A política externa independente e algumas interpretações sociológicas sobre o Brasil: ecos na atualidade, por Ana C. Canellas

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Frente ao fracasso do paradigma americanista, eis que a Política Externa Independente (PEI) surge no início da década de 1960 como forma de flexibilizar e diversificar as relações internacionais brasileiras em tempos de guerra fria. Tal paradigma de política externa almejava permitir ao Brasil atuar como mediador entre o primeiro e o terceiro mundo. Em meio a essa busca de uma nova política externa, os diplomatas do Itamaraty utilizaram, em parte, determinadas representações da identidade nacional brasileira.

Uma dessas representações, utilizada pela diplomacia brasileira, foi o conceito de cordialidade criado por Sérgio Buarque de Holanda (1995). Segundo o sociólogo, a cordialidade se manifesta externamente na “lhaneza no trato, a hospitalidade [e na] generosidade” (HOLANDA, 1995, p.146), no entanto não é só isto que a define, mas também “um fundo emotivo extremamente rico e transbordante” (HOLANDA, 1995, p.146), fruto de uma valoração das ligações afetivas acima das ligações impessoais vistas, por exemplo, na formalidade e na polidez rígida.

Aliado ao traço da cordialidade brasileira, materializado na figura do homem cordial de Holanda (1995), soma-se o elemento da miscigenação desenvolvido por Gilberto Freyre (2003). O redescobrimento de um ethos particular fruto da proximidade e convivência íntima de heranças culturais distintas proporcionado pela experiência positiva trazida da casa-grande fez surgir a figura do mestiço. Segundo Ricardo Benzaquen de Araújo (2009, p.201), “(…) Gilberto, vai convertê-los em um personagem híbrido, fruto de um amálgama que envolveu, entre outros, árabes, romanos e judeus, e que se iniciou muito antes do seu desembarque no continente americano”.  Como resultado desses sistemas de representação, surgiu a concepção de que o Brasil seria uma democracia racial, onde o preconceito racial seria inexistente, havendo, somente, o preconceito de classe.

O luso-tropicalismo presente na obra “Uma política transnacional de cultura para o Brasil de hoje” (1960) que, em traços gerais, designa a especial capacidade portuguesa de adaptação aos trópicos, Freyre argumenta que essa habilidade não encontra raízes em interesses políticos ou econômicos, mas sim na empatia inata em se relacionar com as terras e o povo tropical. O sociólogo e antropólogo investiga tal aptidão do português e conclui que esta tem sua gênese na sua própria origem étnica híbrida bem como do longo contato entre mouros e judeus na Península Ibérica. Dessa forma, o povo português teria se caracterizado por uma interpenetração cultural e por uma miscigenação nos primórdios do processo de formação de sua identidade nacional. Freyre (1960) criou a figura do homo portucalensis a fim de materializar a capacidade de adaptação do português.

Traçando uma comparação com o homo portucalensis, o luso-tropicalista de Gilberto Freyre (1952), Menezes (1956) cunha o termo homo brasiliensis que teria maior capacidade de se aproximar e de estabelecer duradoras pontes de entendimento pelo “corpo e pelo espírito” (MENEZES, 1956, p.285). Além do fator da miscigenação, a mentalidade brasileira seria idealista e espiritual por natureza, o que facilitaria as interações com o terceiro mundo e possibilitaria assumir uma posição de liderança moral dentro da conjuntura internacional existente na época, por demais dominado por posições realistas estéreis.

Em 1956, antes mesmo da formulação da PEI, o diplomata brasileiro Adolpho Justo Bezerra de Menezes, observador na Conferência de Bandung, proporia semelhante diversificação das relações brasileiras se baseando, em grande parte, em tais ideias e imagens sobre o Brasil. Ao publicar o livro “O Brasil e o mundo Ásio-Africano”, Menezes (1956) expôs suas reflexões acerca da emergência da África e da Ásia no cenário internacional através do movimento dos não-alinhados e o papel de liderança e intermediação que poderia ser assumido pelo Brasil em meio a este contexto.

Menezes (1956) afirma que a maior deficiência do mundo ocidental (Estados Unidos e Europa como seus principais representantes) em lidar com a emergência destes novos atores seria a atitude racista e imperialista que ainda era possível ser observada em particular nos Estados Unidos, à época no auge das lutas dos negros americanos por seus direitos civis. Ademais, o primeiro mundo careceria da espiritualidade e idealismo presentes e valorizados no terceiro mundo.

O Brasil estaria em uma posição privilegiada devido a sua formação social particular que embora o tenha tornado inegavelmente parte do Ocidente ainda assim o deixou com ligações profundas com a África e a Ásia. Citando Gilberto Freyre (1952) e seu luso-tropicalismo, Menezes (1956) afirma que o Brasil, com sua miscigenação, possuiria capacidade de interagir com o terceiro mundo e intermediar entre o primeiro e o terceiro mundo. Segundo o autor “quer queiramos, quer não, o Brasil é país de miscigenação” e, portanto, deveria-se capitalizar esta realidade e realizar a tarefa de “difundir, pelo mundo, um estado social já existente e a de basearmos e canalizarmos nossa política internacional sobre tal estado étnico e em função dele” (MENEZES, 1956, p.283). Para o diplomata, este papel que poderia ser assumido pelo Brasil não seria nada menos que o seu “destino histórico” (MENEZES, 1956, p.285).

O modo como o Brasil se enxerga no mundo, traduzido na sua Política Externa, é trazido à baia nas suas relações multilaterais. Tal identidade internacional é tida como especial e única na medida em que confere ao país a capacidade de lidar com todos. Esse tratamento característico da nação brasileira é traduzido na Política Externa Independente (PEI) de 1961 pelas vias do universalismo e pluralismo das relações brasileiras com o mundo. A marca registrada da diversificação das parcerias condiz com as ideias e imagens sobre o Brasil expostas anteriormente.

O elemento identitário aparece nas referências ao homos brasiliensis e na sua capacidade de se aproximar e de estabelecer duradoras pontes de entendimento pelo corpo e pelo espírito, bem como nos elementos presentes na nossa política externa tais como a postura brasileira como sendo um país solidário diante dos povos que buscam conquistar sua independência econômica, que possui uma conduta internacional neutralista, independente e que busca diversificar suas parcerias ao estreitar laços tanto com o Ocidente quanto com o Terceiro Mundo. É nesse sentido que a Política Externa de 1961, seria, então, caracterizada pela independência de blocos ou nações ou compromisso de ação conjunta.

Tal vertente de política externa é a mesma que pauta a atuação brasileira até os dias de hoje. Essa postura reconciliadora reforça a diretriz que estabelece a arbitragem como solução pacífica de controvérsias, de forma que a maneira pela qual a política externa é apresentada acaba por criar uma concordância entre interesses e a representação da identidade brasileira aqui apresentada anteriormente.

A mediação brasileira no que se refere ao acordo nuclear com o Irã é um exemplo de como a atuação brasileira colaborou ao dirimir uma questão de segurança internacional. A participação brasileira, no caso em específico, culminou na assinatura do acordo entre Irã e Turquia em 2010. Tal acordo previa a troca de urânio 3,5% por urânio enriquecido a 20%. Em suma, o país é, mais uma vez, apresentado como aquele que exerce o papel de mediador de conflitos, sendo o Brasil uma ponte conciliadora entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, entre o ocidente e os países de origem não ocidentais. Este princípio e linha de atuação, ao ser apresentado como questão de solidariedade moral e um desejo sincero evoca a ideia de um Brasil cordial.

 

Bibliografia:

ARAÚJO, R. B. D. Chuvas de verão. “Antagonismos em equilíbrio” em Casa-grande e senzala de Gilberto Freyre. In: BOTELHO, A.; SCHWARCZ, L. M. (Org.) Um Enigma Chamado Brasil: 29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.198-211.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala. São Paulo: Global, 2003.

FREYRE, Gilberto. Uma política transnacional de cultura para o Brasil hoje. Revista Brasileira de Estudos Político, Rio de Janeiro, 1960.

FREYRE, Gilberto. Aventura e rotina. Lisboa, 1952.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil, São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MENEZES, Adolpho Justo Bezerra de. O Brasil e o mundo ásio-africano. Brasilia: FUNAG, 1956.

Webgrafia: https://onial.wordpress.com/2013/08/27/a-mediacao-brasileira-no-caso-de-enriquecimento-de-uranio-iraniano/

Acesso realizado em: 13.01.2016.

Ana Carolina de Lucena Canellas, é Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PGRI-UERJ)

Como citar este artigo:

Editoria Mundorama. "A política externa independente e algumas interpretações sociológicas sobre o Brasil: ecos na atualidade, por Ana C. Canellas". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 28/01/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/01/28/a-politica-externa-independente-e-algumas-interpretacoes-sociologicas-sobre-o-brasil-ecos-na-atualidade-por-ana-carolina-de-lucena-canellas/>.

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