A expansão do poderio militar russo no mar cáspio, por Guilherme Mello

O Mar Cáspio é o maior mar fechado do mundo (landlocked) e é cercado pelo Azerbaijão, Cazaquistão, Irã, Turcomenistão e Rússia. É, também, amplamente considerada uma fonte de recursos energéticos por suprir a crescente demanda interna do Cáucaso e da Ásia Central, e, por contingenciar aproximadamente uma reserva de hidrocarbonetos válida entre 30 a 40 anos de suprimento, transportando também energia para o leste europeu e para o norte do Paquistão e noroeste da China. É considerado a maior e, dependendo do ponto de vista, melhor alternativa de acesso à hidrocarbonetos que não seja provindo do Oriente Médio – e por isso, é alvo de uma crescente rota de pipelines, ou oleodutos, que cruzam majoritariamente o Turcomenistão, Cazaquistão, Irã, China e Ucrânia consequentemente até seus destinos finais. Até 2010, houve mais de 18 tentativas de pipelines entre território centro-asiático, chinês e russo que cruzaram o Cáspio ou redirecionaram em algum nível seus recursos. As pipelines Blue Stream, South Caucasus gas pipeline, Turkmenistan-China, Turkmenistan-Iran, Baku-Supsa, Caspian Pipeline Consortium, Baku-Tblisi-Ceyhan, Kazakhstan-China foram modelos de sucesso. As pipelines South Stream, Central Asia-Center upgrade, Pre-Caspian Pipeline, Nabucco, Turkey-Greece-Italy, Turk-Afghan-Pakistan-India (TAPI), Iran-Pakistan-India (IPI), Samsun-Ceyhan e Kashgan são modelos novos que ainda estão em discussão, sendo passivos de aceitação ou não.

Recentemente, é cada vez mais possível observar um crescente antagonismo na política securitária russa, uma vez que suas estratégias de intervenção são amplamente dicotômicas na decisão de onde devem e podem infiltrar-se. Recentes atividades como a invasão e conquista do território da Crimeia, a invasão de territórios ucranianos e a intervenção da guerra civil síria, são exemplos da rotatividade de interesses incongruentes russos. Estes desvios na política externa securitária representam a materialização de um desconforto para os países que cercam o Mar Cáspio (Panahov, 2015). O Ministério da Defesa do Cazaquistão (2015) mostrou como exemplo o estabelecimento o acordo securitário lançando em 4 de novembro com o Azerbaijão, um indicativo de que havia oportunidades e preocupações securitárias emergentes. Esse plano notoriamente prevê a união da força naval no Mar Cáspio, excluindo as tropas russas. Particularmente, essas alianças e cooperações securitárias perpendiculares, principalmente entre o Cazaquistão e Azerbaijão são frutos de uma extensa ansiedade no uso do Cáspio como rota de transporte e de participação russa nos conflitos do Oriente Médio. O Cáspio já foi utilizado como acessório de guerra quando a frota naval russa na bacia do Cáspio atirou mísseis através navios de interceptação contra o espaço territorial sírio em Outubro e Novembro de 2015 (BBC, 2015). Enquanto Astana tem temperado suas próprias declarações sobre a atividade militar russa no Mar Cáspio, o presidente do Turcomenistão, Gurbanguly Berdimuhamedov, preferiu ter uma conversa direta com o presidente Vladimir Putin. Lá, Berdimuhamedov indicou claramente que seus vizinhos do norte estavam preocupados com a ação russa através de missões militares no Mar Cáspio – reivindicando uma resposta russa, sem muito sucesso.

Enquanto isso, o Turcomenistão também pode ser perturbado por operações russas no Cáspio. O Turcomenistão mantém uma plataforma política assumidamente (e preferencialmente) neutra. De acordo com Standish (2015), ainda assim, o governo do Turcomenistão emprestou apoio retórico para a Ucrânia no conflito de Kiev com a Rússia. Manifestou, também, a sua apreensão em relação de Moscou na Geórgia em 2008 através da realização de exercícios militares no Mar Cáspio. É uma atitude surpreendente, vindo de um país neutro em opiniões militares, o que aumenta a preocupação da Ásia Central e do Cáucaso na crescente insubordinação russa no uso das águas do Cáspio (Michel, 2015).

Para Solovyov (2015), é bastante claro que a Rússia subordina abertamente os interesses dos outros Estados do Mar Cáspio para a eficácia de sua campanha na Síria. Em sua reunião de novembro com Berdimuhamedov do Turcomenistão, o Presidente Putin reconheceu que os lançamentos de mísseis de cruzeiro foram criando “alguns inconvenientes” para os vizinhos da Rússia. No entanto, Putin declarou que a Rússia iria continuar as operações enquanto acharem apropriado. Isto pode ser desconcertante para o Cazaquistão, Turcomenistão e Azerbeijão, mas é consistente e condizente com a abordagem estratégica pós-soviética de Moscou ao Mar Cáspio. A Rússia trata o Cáspio como um condomínio legal, ou seja, todo o mar é propriedade conjunta de todos os cinco países do litoral. Esta perspectiva é geralmente aplicada à questões de exploração de energia. Ainda assim, do ponto de vista da Rússia, uma leitura militar poderia ser uma função lógica do mesmo ponto de vista jurídico. Consoante Standish (2015), a propriedade conjunta do Cáspio é a política equitativa apenas na teoria, simplesmente porque Moscou mantém a mais sofisticada frente militar e infraestrutura de energia dos cinco países e isto significa efetivamente dizer que os interesses cazaques, turcomanos e azeris (e potencialmente iranianos) são respeitados quando eles não entrem em conflito com os interesses russos – caso contrário, os interesses russos sempre irão de alguma forma sobrepujar os de seus vizinhos.

Para o Cazaquistão, o que representa? O Cazaquistão consistentemente mantém sua parceria com a Rússia sobre as iniciativas econômicas e políticas regionais no espaço pós-soviético (especialmente sobre a égide da Silk Road Economic Belt e Eurasian Economic Union). Astana também mantém uma relação positiva com a Turquia. Além disso, o Cazaquistão não adere à plataforma política da Rússia sobre a Síria. Em vez disso, o governo do Cazaquistão apresenta-se como um mediador potencial e já sediou as negociações entre as facções da oposição síria. Para o Cáspio, significa que todo e qualquer acordo militar, possui consequências econômicas, já que a Europa é um de seus maiores consumidores através do transporte de bens, serviços, matéria-prima e hidrocarbonetos, e animosidades com a Rússia significam sanções entre estas transações.

Para o Azerbaijão, o que representa? status do Azerbaijão é igualmente difícil. Moscou mantém uma relação estranha com Baku. Moscou é politicamente alinhado com a Armênia, principal rival do Azerbaijão. A Rússia é também fornecedora de armas primário do Azerbaijão – uma clara dicotomia entre aliado político e aliado militar em um conflito como o de Nagorno-Karabakh.

Estas operações na Síria, na Ucrânia e no Mar Cáspio representam as maiores frentes armadas de Moscou para além das fronteiras da Rússia desde o colapso da União Soviética. Se estas iniciativas não soam preocupantes, elas são, no mínimo, ambiciosas, ambivalentes e questionáveis. Embora estados como o Cazaquistão e o Azerbaijão tenham geralmente laços estáveis ​​com a Rússia, este desdobramento de campanhas militares continuam a testar a integridade desses relacionamentos tipicamente positivos e minar pensamentos contrários e revolucionários contra o gigante soviético. E porque afinal isto é preocupante? A prevalência russa no território pós-soviético é fruto de um “Putinismo” e uma agenda mais prolixa entre 2000 e 2011. Esta agenda visa expandir a política externa da Rússia e sua dominação no espaço pós-soviético, focando em questões securitárias e econômicas, como propostas de integração e iridescência militar em zonas de conflito. Essa forte atividade e interação russa, nada mais configuram do que uma tentativa pincelada de fundamentos ocidentais de participar mais ativamente de um diálogo neoliberal e neorrealista de expansionismo estatal.

Referências:

BBC (2015) “Russian missiles ‘hit IS in Syria from Caspian Sea” Middle East, 7 October, 2015. Disponível em: http://www.bbc.com/news/world-middle-east-34465425

MICHEL, Casey (2015) “Even Vladimir Putin’s Authoritarian Allies Are Fed Up With Russia’s Crumbling Economy” New Republic, January 18, 2015. Disponível em: http://www.newrepublic.com/article/120778/eurasian-economic-union-putins-geopolitical-project-already-failing

Ministry of Defense of Kazakhstan (2015) “Ministers of Defense of Kazakhstan and Azerbaijan approved cooperation plan for 2016” Kazinform, International News Agency. Disponível em: http://www.inform.kz/eng/article/2835688

PANAHOV, Huseyn (2015) “Where Does the Caspian Sea Figure in Russia’s Strategic Calculus?” EURASIA.Net, October 23, 2015. Disponível em: http://www.eurasianet.org/node/75686

SOLOVYOV, Dmitry (2015) “Kazakhstan floats tenge, currency tumbles” Reuters, August 20, 2015. Disponível em:  http://www.reuters.com/article/2015/08/20/us-kazakhstan-tenge-idUSKCN0QP0PN20150820

STANDISH, Reid (2015) “China and Russia Lay Foundation for Massive Economic Cooperation” Foreign Policy, July 10, 2015. Disponível em: http://foreignpolicy.com/2015/07/10/china-russia-sco-ufa-summit-putin-xi-jinping-eurasian-union-silk-road/?wp_login_redirect=0

 

Guilherme Mello é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra e membro pesquisador do projeto Marie Curie em política externa russa.

 

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A expansão do poderio militar russo no mar cáspio, por Guilherme Mello". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 16/02/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/02/16/a-expansao-do-poderio-militar-russo-no-mar-caspio-por-guilherme-mello/>.

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