Cai o preço do petróleo, aumenta a produção de energia renovável: como explicar?, por Larissa Basso

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Nos últimos 18 meses, o preço do petróleo tem estado em queda: o preço do barril passava de 120 dólares em meados de 2014; é cotado em torno de 30 dólares em janeiro de 2016. A queda do valor do petróleo, influenciada por diferentes fatores inter-relacionados, além de afetar preços de uma vasta gama de produtos que dele fazem uso, direta ou indiretamente, muda preços relativos das energias que com ele concorrem, como as renováveis. No entanto os investimentos globais em energias renováveis têm se mantido, e não diminuído, no mesmo período. Como explicar esse fenômeno, e teria ele fôlego para persistir no tempo?

A queda no valor do petróleo é explicada, principalmente, pelo aumento da oferta do produto no mercado internacional. Nesse período, os principais produtores de petróleo, os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), mantiveram altos níveis de produção, apesar dos preços menores (em ocasiões anteriores, baixos preços impulsionaram a OPEP a reduzir sua produção, provocando elevação dos mesmos na sequência). Em 2015, exportadores como Venezuela e Rússia, com petróleos de exploração mais cara e altamente dependentes do valor dessas exportações para balancear o orçamento nacional, pressionaram continuamente para que a medida fosse reeditada. A Arábia Saudita, detentora de imensas reservas de exploração relativamente barata, porém, optou por manter altos seus níveis de produção, com o objetivo, principalmente, de inviabilizar a exploração do shale oil e do shale gas nos Estados Unidos, um dos grandes compradores mundiais. A diminuição da atividade econômica na China também teve papel no aumento da oferta, e o fim dos embargos ao petróleo do Irã, outro grande produtor mundial, tende a manter esse quadro de preços baixos, pelo menos pelos próximos meses.

Os baixos preços do petróleo parecem não estar afetando a produção de energias que com ele concorrem. Isso é interessante e torna claro que para explicar a produção de energia é necessário analisar também outras variáveis, em especial as características dos investimentos no setor, que são de grande monta e têm retorno no longo prazo, e o desenvolvimento tecnológico ocorrido nos últimos anos.

O caso do shale é um exemplo: de produção cara, o shale começou a ser explorado comercialmente quando os preços internacionais do petróleo passavam dos 100 dólares o barril, viabilizando sua exploração. Foram feitos grandes investimentos na exploração do shale e formou-se uma cadeia produtiva, que diminuiu o preço da energia no mercado estadunidense. Atualmente, apesar da queda dos preços do petróleo, produção estadunidense de shale segue. Primeiro, porque houve aumento da eficiência na exploração das reservas de shale via melhora na tecnologia de fracking, que reduziu os custos. Segundo, porque como os investimentos da cadeia produtiva foram altos, descontinuar a produção antes de seu retorno significaria arcar com prejuízos; portanto a produção é mantida caso os preços de mercado do shale sejam pelo menos iguais aos custos de produção.

O caso das energias renováveis também é interessante, vez que os investimentos também têm mantido o fôlego apesar da queda nos preços do petróleo. Alguns fatores ajudam a entender o porquê. Primeiro, petróleo e as energias renováveis cujos investimentos se mantêm – especialmente energia eólica e solar – não concorrem de maneira direta: o primeiro é preponderante no setor de transportes enquanto as segundas estão estabelecidas na geração de eletricidade. No setor elétrico, os combustíveis fósseis mais amplamente empregados são o carvão e o gás, que têm dinâmicas próprias. O primeiro é relativamente abundante e muito barato, mas já enfrenta altas taxas de rejeição por conta da resultante poluição do ar decorrente de sua queima. O gás depende de  um sistema de distribuição eficiente para manter-se barato, o que nem sempre ocorre. Além disso, as características do sistema de transmissão empregado para a eletricidade influenciam o preço final, e podem alterar a competitividade das fontes – por exemplo, a eletricidade eólica ou solar pode ser comercialmente mais viável em um país de grandes acidentes geográficos, dada a dificuldade para estabelecer redes de distribuição de gás ou linhas de transmissão de alta extensão.

Segundo, a produção de eletricidade renovável está ficando mais barata. O amadurecimento de tecnologias como eólica (terrestre e marítima), solar fotovoltaica e solar concentrada permitiu importante ganhos de escala. Novos desdobramentos tecnológicos, como painéis solares adaptados a janelas e microprodução eólica, hoje em fase piloto, também devem se tornar economicamente viáveis em breve, assim como tecnologias de armazenamento da energia que possam mitigar a intermitência dessas fontes, como baterias mais eficientes. Tais desdobramentos ampliam o escopo da indústria das energias renováveis e aumentam a perspectiva dos investidores em relação ao setor.

Terceiro, as demandas ambientais também influenciam – as climáticas incluídas, mas, infelizmente, ainda pouco. O apoio às energias renováveis deve-se, ao menos em parte, em razão da pressão por formas menos poluidoras do ar e da água na geração de energia, tendo em vista a importante deterioração da qualidade desses bens públicos comuns. O conhecimento da ligação direta entre queima de combustíveis fósseis, poluição do ar e problemas respiratórios, por exemplo, disseminou-se e gerou pressão popular por mudanças, o que impulsionou investimentos de larga escala em fontes renováveis em países como a China – o atual maior mercado para renováveis em termos de ampliação da capacidade de geração. Corroboram também os sinais de compromisso com a intensificação de esforços para redução de gases de efeito estufa, como os emitidos na Conferência de Paris, ainda que, em razão de seu caráter programático, não sejam os mais relevantes para o setor.

Por fim, houve aumento de políticas de suporte para energias renováveis – como parcelas mínimas da matriz energética, redução de tributos para insumos e subsídios para essas energias (FS-UNEP, 2015). Essas medidas reduzem a sensação de risco dos investidores e os tornam mais propensos a injetar maiores somas, essenciais para potencializar ganhos de escala e escopo. Como os investimentos em energias renováveis não diferem dos demais investimentos em energia no que se refere à taxa de retorno de longo prazo, as taxas de investimento têm se mantido no tempo se as políticas de suporte também são mantidas. De fato, a expansão dessas medidas em países em desenvolvimento – em 2014, o montante de investimentos em energia renovável em países emergentes ultrapassou, pela primeira vez, o montante de investimentos em países desenvolvidos (FS-UNEP, 2015) – ampliou o mercado global de energias renováveis e também é fator importante para explicar a resiliência do setor.

Portanto observa-se certo descolamento da energia – ou melhor, eletricidade – renovável em relação ao petróleo, mas é muito cedo para falar em autonomia. Apesar dos preços em queda, os investimentos na produção de petróleo têm aumentado continuamente e em maior escala que os investimentos em renováveis. Os subsídios a energias fósseis foram projetados em aproximadamente dez vezes o valor oferecido a renováveis em 2015 (FMI, 2015). E, paradoxalmente, a competitividade das energias renováveis em países dependentes de tecnologia estrangeira, como é grande parte dos países emergentes e de menor desenvolvimento onde a produção de energia renovável tem aumentado, é assegurada pelos baixos preços do petróleo, que diminuem o valor do frete e possibilitam a importação de componentes de usinas eólicas e solares. Não é possível traçar tendências para o futuro dessa relação no longo prazo, há muitas incertezas e o quadro pode mudar. Resta acompanhar os acontecimentos e torcer para que a autonomia verdadeiramente se concretize no futuro.


Referências:

Bloomberg New Energy Finance (2015): Clean Energy Investment – end of 2015, disponível em <http://www.bloomberg.com/company/clean-energy-investment/>, acesso 30 Jan 2016.

FMI (2015): How large are fossil fuel subsidies? Working Paper 15/105, disponível em <https://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2015/wp15105.pdf>, acesso 20 Nov 2015.

FS-UNEP (2015): Global trends in renewable energy investments 2015, disponível em <http://fs-unep-centre.org/sites/default/files/publications/15028nefvisual9mediumres.pdf>, acesso 20 Nov 2015.

IEA, International Energy Agency (2015): 2015 key energy statistics, disponível em <http://www.iea.org/publications/freepublications/publication/KeyWorld2015.pdf>, acesso 20 Jan 2016.


Larissa Basso é doutoranda no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e membro da rede de pesquisa Sistema Internacional no Antropoceno e Mudança Global do Clima (larissabasso@gmail.com).

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