasileira, tendo sido considerado por Capistrano de Abreu, o maior historiador de sua época. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e a Academia Brasileira de Letras, duas instituições às quais está associado, têm previstas homenagens com foco no seu papel na história e na literatura.  A Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), como braço acadêmico do Itamaraty, em parceria com o Instituto Rio Branco e com a Universidade de Brasília, marcará a efeméride com a realização, em 31 de março, de seminário sobre diplomacia e pensamento estratégico na concepção de Varnhagen e sobre sua participação, durante o Império, no projeto de transferência da capital.

O propósito da iniciativa é estimular a pesquisa e o debate em torno de personagens brasileiros que marcaram sua época, distinguiram-se em suas atividades a ponto de integrar a memória nacional. É importante que se discuta o alcance de sua obra do ponto de vista dos princípios e valores que inspirou e dos interesses maiores da nação a que serviu. Varnhagen teve o mérito de pensar o Brasil de uma perspectiva geopolítica e geoestratégica. Para ele, a ação diplomática deveria se orientar nessa direção como instrumento na realização de propósitos que levariam ao ideal de grandeza nacional. Sua formação militar e as pesquisas que conduziu a respeito das fronteiras e dos espaços brasileiros ainda em Portugal permitiram-lhe um juízo amadurecido e um conhecimento detalhado de questões cruciais na defesa dos interesses da pátria.

Quando visitei recentemente o Memorial Juscelino Kubistchek, pude verificar que ali se encontra o barômetro que Varnhagen ofereceu à cidade de Formosa em 1877, como a pedir um estudo mais aprofundado sobre aquele instrumento de medição e um maior reconhecimento dos esforços do diplomata na gênese do processo de integração territorial brasileiro. Na linha de José Bonifácio e de Hipólito José da Costa, Varnhagen, então representante do Brasil na Áustria de Francisco I, realizou, em 1877, a primeira expedição ao Planalto Central para a identificação do local para a futura capital. O périplo, que logrou superar todas as dificuldades da época, visava ao reconhecimento de regiões propícias à participação europeia no esforço de povoamento e desenvolvimento do Centro-Oeste do país. A viagem foi precursora da Missão Cruls, a Comissão Exploradora do Planalto Central, formada, em 1892, pelo engenheiro belga Luís Cruls, diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, e 21 membros, entre cientistas, técnicos e militares, que seguiu o mesmo roteiro percorrido por Varnhagen.

Em 2013, a Fundação Alexandre de Gusmão publicou, em três volumes, a obra Pensamento Diplomático Brasileiro, Formuladores e Agentes da Política Externa (1750-1964), que reúne ensaios de acadêmicos, historiadores e diplomatas. Entre os personagens selecionados para figurar no estudo, encontra-se Francisco Adolfo de Varnhagen. Coube ao Presidente do IHGB, Professor Arno Wehling, respeitado historiador e biógrafo do personagem, explicar a contribuição do brasileiro de Sorocaba, filho de pai alemão e mãe portuguesa, ao pensamento da diplomacia brasileira. Trata-se de um dos trabalhos mais reveladores sobre o biografado já elaborados na busca de responder à questão sobre a contribuição de Varnhagen ao pensamento diplomático brasileiro. A obra, assim como o ensaio citado, pode ser consultada na Biblioteca Digital gratuitamente (www.funag.gov.br).

O texto do Professor Wehling é revelador do alcance e da atualidade do pensamento diplomático de Varnhagen. Sua visão estratégica das bacias hidrográficas e dos limites territoriais, relacionada à defesa e, precocemente, à integração nacional, repercute no próprio conceito orientador da localização da futura capital do país no divisor de águas, ou seja, na confluência dos grandes rios que fluem e aproximam a imensidão do espaço brasileiro. Igual interesse demonstrava no tocante aos povos indígenas, às questões da navegação do rio Amazonas e das fronteiras com potências europeias ao norte. Suas concepções e diretrizes contribuíram para a consciência geopolítica da importância desses espaços, mas também para a valorização do direito internacional, na melhor tradição da diplomacia pátria.

O seminário servirá de estímulo à reflexão sobre a atualidade da obra e do pensamento de Francisco Adolfo de Varnhagen. Os temas referidos evoluíram e adquiriram importância econômica, ambiental e de integração regional, cujo impacto se observa também nos planos nacional e global, à luz das preocupações com mudança de clima e compromissos com o desenvolvimento sustentável, sem prejuízo de uma perspectiva geopolítica e estratégica.

 

Embaixador Sérgio Moreira Lima é presidente da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

 

*Artigo orginalmente publicado no Jornal Correio Braziliense em 16 de fevereiro de 2016.

 

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "O Bicentenário de Varnhagen, por Sérgio Moreira Lima". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 18/02/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/02/18/o-bicentenario-de-varnhagen-por-sergio-eduardo-moreira-lima/>.

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